A história de hoje começa com uma autora de thrillers de sucesso na Espanha, com mais de 400 mil livros vendidos, vencendo um grande prêmio literário do país. Não era novidade que Carmem Mola era um pseudônimo usado por uma professora, quarentona, casada e mãe de três filhos, que desejava preservar sua identidade. Razão pela qual ela jamais aparecera em público e sua única foto lhe mostrava de costas, impossibilitando sua identificação.
Carmem Mola chegou a ser comparada com a italiana Elena Ferrante, outro fenômeno literário que escreve sob pseudônimo.
O mistério ajudou na divulgação da trilogia que levou Carmem ao sucesso, e que é protagonizada por uma detetive, coincidentemente chamada Elena, descrita pela editora Penguin Random House como uma mulher “peculiar e solitária, amante de grapa, karaokê, carros de colação e sexo em SUVs”. Sua contribuição chegou a ser reconhecida pelo Instituto da Mulher da Espanha como uma obra que ajuda “a entender a realidade e as experiências femininas nos dias de hoje”.
Pois imagina a surpresa quando, no dia 15/10, quem sobe ao palco para receber o prêmio por seu quarto e inédito livro não é uma pacata professora, mas três roteiristas de televisão, homens entre 40 e 50 anos, que revelam ao mundo que a escritora nunca existiu. Que eles são Carmem Mola e que a biografia dela é tão falsa e mentirosa quanto todas as entrevistas dadas mundo afora por uma mulher que jamais existiu.
O fato é que a procura pelos livros escalou, junto com as vendas, claro. E a indignação também.
“Somos apenas três amigos que quiseram contar uma história”, se justificaram. Ao jornal El Pais, o trio declarou ter escolhido o nome “por acaso e por diversão – sem prestar atenção especial ao gênero do nome ou às possíveis implicações”. E que não sabem – e até duvidam – se o pseudônimo feminino venderia mais do que um masculino.
Roteiristas consagrados de TV sem noção da força do protagonismo feminino?
Sei…
Então, por que não contaram essa trilogia com os nomes masculinos deles combinados, como faz a dupla Christina Lauren? Por que criar uma biografia e toda uma narrativa falsa, recheada de mentiras e entrevistas enganosas? E por que fazer a revelação justamente durante uma grande premiação, num plot twist digno de roteiro de filme? Curioso, né?
“Esses caras passaram anos fazendo entrevistas. Não é só o nome, é o perfil falso que eles usaram para atrair leitores e jornalistas. Golpistas”, acusou Beatriz Gimeno, ex-diretora do Instituto da Mulher, em sua conta no Twitter.
Na livraria Mujeres y Compañia, de Madri, também houve reação. Um vídeo publicado em rede social mostra os livros de Carmen Mola sendo retirados das estantes, encaixotados e devolvidos para a editora. Ao final, uma mão dá tchau, aponta para a porta da rua e a seguinte legenda aparece: dos livros publicados na Espanha em 2018 (ano do lançamento da primeira obra da autora fake), 32% eram escritos por mulheres.
Como tão bem resumiu o escritor e jornalista angolano João Mello no site do jornal Rascunho: “homens podem, pois, falar em nome das mulheres — e vice-versa. Isso, porém, tem de ser feito aberta e positivamente. Não pode ser um mero embuste mercadológico”.
“Quem é Carmen Mola? Isso importa? Os seus romances cativam-nos com uma originalidade que nos subjuga e nos faz querer mais, muito mais, quando, horrorizados, percebemos que já estamos na última página”, palavras do diretor do Festival Literário Valencia Negra, Jordi Llobregat, publicadas no site da ‘autora’. Por um milhão de euros, isso parece não importar. Nem mesmo para a agente literária do trio. Aliás, fico aqui pensando: quantas pessoas, homens e mulheres, nessa grande cadeia que é a publicação de um livro, silenciaram e concordaram com essa mentira e enganação?
Pois essa história me mostrou três coisas: 1) o que interessa é o que parece ser e não o que é; 2) ética no marketing e no mercado se parece cada vez mais com Papai Noel e Coelhinho da Páscoa: só existe na imaginação; 3) mentir e enganar, infelizmente, não traz consequências. E ainda pode ser premido com 1 milhão de euros.
Imagem abertura: Tea Rose/Unsplash
