Quanto mais avançamos nessa pandemia, e mais vou lendo, escutando, aprendendo, me desconstruindo e mudando em meio a ela, mais convicção tenho do quanto uma nova narrativa pra Astrologia pode nos ajudar a mudar as histórias que a gente se conta e assim construir uma realidade e um mundo mais humano, mais ético, mais justo e digno pra todas e todos nós.
Foi no final de 2018 que essa compreensão despertou em mim, quando comecei a cruzar meu conhecimento e prática astrológico com os ensinamentos e a profunda sabedoria mística e absolutamente no nonsense de Caroline Myss, com quem fui aprendendo a ler a realidade a partir de uma visão arquetípica.
Nesse último ano, somou-se a ela meu aprofundamento na cosmologia arquetípica de Richard Tarnas, cofundador do curso de Philosophy, Cosmology and Consciousness do California Institute of Integral Studies (CIIS), em São Francisco, e e autor do incrível Cosmos & Psique. E ainda, o encontro com as sensacionais e transformadoras obras de Thomas Berry e de Brian Swimme, que é professor de cosmologia evolutiva também no CIIS e que escreveu os incríveis Universe Story e Journey of the Universe, nenhum deles traduzido para o português.
A compreensão da evolução do universo, de tudo que aconteceu e como aconteceu, permitiu a existência de vida aqui na Terra, transformou profunda e radicalmente minha visão de mundo. Me fez entender que tanto o universo quanto a Terra são muuuito mais do que meros panos de fundo e cenários pra nossa existência por aqui. Pelo contrário, o Universo e Terra são sistemas em evolução contínua – evolução essa que originou a vida sua, minha e de todas as demais espécies por aqui – e que eles são providos de propósito, sabedoria, inteligência e alma.
A partir daí, tudo mudou.
Adotei a abordagem da cosmologia arquetípica, que ignora os signos e foca exclusivamente nas relações entre os planetas, possibilita uma narrativa de autoconhecimento além do próprio umbigo. Uma que nos reintegra à grande comunidade que somos, despertando senso de pertencimento e consciência do quanto a nossa jornada pessoal, as nossas transformações e ciclos individuais, de fato integram a jornada evolutiva do mundo e do cosmos.
Essa nova narrativa evidencia a nossa participação nos desdobramentos da vida, como contribuímos (ou não) com ela através das nossas escolhas, o tal livre-arbítrio. Pois, apesar de cada combinação arquetípica simbolizada pelos planetas ter uma forma original impessoal, a forma como cada uma delas será vivida por nós se torna pessoal, personalizada, em função da nossa consciência e visão de mundo e de fatores externos como contextos social, familiar, educacional, geográfico, só pra citar alguns. E isso me encanta! E evita o uso estereotipado da astrologia.
Isso me vez ainda mais cuidadosa com as palavras ao astrologar, evitando qualquer conexão com a linguagem de ‘causa e efeito’. Porque não é assim que a Astrologia funciona e opera. Mas não, mesmo.
Como linguagem simbólica e arquetípica que é, a astrologia funciona por correlação de significados. Por sincronicidade, portanto. Sim, é isso que faz a astrologia ‘funcionar’ há milhares de anos: a correlação de significados entre os arquétipos planetários (macro), a subjetividade da nossa psique (micro) e a experiência humana na Terra.
Um exemplo disso?
Não é porque Plutão e Saturno estão em Capricórnio que o mundo está de cabeça pra baixo. Não, não é. O que a presença desses dois planetas juntos simboliza é que esse é um período de intensa e profunda desconstrução, transformação, de escândalos e corrupção, opressão e desejo de poder. E também de despertar de uma força moral e autoresponsabilidade. E diante disso, nossa resposta humana pode ser tanto sucumbir diante dos desafios opressivos que o período traz, ou despertar uma consistente coragem moral e ética, que os símbolos também representam, e assim dar conta das desafiantes tarefas diante da opressão que o momento impõe.
Pra que lado isso vai pender depende de cada um de nós. Das nossas escolhas e atitudes. E da soma delas, cria-se a realidade de todos nós, a coletiva. Aliás, não é isso que 2020 nos desafia a aprender com a pandemia?
Outro ponto importante é abandonar o julgamento e, ao invés de taxar planetas como bons ou ruins, maléficos ou benéficos, e dialogar sobre os muitos significados que eles podem ter e como podem se desdobrar. Essa narrativa astrológica nos possibilita fazer as escolhas mais sábias possíveis que dispomos no momento, alinhadas ao nosso momento pessoal e ao do coletivo. E com elas ir construindo a nossa trajetória de evolução pessoal que se mescla com a coletiva. Através dessa narrativa astrológica buscamos participar ativa e conscientemente da vida, ao invés de querer controlar e manipular essa força maior que ninguém controla que é a vida.
Um exemplo?
Ao invés de sair reclamando e culpando o Mercúrio Retrógrado pela pane no seu computador ou celular, o pobre inferno astral ou Saturno por todos os males da sua vida, que tal parar pra compreender o significado desses arquétipos? Que como símbolos de espírito do mundo (o seu interior e o de fora) nesse momento, eles permitem compreender os desafios e possibilidades que o período apresenta? E a partir dessa compreensão e consciência, decidir como participar com a vida na criação da sua história através das escolhas que forem feitas?
Tudo isso junto-e-reunido nos possibilitar assumir nosso papel como participantes ativos dessa grande narrativa coletiva que ajudamos, sim, a criar e construir com as nossas escolhas, todas elas fruto da subjetividade da consciência e da sombra que nos habitam. Só com essa consciência daremos conta dos desafios que temos à frente, pessoais e coletivamente. E tornaremos melhor e mais justa a vida de todos os seres aqui. Por isso, acredito taaaaaanto nessa nova narrativa pra Astrologia.
Imagem Pascal Bernardon/Unsplash
