As coisas andaram bem paradas por aqui. Voltando a publicar, trazendo um texto que escrevi para minha coluna na Revista Ginetopia que ainda não havia compartilhado aqui.
No curso Caça às Bruxas – Misoginia e Inquisição, a professora doutora em História Suzana Veiga conta que a magia praticada pelas mulheres sempre esteve conectada ao fluxo da natureza e do próprio universo. Mais de uma década antes de fazer esse curso, em 2008, sob o céu de Denver, nos Estados Unidos, com mente curiosa e coração entusiasmado, participando de um congresso internacional de astrologia pela primeira vez, ouvi a astróloga Caroline Casey falar sobre astrologia, ativismo e magia. Com os cabelos lilás e transbordando irreverência, essa mulher irreverentedefendeu que a natureza nos convida a fazer magia o tempo inteiro – e que basta estarmos atentas e dispostas para participar.
Para ela, como símbolo dos fluxos do universo e da natureza que é, a astrologia nos possibilita fazer magia. Dessa relação de profunda conexão com as forças da natureza surgiu o zodíaco e também a Roda do Ano, um calendário de celebrações orientado pelas estações, criado por povos e culturas chamadas pagãs, como os celtas, que percebiam e se relacionavam com o tempo de forma cíclica e não da maneira linear como fazemos hoje.
Como conta a bióloga e bruxa Amanda Celli no livro Guia Essencial da Roda do Ano, a roda simbolizava “a própria jornada da vida humana e da natureza”, com suas etapas comum a todos os seres: nascimento/início, desenvolvimento, declínio, fim/morte e recomeço/renascimento. Da mesma forma, toda a simbologia associada aos signos zodiacais faz alusão a essa jornada universal.
O Zodíaco Tropical (a roda dos signos que usamos na astrologia ocidental) é uma representação simbólica não das estações do ano per sé, mas, sim, dessa jornada arquetípica de início, meio, fim e recomeço comum a todas nós e a tudo o que existe e é na Terra e no cosmos – e que reflete o modus operandi do próprio universo, em seu fluxo incessante e contínuo de criação, destruição, criação, destruição…
Se penso nos ciclos da vida, e não nas estações do ano, o simbolismo dos signos faz todo o sentido em qualquer lugar do globo e em qualquer momento. Não é estapafúrdio escorpião representar o início de um tempo de reclusão, recolhimento, introspecção no auge da primavera no Sul Global. Afinal, ele simboliza uma das etapas de profunda transformação na vida adulta. Tampouco é estranho Leão indicar o auge da luz solar, o momento mais radiante do astro rei no ano, que convida ao exibicionismo de singularidades, corpos e ideias em pleno inverno. Não se ele simboliza a etapa da autoexpressão criativa que pulsa em nosso coração, certo?

Pra mim só faz sentido se eu conecto a data com a etapa da jornada de desenvolvimento que o signo simboliza. Aliás, essa é uma das razões que me levou a adotar a astrologia arquetípica (que não usa os signos, mas somente as interações entre os planetas) na minha prática astrológica e como fundamento da astrologia mulheril. Além de transcender questões como esta, o foco nas mulheres-planeta nos coloca em contato direto com a nossa natureza, em toda a sua potência e múltiplas possibilidades de florescimento.
Além disso, transformar os planetas em figuras de mulheres e colocá-las numa roda é também uma forma de propor poder pessoal e potência transformadora. Além de compor a essência da nossa própria natureza, o fluxo do nosso cosmos interior, cada astromulher sagrada tem uma natureza toda sua que nos ajuda alquimiar consciência e promover autonomia, agência e transformação. A fazer magia, portanto.
As figuras das astromulheres sagradas do céu nos dão consciência do fluxo do universo em nós (ou de um determinado momento) e, por isso, carregam esse poder de alquimiar percepções, sentimentos, mundos. De causar transformação. Para tanto, basta ter consciência da existência delas e dialogar com essas mulheres, invocá-las. Diz Caroline que essa é uma exigência da etiqueta do mundo espiritual, do Mundo do Encantado: convidar, invocar. Ninguém aparece sem ser chamado.
Apresentar essas astromulheres sagradas em roda também é outra fonte para magia. Sabemos que mulheres juntas carregam poder, que suas rodas libertam, curam e transformam. Sento isso, mais uma vez, em outubro do ano passado, quando estive reunida em Olinda com outras 17 mulheres num encontro celebratório do Clube de Teoria Feminista Ontem e Hoje capitaneado por Suzana. Por lá, vi muita magia assim acontecendo nas trocas de receitas, ideias, conselhos, indicação de pomadas (seriam elas a versão atualizada das poções?), e do partilhar de conhecimentos, vivências, desabafos, risadas, alegrias e muito mais. E não era exatamente isso que faziam as mulheres perseguidas e acusadas de bruxaria nos sabbats? Ajudavam umas às outras a resistir e mudar alguma coisa? Se articulavam e incitavam mudança de percepção e revolução? Como Suzana explica no seu curso, a caça às bruxas foi sobre acabar com essa potência, que ameaçava a ordem e o status quo, manipulando a narrativa e usando toda a máquina do estado para trucidar nosso poder de mobilização e de causar transformação e provocar revolução.
No encontro do Clube, senti como escuta e apoio compartilhados com generosidade e empatia podem fazer magia e reparar corpo e alma e não tenho dúvidas de que saímos um cadinho diferentes de lá. E não é isso que buscamos na magia? Transformar algo? Mudar alguma coisa?
Ao todo, temos 18 astromulheres na roda do céu da astrologia mulheril. Cada uma delas tem em sua natureza uma sabedoria e uma potência toda sua para fazer magia. Cada uma carrega um potencial, um atributo, uma consciência, capaz de alquimiar mundos e sentimentos. Eis um exemplo.
Se preciso de coragem para não abrir mão do que é essencial à minha alma e acabar me subordinando ao que me faz mal, invoco Lily, a astromulher sagrada que corresponde a Lilith no mapa astral. Lily me lembra o que é inegociável e o que não estou disposta a trocar em nome de uma falsa segurança. Recorro à Lily também quando preciso me reconectar ao erótico, a força que sustenta e promove a alegria e o prazer que é estar viva e sentindo a vida nos atravessar. Seja pela potência da natureza de cada astro mulher sagrada, ou pelo poder que a combinação delas gera, a roda delas no céu, tal qual um sabatt, cria magia assim em nós também.
