Por que a Terra nunca foi usada como planeta como os demais astros na astrologia? Por que ela é vista como pano de fundo e ambiente da nossa existência e não com um arquétipo, um impulso que ativa a natureza humana?
Nunca, nunquinha, nos meus 17 anos de astrologia, eu havia me feito tais questionamentos. Foi depois de um processo de autoconhecimento que se estendeu para além do ego, me fazendo perceber o quanto o self é interdependente e interconectado com o coletivo, que esse tipo de pergunta começou a despontar na minha mente. Quanto mais perguntas como essas surgiam, mais eu ia rompendo a bolha, conhecendo outras narrativas sobre o mundo, ampliando o olhar e, consequentemente, decolonizando minha mente. Ou tirando o colonizador de dentro de mim, como diz a historiadora Suzana Veiga. Com isso, passei a questionar muitas narrativas; entre elas, algumas da própria astrologia.
A partir desse olhar mais decolonizado, e na busca por entender o que fez a astrologia não considerar a Terra como um planeta do seu panteão, mergulhei numa pesquisa interdisciplinar que me levou a reconhecer construções bastante sexistas e patriarcais nessa prática. O que não deveria causar surpresa. Afinal, ainda que as origens mais remotas da astrologia estejam em tradições matriarcais, foi em tempos bem patriarcais que esse saber foi sacramentado e sistematizado nos moldes que hoje utilizamos.
Tudo isso me fez perceber o quanto as construções que ajudam a perpetuar os valores patriarcais no imaginário coletivo estão presentes em tudo! Até mesmo em esferas que a gente nem imagina, como a astrologia. E não só isso! Também constatei o quanto essas construções criadas a partir dos conceitos estruturais do patriarcado estão presentes em tantas outras esferas e e são perpetuadas sem nem nos darmos conta disso. Um exemplo é a moda, onde muitos catálogos e campanhas de grandes marcas e revistas reforçam estereótipos bem sexistas, como mostra a artista visual expert em gênero Yolanda Dominguez.
Ao finalizar o ensaio, entendi que o resgate da Terra vai muito além do que ele significa astrologicamente, já que a consciência que a Terra como arquétipo no imaginário coletivo desperta em nós está profundamente conectada a uma nova compreensão de self e de autoconhecimento, como defendo no ensaio. Uma compreensão que ajuda o reflorescer da Terra no imaginário coletivo, nas nossas mentes, corpos e corações, e desperta uma nova forma de entendermos e nos relacionarmos com ela, Gaia, entre nós e com todos os demais seres e espécies, humanas e não humanas. Compreensão essa imprescindível ao bem viver e ao futuro de todas e todos e da vida aqui.
Fruto dessa pesquisa sobre por que a astrologia não tratava a Terra como um planeta de primeira grandeza no seu panteão, o que me levou a identificar a influência do patriarcado nessa história e propor uma nova forma de nos relacionarmos com a Terra/Gaia, o Ensaio sobre a Terra será lançado às 21h desse domingo, dia 19. A versão ebook será disponibilizado para download gratuito por 30 dias.
Antes disso, no sábado, farei uma leitura coletiva com o grupo de ex-colegas e mulheres sensacionais das turmas do curso de Introdução à História das Mulheres comandado pela historiadora Suzana Veiga. Estou bem entusiasmada com esse primeiro encontro de leitoras com as ideias do ensaio. Só pelo sábado.
Imagem e capa: Lidy Araújo
