Como tudo que acontece no mundo, as revoluções e mudanças não surgem assim do nada, do dia para a noite. Nananinanão!
Elas vão se desdobrando num processo contínuo e gradualmente vão ganhando forma até irromper. Digamos que elas estão mais para o preparo lento de feijão do que para a instantaneidade da pipoca.
Assim também é a entrada do primeiro planeta descoberto com o uso do telescópio no casting astronômico.
Tudo começou um século antes da sua descoberta, em 1690, quando um astrônomo chamado John Flamsteed observou sua existência pela primeira vez no céu, mas descartou a possibilidade de ser um planeta.
Talvez a consciência humana ainda não estivesse preparada para identificar um novo corpo celeste, que bagunçaria a ordem e o equilíbrio do sistema então vigente por séculos e séculos. Talvez fosse preciso uma mudança de cosmovisão, de paradigma.
O que aconteceria com a disseminação das ideias de Newton, que recém tinha publicado, em 1687, suas três leis do movimento.
Entre elas, a da gravidade.
A descoberta da lei da gravidade mostrou que todas as pessoas e objetos – fossem reis, cavalos, cadeiras, taberneiros ou mulheres – eram submetidas às leis da natureza da mesmíssima forma. Ou seja, era todo mundo igual perante a tal gravidade. E sob o céu, portanto.
Ufa, ao menos uma lei é realmente igual para todo mundo.
Essa ideia de igualdade plantou uma sementinha no coração e na mente das pessoas, que começaram a questionar alguns dogmas, hierarquias e verdades absolutas da época.
A partir de então, enquanto o planeta seguia sendo observado no céu, as coisas começavam a esquentar e levantar fervura mundo afora, com revoluções sociais, culturais e políticas acontecendo.
Em 1781, o novo planeta foi acabou identificado pelo astrônomo e compositor William Herschel e ingressou no casting astronômico.
UMA ESCOLHA DIFÍCIL
Disposto a garantir recursos, ao nomear o planeta, Herschel decidiu homenagear o Rei Jorge III. Em função disso, o novo corpo celeste acabou sendo chamado de Georgium Sidus (Estrela de Jorge) ou Georgian Planet.
Claro que a galera de fora da Inglaterra não aprovou e tampouco curtiu esse nome, e houve muita contestação e debate – fico só imaginando as discussões acaloradas nos salões franceses.
Quase um século depois, em 1850, o HM Nautical Almanac Office (grupo multidisciplinar de especialistas cujo objetivo é fornecer soluções para problemas astronômicos e de navegação celeste) bateu martelo e trocou o nome de Georgium Sidus para Urano.
Para essa escolha, o grupo concordou com a justificativa apresentada pelo astrônomo alemão Johann Bode, que dizia que Urano era pai de Cronos/Saturno. E esse, por sua vez, era pai de Zeus/Júpiter. Logo, a lógica era deixar tudo em família e manter a linhagem patriarcal no céu, oras!
Num mundo dominado por homens, como discordar de uma argumentação como essa?
Outro fato também contribui para a escolha: o nome dado a Netuno, que já havia sido descoberto e batizado a essa altura. O grupo concluiu que a escolha mais coerente era manter a linhagem patriarcal e a tradição de nomes mitológicos entre os planetas.
Assim, Urano se estabeleceu no casting astronômico. E se tornou o primeiro (e único) planeta a ter o nome de um deus do panteão grego, ao invés do romano.
E não qualquer deus: era justamente aquele cuja origem se acredita ser pré-grega, de um período pré-patriarcal, quando ainda havia compartilhamento de poder entre homens e mulheres e relação de reciprocidade e parceria entre os sexos.
Urano chegou quebrando regras e a ordem estabelecida, já mostrando sua vocação astrológica: o diferentão, o outsider, o disruptor, o revolucionário que rompe com o status quo.
Não é fascinante isso?

O nome, no entanto, acabou se revelando meio capenga quando se faz a relação ente o mito e o simbolismo astrológico do planeta.
Afinal, essa coisa de quebrar todas as regras tem a ver não exatamente com a figura de Urano, mas com a do titã Prometeu, aquele que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos humanos e foi severamente punido por Zeus.
