Quem já teve contato comigo em palestra live, leitura de mapa, curso, imersão, bate papo, prosa astral, provavelmente me ouviu falar que os símbolos astrológicos são como cebolas: cheios de camadas. No caso da astrologia, de significados. São diversas camadas sobrepostas de significado que nos ajudam a compreender a nossa natureza e a nossa relação com o tempo e a natureza cíclica da vida.
Comecei a trabalhar essas camadas na astrologia mulheril dando aos planetas narrativas e a forma de astrodeusas. Isso no final de 2023 e primórdios de 2024. Meses depois, pouco antes das enchentes de maio, uma nova inquietação começou a ganhar força. Dessa vez, em relação à roda do zodíaco e seus signos.
Há muito eu já havia compreendido que essa roda não é um símbolo da nossas relação com as estações per se – se fosse isso, ela não faria sentido algum no Sul Global. Como celebrar o auge do verão e da exposição de corpos no frio que acompanha o signo de Leão? Ou celebrar o recolhimento em pleno fervor de espírito e corpos de janeiro?
Diferentemente da Roda do Ano, que permite que seguidoras da magia tenham opção Norte e Sul para acompanhar a ciclicidade das estações do ano, conforme o clima no hemisfério que seus corpos habitam, o Zodíaco é uma representação sempre inicia no grau zero de Áries e se encerra em 29 de Peixes em meados de março. Independente da estação lá fora.
Foi estudando storytelling e o template do monomito do mitologista Joseph Campbell que resolvi essa equação: o que o zodíaco representa (e muito lindamente) são os diferentes estágios do processo de desenvolvimento de tudo em nossas vidas e na natureza. Tudo que nasce, cresce, amadurece e chega ao fim, morre. Um símbolo do ritmo cíclico da vida na Terra.
Isso me permitiu compreender o simbolismo por trás dos signos e até escrevi sobre isso aqui no blog. Mas, à época, eu ainda não tinha letramento feminista do sagrado e nem da história das mulheres. Ou seja, não tinha repertório. Em 2024, eu já acumulava uma boa bagagem. Mas não toda, ainda, para responder as perguntas que não saiam de minha cabeça:
Como usar os signos a partir de uma percepção de mundo com valores, saberes e paradigma femininos? Mulheris? Como seria a leitura deles com as lentes desse novo paradigma?
A busca por respostas começou a ficar mais clara na virada para 2025.
Naqueles primeiros dias de um verão abafado em Porto Alegre, enquanto escrevia sobre Touro, me peguei pensando em seu glifo (sua representação gráfica), que é a cabeça de um touro com os tradicionais chifres. Um animal símbolo da fertilidade viril, persistente, determinada (ou seria insistente) e que é famoso por ser abatido cruelmente em duelos brutais com homens.
Mais patriarcal impossível.
Lembrei, então, que os chifres também têm uma relação simbólica com a Lua e as Trompas de Falópio – as estruturas que conectam os ovários ao útero da mulher, determinantes para a fertilidade e fundamentais no processo de fecundação e para a materialização/concretização material de uma nova vida. Isso, então, me trouxe mais uma pergunta à mente: que representações simbólicas e analogias dos signos teríamos se a visão de mundo à época da construção astrológica fosse outra?
Nos primórdios da nossa civilização patriarcal, o olhar do homem para o céu viu touros, carneiros, lanças, flechas, espadas, cabras, caranguejos e as associações feitas tinham um cunho bem misógino. Era essa visão que ele projetava no céu. Afinal, era isso que eles conheciam. E com essa visão, o homem (literalmente, já que só eles detinham poder, acesso e autoridade para isso) estabeleceu o simbolismo atribuído aos signos. Como ensina a historiadora Gerda Lerner em A Criação do Patriarcado:
“Constructos mentais não podem ser criados no vácuo; sempre refletem eventos e conceitos de seres humanos históricos na sociedade”, diz Gerda. Em sua obra, ela nos mostra como, à medida em que as experiências vão mudando e a nossa consciência muda, mudam os mitos e as narrativas.
Mas que símbolos teríamos se a mitologia que inspira visões à época fosse outra?
Com essa pergunta em mente, eu comecei a pensar outra vez o zodíaco. E senti se formando em mim o que passei a chamar de “terceira onda” da astrologia mulheril.
Uma série de situações (inclusive a descoberta de uma arritmia, entre elas) acabou me levando a deixar em segundo plano esse estudo – o que acabou se revelando providencial para mim. Dizem que só podemos ver e reconhecer aquilo que está escrito na nossa cognição. Ou seja, os recortes da realidade que temos consciência, dos participamos, experienciamos.
Assim como a vivência em rodas e grupos de mulheres me possibilitou olhar para o mapa e enxergar um círculo de astrodeusas nele, o mergulho profundo no universo do simbólico com Sharon Blackie e Clarissa Pinkola Estès, junto com o contato com María-Milagros Rivera e o feminismo da diferença, assim como com as bruxas, as santas místicas e Silvia Federicci, me deram o repertório necessário para olhar de um jeito diferente e novo para a roda do zodíaco.
Com a noção de ciclo da deusa tríplice, cheguei na ideia abaixo, na qual venho trabalhando e que compartilho com você aqui.

Com essa nova percepção dos signos somada a dos planetas como astrodeusas, venho trabalhando para romper as margens da colonização misógina em nossos corpos, psiques, imaginários e corações e subverter a ordem patriarcal.
Depois de vivermos séculos sem agência e sob tutela, me proponho desenvolver e oferecer a nós todas uma linguagem e ferramenta simbólica criada a partir da experiência feminina, com olhar e consciência de século 21, que permitam compreender os muitos ciclos que se sobrepõem e como eles vão formando o desdobramento da vida. Uma astrologia que não reforce preconceitos e ideias ultrapassadas e equivocadas, e que permita às mulheres acessarem e compreenderem a beleza e a potência de suas camadas de significado, sem precisar virar astrólogas para isso.
Enquanto finalizo a escrita desse texto, trabalho na estruturação de uma imersão sobre esse Zodíaco Mulheril para o segundo semestre. Com ele, quero oferecer uma nova narrativa dos signos, feita por e para mulheres, a partir da nossa percepção de mundo e da linhagem do conhecimento e da sabedoria ancestral das mulheres.
Se quiser saber mais, clique no botão abaixo e deixe seu nome na lista de interessadas em aprender e mergulhar nesse novo zodíaco.
Assim que tiver novidades, vou enviar material e contar tudo em primeira mão.
Por fim, a imagem de abertura deste texto de Nikola Tasic/Unsplash.
Um beijo e até o próximo!
Lila
