Autodidata numa época em que o conhecimento era proibido e inacessível às mulheres, ela tornou-se filósofa e escritora. Publicou textos e obras abordando questões morais, literárias e políticas. Entre eles, o tratado Sobre a Igualdade de Homens e Mulheres em 1622, no qual contestou algumas ideias tidas como verdades. Uma delas, a de que os homens dominavam a cultura e a ciência por serem naturalmente mais aptos.
– Não é nada disso! – argumentou Marie de Gournay em sua obra – O que acontece é que o conhecimento é proibido às mulheres – concluiu a escritora e filósofa.
E era proibido, mesmo.
A jovem nobre Sophie Brathe, irmão do astrônomo Tycho Bache, soube desde muito nova isso.
Enquanto seu irmão mais velho era educado com a educação mais top à época, ela foi proibida pelos pais de estudar, já que isso “não era coisa de mulher”. A proibição, no entanto, não impediu que Sophie usasse do seu privilégio e o acesso à espetacular biblioteca da família para estudar por conta própria.
Seu talento não passou despercebido ao irmão, que fez da jovem sua assistente.
Sophie calculou grande parte das posições planetárias que seriam usadas pelo matemático e astrofísico Johannes Kepler em suas descobertas revolucionárias que se tornariam leis da física.
Mas quem recebeu os créditos por todos os cálculos?
O irmão mais velho, claro.
Era o normal dessa época.
Aliás, o próprio Kepler abordou o quanto a falta de acesso ao conhecimento, ao estudo, prejudicava as mulheres, depois de viver uma perrenha com sua mãe, acusada de bruxaria e levada à julgamento perante a Inquisição. Em sua obra A Harmonia do Mundo, publicada em 1619, O matemático e astrofísico, que também era astrólogo, argumentou que o comportamento que havia gerado tantos problemas para sua mãe era resultado das limitações impostas a ela por ser mulher. Ter nascido homem, constatou Kepler, lhe dera acesso à educação e ao conhecimento e privilégios que a mãe jamais tivera.
O matemático disse, ainda, que a ‘ignorância’ da mãe (que trabalhava com ervas e poções) não estava na sua natureza ou no Cosmos, mas, sim, era fruto da construção do seu papel social como mulher. E que a diferença entre o destino da mulher e do homem, que os astrólogos à época procuravam justificar no céu, era definida pela construção cultural de gênero.
Trezentos anos depois de Sophie e da argumentação de Kepler, a história seguiu se repetindo.
Dois casos bastante emblemáticos são o da química Rosalind Franklin e da física Lise Meitner.
Rosalind teve seu trabalho e contribuição apagados na ‘descoberta’ da estrutura da dupla hélice do DNA feita por James Watson e Francis Crick, pelo qual a dupla ganhou o Nobel de Medicina em 1962.
Já Lise Meitner, cujas pesquisas levaram à fissão do átomo, viu seu parceiro de trabalho Otto Hahn ser laureado com o Nobel de Química em 1944 e seu nome e contribuição sequer serem reconhecidos e menos ainda citados.
Infelizmente, esses não são os únicos exemplos na História.
Mulheres que têm seus trabalhos desmerecidos, minimizados, ridicularizados, ‘esquecidos’ ou apagados tem sido uma história que se repete por milênios em diferentes formatos e áreas. Um exemplo disso são duas escritoras góticas que pouco são citadas.
Uma delas é Ann Radcliffe, uma das pioneiras da ficção gótica, que foi a mais bem paga escritora em meados de 1790 e uma bestseller em sua época. Em batizou seus livros de romances e criou novos papéis para mulheres na literatura. Papéis que até então não haviam sido retratados – ela fez com que personagens femininas dominassem e ultrapassassem os poderosos heróis e vilões masculinos. Apesar disso, seu nome passa batido e geralmente é até ignorado por historiadores literários. Ian Watt, por exemplo, sequer cita Anne e praticamente não menciona autoras mulheres em seu A Ascenção do Romance, publicado em 1957, como conta a autora Gail Carriger em A Jornada da Heroína.
A outra é Marie Corelli, também escritora de romances e autora bestseller que vendeu mais do que a soma combinada das vendas de seus colegas e compatriotas Arthur Conan Doyle, Rudyard Kipling e H.G. Wells. Com histórias que combinavam amor, ocultismo, mistério, esoterismo e cristianismo, ela foi taxada de melodramática e vulgar demais. A revista The Spectator disse que ela só era considerada genial por um público acostumado a sentimentalismos baratos e tão vulgar quanto a própria Marie. Detalhe: esse público era predominantemente feminino. Ou seja, não só ela e seus feitos eram desqualificados, como seu público leitor composto majoritariamente por mulheres também. E não é exatamente isso o que vemos acontecer até hoje com as autoras de romance e/ou ficção de gênero?
Infelizmente, isso acontece bem mais do que imaginamos e em todas as áreas. Nas aulas da professora e doutora em História Suzana Veiga, que ministra cursos como Introdução à História das Mulheres e Patriarcado: uma história do conceito, são recorrentes os testemunhos compartilhados sobre casos de desqualificação que mulheres sofrem nas mais diversa áreas – do universo acadêmico e científico ao religioso e ao corporativo. Ainda no último sábado, durante encontro do Clube de Leitura: Teoria Feminista Ontem e Hoje, mais uma vez escutei esse tipo de história nos relatos das colegas.
É impressionante como essa é uma história que se repete até hoje! Aliás, quem aí nunca foi interrompida por uma homem ao se expressar? Ou recebeu um risinho ou comentário condescendente ao expor uma ideia?
Pra mudar isso, temos um longo processo pela frente, que requer muita consciência e alguma vontade.
A boa notícia é que já começamos essa transformação.
Vejo esse movimento em minhas colegas, amigas, em mim e em tantas outras mulheres que conheço ou acompanho. Mulheres que, assim como eu, estão mudando o olhar, entendendo as narrativas frutos dessa construção social arcaica, opressora e ultrapassada que tanta injustiça e destruição já causou no mundo e oprimiu e tentou silenciar mulheres por milênios. E estão levando para seus universos e atividades essa nova consciência, essa nova compreensão que só se fortalece e cresce a cada encontro.
“Tudo é processo”, sempre enfatiza Suzana. “E as pequenas ações contam também”, nos lembra a professora. Para ela, é com conversa após conversa que vamos desconstruindo as narrativas equivocadas que contaminaram o imaginário, mantiveram mentes reféns de ideias nada factuais e tentaram nos calar por milênios. Eu concordo e acredito que é exatamente assim, com pequenas ações e muita prosa e conversa em nossos núcleos, dia após dia, que vamos ajudar a construir a transformação que desejamos ver no mundo. E escrever histórias bem diferentes das que contei no post aqui.
Imagem: George Pagan/Unsplashr
