Ele era jovem quando cruzou o Atlântico à bordo de um navio, fugindo das atrocidades de uma guerra criada por homens que nunca as lutam, mas que, movidos por ganância, enviam os filhos dos outros à morte.
Cresci ouvindo a história de como, depois de perder um filho numa das impiedosas guerras imperialistas, minha bisavó Maria Marques de Oliveira vendeu uma joia para garantir outro destino ao filho Manoel. E como foi esse o motivo pelo qual meu avô materno trocou Portugal pelo Brasil nos idos dos anos 20 do século passado.
Com a missão de sobreviver e vicejar numa nova terra, meu avô embarcou naquele navio que o trouxe ao Brasil. Aqui, S Manoelzinho namorou, casou-se com Dona Dileta, formou uma família e atravessou os altos e baixos da vida.
Teve negócios que deram muito certo e outros que quebraram e quase arruinaram a família, transmitiu sabedoria às filhas e filhos, caiu em golpes devido a sua boa fé, ajudou e foi ajudado, enterrou filha e filho, viu um de seus rebentos ser torturado durante a ditadura militar assassina que governou o país, tornou-se espírita e depois umbandista, aprontou muitas para minha avó, passou o gosto pelo comércio, a bacalhoada e as especiarias aos filhos e leu jornal na porta da sua Docelândia todos os dias.
Assim ele viveu. E até o seu último suspiro, aos 88 anos, nunca deixou de sonhar, imaginar e expressar seu maravilhamento com o Brasil.
“Este país é uma maravilha”, dizia e repetia vô Manoel.
Seu encantamento com o país era tão genuíno que um de meus tios recebeu o nome Sul Brasil. Aham, imagine o bullying… Na hora de nomear sua prole, meu avô deixava esse arrebatamento correr solto em suas veias e ideas: Dona Gracinha, minha mãe, por um triz escapou de chamar-se Maria América. Já o primeiro filho homem foi batizado Luiz Luso em homenagem à terrinha, como S. Manoel se referia a Portugal.
Esse seu encanto (gratidão, talvez) com o Brasil acabou se tornando frase gravada na placa que está no jazigo da família.
HERANÇA
Dizem que meu avô era sonhador. E não só isso: que era místico, que confiava demais nas pessoas e em suas ideias muitas vezes mirabolantes. Minha família diz que herdei essa faceta dele, com minha facilidade em sonhar, imaginar, inventar moda, viajar nas ideias e conexões e amar o contato com o numinoso.
Se esse é seu legado para mim – a capacidade de seguir sonhando, imaginando, me maravilhando com a natureza e o universo e me relacionando com o invisível que tudo contém, como lindamente diz a poetisa paraibana Naíla Cordeiro -, me sinto feliz pra caramba. Especialmente nesse momento do mundo, em que a imaginação é tão essencial e necessária para concebermos outras formas possíveis de viver por aqui.
Aliás, num dos episódios do Prosa Astral com a querida Carol Pogliessi, falamos muito sobre como essa relação com o numinoso, o invisível, a espiritualidade, pode estar presentes em atividades bem mundanas e corriqueiras como na prática física da Rotina Ritual Flow. Se você ainda não assistiu, fica aqui o convite e o link.
DE REPENTE, 8
Cerca de um século depois da chegada de S. Manoel ao lado de cá do oceano Atlântico, decidi me reencantar com o país que ele tanto admirou. Deixei para trás o paralelo 30 e vim passar uma temporada na altura do grau 8 ao sul do Equador, em Pernambuco. Mais especificamente em Olinda.
Ao saber desse meu movimento, Ester, que é assinante aqui do LilaVerso e participante da nossa comunidade, perguntou como elegi essa cidade repleta de ladeiras e histórias como destino; se fora com o uso de alguma técnica preditiva e astrológica como a astrocartografia.
Minha resposta a ela?
Nada disso, Ester. Foi Séfone, a mulher planeta e deusa do céu que simboliza a voz da alma, a intuição, indicando a direção a seguir, que me levou a essa escolha.
- (Para apertar a tecla SAP e entender o que significa mulher planeta e Séfone, clique aqui e baixe gratuitamente o guia Deusas do Céu da astrologia mulheril.)
Foi a direção apontada por essa nossa bússola interna, aliada à porta aqui aberta por minha amiga Suzana Veiga, que acabou fazendo de Olinda a minha escolha. Falando nela, a intuição foi um dos temas abordados no episódio do Prosa Astral com Karina Werneck. Dialogamos bastante sobre essa capacidade de leitura de dados que vêm pelo campo do numinoso, da percepção, do sutil. Para assistir, só clicar aí no botão.
