“O que vem a seguir?
Não faço a menor ideia! Provavelmente, alguma outra transformação, envolvendo toda a construção feita até aqui e o que ainda viverei por aí. Afinal, como sabiamente diz Dan Gilbert: você está sempre mudando.“
Assim encerrei um texto, dois anos atrás, sobre as minhas muitas metamorfoses.
De lá pra cá, muita coisa mudou. Mas o processo de seguir me construindo, desconstruindo e reconstruindo, num processo lindo, cíclico, constante, se intensificou.
Lançar o romance Num Sofá de Bolinhas de forma independente me ensinou o que é (na prática) ser escritora indie.
Divulguei e levei o livro para eventos, postei exemplares no Correio semanalmente, conversei e interagi com leitoras e leitores de todos os lugares, organizei sessões de autógrafos em espaços fora das livrarias, participei da minha primeira Feira do Livro em Porto Alegre e criei uma experiência para o Airbnb baseada na história da Babi, a protagonista – que foi pausada devido à pandemia.
Veio, então, a temporada pandêmica. E com ela, minha entrada na crisálida para uma nova transformação.
Como contei aqui, comecei a falar menos, bem menos. E a escutar mais, muito mais.
Passei a ler, ver e ouvir pessoas antenadas e sintonizadas com o nosso tempo e os desafios coletivos que vivemos. Gente que questiona o status quo desse sistema, que coloca o dedo na ferida e nos chama pra participar ativa e conscientemente desse processo de transformação.
Mergulhei nesse processo de desconstrução.
Ao longo de 500 dias, fui entendendo como a narrativa que colocou o homem branco europeu no centro do mundo, como detentor de todo o poder e privilégio, originou um sistema brutalmente opressor e injusto social, econômica, ética e humanitariamente. Passei a questionar muitas estruturas e narrativas que tomamos como fato e que, na verdade, são construções sociais perpetuadas geração após a geração. Algumas delas, por séculos, como é o caso dos modelos imperialista, colonialista, capitalista e extrativista, que estão levando a vida na Terra ao colapso. Outras, como o patriarcado, há milhares e milhares de anos.
E haja desconstrução pra mudar isso! Em mim. E no mundo.
Passei a entender o tamanho das injustiças estruturais e sistêmicas que moldam a nossa sociedade, nos atravessam e impactam também a nossa subjetividade. Compreendi como o pensamento que molda a nossa visão de mundo e os paradigmas decorrentes dela, todos resultado dessas construções sociais, nos trouxeram até aqui e aos grandes desafios que vivemos nesse tempo. E quanto mais ampliava meu olhar e alargava meus horizontes, narrativas que até então me sustentavam passaram a ruir diante dessa nova compreensão decolonizada de mundo que despontava.
Também entendi que o patriarcado inaugurado há cerca de seis mil anos formou a estrutura social que até hoje sustenta privilégios para alguns poucos e injustiças para muitos. E que todas as construções sociais que dele derivam – como o racismo, o sexismo, o colonialismo, a homofobia, o capacitismo e o androcentrismo (a adoção do referencial masculino como norma universal), pra citar alguns – perpetuam esse sistema. Inclusive, para meu choque, a própria Astrologia.
Sim!
Foi uma surpresa identificar conceitos bem patriarcais na narrativa astrológica, enquanto eu pesquisava o (não) uso do planeta Terra como arquétipo na Astrologia. O que acabou dando origem ao meu primeiro ensaio, Ensaio sobre a Terra, e me levaria ao encontro dos feminismos e do ecofeminismo, que fez todo sentido pra mim.
Some a esse fato o meu encontro com o deep time storytelling, cuja perspectiva entende que os nosso primórdios estão conectados à origem do universo há 14 bilhões de anos e não ao surgimento do Sapiens na Terra. Tudo isso criou um plot twist, uma virada, na minha cosmovisão, na minha prosa e na minha história. E me levou a me dedicar à estudar e criar narrativas que nos possibilitem mudar a tempo de construir um futuro sustentável e saudável pra todos os seres, e não apenas pra alguns humans e outras poucas espécies. É esse o futuro que eu desejo ajudar a construir.
Por isso, venho pesquisando e buscando uma nova estrutura narrativa para o meu novo romance. Um que fuja da consagrada jornada do herói, que exalta modalidades masculinas de poder, definidas por dominação, violência, conquista e colonização, como quase todas as estruturas que conhecemos até aqui fazem.
Vamos ver pra onde essa pesquisa e busca vai me levar, que nova transformação virá. Que desconstrução, reconstrução e metamorfose vou viver no processo de contínua construção e constante mudança que nós humanas somos, como tão bem coloca Dan Gilbert.
