Numa época em que ainda era pouco comum ver mulheres nas universidades, ela jurou amor eterno e casou-se com a física. Estudou radioatividade e física nuclear e decifrou o enigma da fissão nuclear. No entanto, seu nome e sua contribuição foram esquecidos e desbotados da história porque, além de mulher, era judia.
Com apoio da família abastada, a austríaca Lise Meitner foi a segunda mulher a obter um doutorado na Universidade de Viena. Depois, já em Berlim, dobrou o sexismo de Max Planck, o criador da teoria quântica, passando de aluna hostilizada a sua assistente no Instituto Kaiser Wilhelm, um laboratório em Berlim. Ali, começou a trabalhar com o químico Otto Hahn. E para não gerar desconforto entre os demais cientistas homens, a dupla trabalhava no subsolo.
“Eu era conhecida como a mulher que o departamento de química masculino não queria contratar; sob tais circunstâncias, torna-se, e permanece, uma feminista”, escreveu Lise.
Com a ascensão de Hitler ao poder, sua situação começou a se complicar. Numa Alemanha tomada pelo nazismo, em 1938, Lise precisou deixar pra trás sua vida em Berlim, seu trabalho no instituto e a parceria com Otto Hahn, e refugiar-se na Suécia. Isso, no entanto, não a impediu de seguir suas pesquisas.
Usando cartões postais, Lise manteve contato por correspondência com Hahn. Assim, descobriu como e por que acontece o processo de fissão nuclear. Na hora de publicar o trabalho, no entanto, Hahn não só exclui o nome de Lise, como negou a sua participação – e acabou sendo laureado sozinho por ‘sua’ descoberta com o prêmio Nobel em 1944.
Lise não foi reconhecida por antissemitismo e sexismo. E, mesmo que tenha sido contemplada, anos depois, com elogios e prêmios, ela jamais recebeu o crédito devido por sua participação no trabalho vencedor do Nobel sobre a fissão nuclear.
Quando convidada a participar do projeto Manhattan, que criou a bomba atômica lançada sobre Hiroshima, ela recusou, categoricamente. Não queria ter nada a ver com uma bomba. A força da sua bússola moral, esse exemplo de ciência feita com ética, humanidade e empatia, com responsabilidade – o que eu abordo no Ensaio sobre a Terra – me encanta ainda mais com a sua história. O que a frase em sua lápide, em Cambridge, na Inglaterra, onde passou os últimos anos de sua vida, resume bem: uma física que não perdeu a humanidade.
“Aqueles abençoados com uma mente brilhante e um dom para a ciência têm um dever maior que vem antes da descoberta, um dever para com a humanidade. A ciência pode ser usada para o bem ou para o mal; então, cabe aos cientistas garantir que seu trabalho torne o mundo um lugar melhor,” escreveu Lise, já no final de sua vida, numa carta que nunca enviou ao ex-parceiro e amigo, com quem manteve contato, e que foi tornada pública pelo sobrinho.
A incrível história de Lise inspirou a escritora Jan Eliasberg a escrever o romance Hanna’s War, cuja protagonista é uma cientista que retrata a índole, a sabedoria e os desafios de Lise com respeito, afeto e precisão.
“Fiz isso para mostrar à minha filha e suas amigas que a história está cheia de mulheres notáveis de realizações imponente e de profundo humanismo; basta olhar para além dos textos autorizados” escritos por homens, disse Jan em uma entrevista para a revista da Universidade de Wesleyan, nos Estados Unidos.
Imagem: Raghav Modi/Unsplash