NOVO PROMETEU
Como eu explico no livro Reviravolta no Céu, uma revisão feminista da astrologia, para a astrologia, a descoberta de um planeta simboliza um novo impulso, um anseio que despertou na nossa consciência e que passa a se manifestar no nosso comportamento, na cultura e em todas as esferas da vida por aqui.
Basta olhar para o que acontecia no mundo quando o planeta de George foi descoberto, o que era produzido em termos de cultura, política e pensamento, para perceber que ele está mais para Prometeu do que para Urano no significado.
Quer ver?
A descoberta de Urano coincidiu com mudanças drásticas e revoltas, como a Revolução Francesa e a Americana, onde se buscava o aumento da liberdade e independência. E, ainda, a revolução industrial.
Olympe de Gouges lançava a sua Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, onde ousava questionar o fato de que liberdade e igualdade era uma verdade apenas para a fraternidade entre os homens, pro Clube dos Brothers, como chamo essa fraternidade, e não entre as mulheres.
E mais ainda!
Ela dizia que a tal Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estava incompleta porque não incluía mulheres. Tanta ousadia lhe custou a vida. Foi decapitada em 1793.
Um ano antes do triste fim da francesa, Mary Wollstonecraft lançaria o seu clássico Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher. E em 1818, duas décadas e meia depois, sua filha, Mary Shelley, publicaria a obra mais icônica associada ao simbolismo do planeta Urano: Frankenstein ou o Moderno Prometeu.
Na mesma época da descoberta de Urano, vemos o nascimento dos salões de mulheres e das bluestockings (que eram redes de mulheres). E projetos de escolas para mulheres começam a despontar também, como conta a historiadora musa Gerda Lerner no livro A Criação da Consciência Feminista.
Era o fogo de Prometeu, o conhecimento e o espírito criativo que ele simboliza, sendo acessado e compartilhado por mais e mais mulheres.
Como explica Gerda, esses salões e grupos seriam embrionários para ações coletivas de mulheres como o movimento sufragista, que ganharia as ruas já no período da descoberta de Netuno e seu ingresso no casting astronômico.
Mas essa é outra história.

UMA REVOLUCIONÁRIA
Se esse planeta fosse uma mulher, ela seria progressista. Revolucionária. Inventiva. Inovadora. Genial. Mudança seria com ela, mesmo!
Essa mulher saberia que o movimento e a alternância são essenciais à vida, que tudo no universo é uma sequência de contração e expansão, criação e destruição. Assim é no universo inteirinho e em nós! Sua respiração e o seu coração fazem isso o dia inteiro, expandem e contraem, e você nem se dá conta!
Na minha astrologia mulheril, o arquétipo de Urano é representado por Thea, a mulher ancestral que traz a mudança, a inovação, o novo. A que catalisa ação, rompendo com o status quo e com aquilo que “sempre foi assim”, se indignando e se rebelando contra a ordem estabelecida e desafiando a autoridade.
Ela carrega uma capacidade visionária e abre espaço para as mudanças, pois tem visão do que pode ser melhor para todas; e busca formas de colocar essa mudança, essa novidade em prática. Ela usa seu espírito criativo, sua genialidade e seu conhecimento para criar o novo. Para de fato mudar as coisas e introduzir a inovação.
Isso a torna elétrica, inquieta e fã de tecnologia. Além de inventora e lançadora de tendências, ela é também uma early adopter – aquela que é uma das primeiras a aderir a uma nova tecnologia ou trend, bem antes que ela seja adotada por quase todos.
Thea pode ficar tão fixada no novo que se esquece do presente e de quem está nele. Pode até ficar arrogante, nessas horas, se achando a diferentona tão extraordinária que é superior aos outros. Mas o pior, mesmo, é quando ela trava e deixa de criar, em busca de uma perfeição que simplesmente não existe, e abandona suas criações.
Thea é uma das mulheres ancestrais do curso astrológico Mundo adentro, Céu afora, que vou oferecer após o Carnaval. Ele inicia no dia 19 de fevereiro.
Nesse link aqui conto tudo sobre o curso!

