Questionar é algo sensacional, mesmo. Né, não?!
Desperta um estado de inquietude que amplia o olhar e transforma a gente! Pois é assim, questionando, que eu chego aos meus 500 dias de cuidados no mundo pandêmico hoje. Como já contei aqui, esses foram dias de romper minha bolha, conhecer outras narrativas sobre o mundo, cambiar minha cosmovisão, compreender as construções sociais fruto de seis mil anos de patriarcado e o quanto e como somos todos interdependentes vivendo nesse planetinha azul aqui.
Pois dessa revolução aí, em maio me vi às voltas com um questionamento que, jamais, nunca nunquinha, em 17 anos de Astrologia, eu havia me feito. A partir dessa inquietação, mergulhei numa pesquisa interdisciplinar em busca de respostas, argumentação. O que acabou resultando na escrita de um ensaio. O meu primeiríssimo. Com nome Ensaio sobre a Terra, ele aborda o uso do arquétipo da Terra, Gaia, nos mapas e, ainda, como o patriarcado está presente na astrologia.
Confesso que fiquei PASSADA ao me dar conta do quanto a narrativa astrológica contém construções bem patriarcais. Um exemplo disso é termos apenas dois planetas astrológicos associados a deusas femininas, a saber Lua e Vênus. A primeira, associada à nutrição, emoção e reprodução (ao papel de mãe e esposa que Suzana fala). A segunda, ao amor, beleza e desejo (ao papel de concubina). Não, não é mera coincidência, amiga. Afinal, foi em tempos bem patriarcais que esse saber foi sacramentado e sistematizado nos moldes que hoje utilizamos.
Isso me lembra de um trecho da apostila do curso Introdução à História das Mulheres que estou fazendo nesses dias.
“Silenciadas durante séculos e colocadas em um lugar marginal e de subalternidade, as mulheres foram parte atuante da história, desde antes da invenção da escrita. Entretanto, o privilégio da dominação masculina fez com que durante anos, fossemos relegadas às margens da história. Aparecendo, quando muito, como esposas, mães e concubinas. A história narrou a memória construída para reforçar o lugar de domínio dos homens no mundo.”
Isso faz tanto sentido pra mim agora, após a pesquisa e escrita do ensaio! Porque essa mesma lógica está por trás da construção do panteão dos planetas astrológicos, inspirado nos mitos gregos, que são narrativas absolutamente patriarcais. Por isso, os atributos que Vênus e Lua representam são associados à ‘natureza da mulher’, algo construído (e a nós imposto) pela cultura patriarcal. Já atributos como assertividade, iniciativa, conhecimento, leis, religião, autoridade, chefia, soberania, governabilidade, racionalidade e cultura, que foram definidos como da ‘natureza do homem’, foram todos associados à figuras mitológicas masculinas.
Pois fico, agora, aqui pensando na força dessas construções. Veja você, passados milhares de anos, cá estamos nós, em pleno século 21, reproduzindo e perpetuando essa narrativa no imaginário coletivo. Reforçando, sem nos darmos conta, isso tudo. O bom é que, quando a gente acorda, não tem volta. E a partir daí, temos a oportunidade de rever e reimaginar conceitos e novos modelos que promovam mudanças mais alinhadas ao tempo e à consciência que vivemos.
Imagem: Jon Tyson/Unsplah
