Dizem por aí que foi um astrônomo, astrólogo e matemático quem escreveu a primeira obra de ficção científica do mundo.
Em 1609, Johannes Kepler finalizou a escrita de O Sonho (Somnium, no original em latim), onde expunha suas disruptivas teorias científicas, através da sensacional narrativa da viagem de um jovem à Lua. O que, 360 anos depois, se tornaria realidade graças aos seus cálculos.
Mas por que um astrofísico escreveria uma história fictícia para expor fatos científicos?
Pra transpor as limitações do pensamento e da mentalidade fundamentalista de sua época!
Com conceitos muito à frente do seu tempo sobre os movimentos planetários, que revolucionariam a compreensão humana do universo anos mais tarde e ajudariam a levar um homem à Lua, Kepler viu na ficção sua melhor alternativa para apresentar uma verdade chocante e inimaginável à época: a do modelo heliocêntrico proposto por Copérnico anos antes. Um modelo que desafiava a crença secular de que a Terra era estática e o centro do cosmos.
Se suas teorias já se mostravam abstratas e complexas demais entre seus pares acadêmicos, que tipo de compreensão teriam as demais pessoas, sem alfabetização científica alguma? Assim, Kepler criou uma história repleta de imaginação para expor conteúdo de inestimável valor científico. Em sua visionária narrativa, o protagonista nos conta como a Terra é vista da Lua e como, na visão de mundo dos moradores lunares, eles acreditavam que era a Terra que girava em torno da Lua.
Infelizmente, a obra acabou sendo um gol contra. Kepler usou personagens com muita verossimilhança com a realidade. E, como sempre acontece, gente com intenções escusas e sem caráter distorceu a história, formulou teorias da conspiração e criou toda a treta junto à Inquisição.
Uma vizinha, desafeto de Katharina, a mãe de Kepler, denunciou a então parteira e conhecedora do poder das ervas e plantas por bruxaria, alegando que Katharina lhe dera uma poção que lhe fizera cair doente. E Sonium foi usado como prova contra ela, já que a história que retrata o jovem que viaja à Lua e tem uma mãe curandeira foi interpretada como autobiografia.
O conflito com a cosmovisão predominante, somada ao pensamento religioso fervoroso da época e à mentalidade extremamente supersticiosa que predominava naqueles tempos sombrios, abriu brechas para que a interpretação da história acabasse sendo manipulada e distorcida – qualquer semelhança com o cenário atual não é mera coincidência.
Acusada pela Inquisição, Katharina acabou presa.
Depois de muitas viagens e seis longos invernos defendendo a mãe da fogueira da superstição, Kepler finalmente conseguiu livrá-la da prisão e da morte. Porém, com a saúde física e emocional debilitadas, Katharina morre pouco tempo depois. Inconformado com o pensamento supersticioso, o astrônomo, então, se dedica a escrever 223 notas de rodapé em O Sonho, explicando detalhadamente as teorias e conceitos nela expostos, a fim de impossibilitar leituras equivocadas e supersticiosas da sua obra.
Ainda sob o impacto do julgamento de sua mãe, Kepler acaba fazendo outra reflexão muito à frente do seu tempo. Na obra A Harmonia do Mundo, argumenta que o comportamento que gerou tantos problemas para sua mãe era resultado das limitações impostas a ela por ser mulher na sociedade da época.
Ter nascido homem, constata ele, lhe dera acesso à educação e ao conhecimento e privilégios que a mãe jamais tivera. Kepler pondera, ainda, que a ignorância da mãe não estava na sua natureza ou no Cosmos, mas, sim, era fruto da construção do seu papel social. E mais: que a diferença entre o destino da mulher e do homem que os astrólogos à época procuravam justificar no céu, era definida, na verdade, pela construção cultural de gênero.
Essa história de Kepler me fascina por muitas razões, entre elas por ele ser um visionário, ter optado pela ficção para apresentar ideias inimagináveis ao pensamento predominante em sua época e ter escrito e publicado, em função disso, a primeira história de ficção científica.
Quem quer conhecer mais as perrenhas, aventuras e desventuras que ele encarou, em uma leitura envolvente e fluída, deixo como sugestão o livro de A Harmonia do Mundo, do físico Marcelo Gleiser, uma biografia romanceada da trajetória desse cara revolucionário.
