Texto revisado em Junho de 2021
Mais de uma década atrás, por sugestão de uma psicóloga acupunturista com quem eu fazia terapia, procurei um médico pra avaliar dores que eu tinha na cervical.
Depois de alguns exames, batidinhas no joelho e troca de palavras, ele sentou à minha frente e desenhou o diagnóstico no seu receituário.
– Sabe, Marília… Algumas pessoas são mais sensíveis do que as outras. Elas são diferentes porque percebem o mundo com mais emoção…
E enquanto falava num tom calmo, profundo, pausado e cheio de sabedoria, ele desenhava dois círculos, dividindo assim o mundo entre as pessoas normais e as super sensíveis. Aquelas que sentiam a vida e as experiências de uma forma mais INTEEEEENSA.
Adivinha em que categoria ele colocou a bonequinha que me representava?
Aham. Nessa aí mesmo.
A dos suuuuuper sensíveis que, segundo ele, precisariam de um remedinho pra dosar tamanha sensibilidade. E assim emudecer qualquer desconforto. E viver feliz pra sempre.
Saí de lá com um mix de sensações borbulhando minhas entranhas.
Aliviada porque não havia problema na cervical.
Estarrecida, porque achei abusivo, ele receitar um remédio controlado, ao invés de sugerir que eu falasse sobre isso com minha psicóloga.
Mas o pior foi a tristeza e a impotência que senti diante da narrativa por ele desenhada para os super sensíveis. E que parecia mais pesado e cármico que Saturno pra astrólogo medieval. Socorro!
Que sou suuuuper sensível, eu já sabia!
Afinal, àquela altura, há mais de três décadas eu vivia na minha carcaça. Assim como tinha noção de que era importante aprender a lidar com isso. Razão pela qual eu havia procurado a terapia, oras.
Estaria eu destinada a uma vida pesaaaada e marcada pelo sofrimento? Já que eu sinto tanto. Muito. Profundamente. Visceralmente. Intensamente. Aff!
Fui aprendendo a lidar com meu sentir, e com o tempo percebi que ele causava mais do que dor na cervical. Outro efeito dele foi a reatividade. Aham. Quanto mais eu sentia, mais reativa ia me tornando.
E haja terapia e autoconhecimento!
Aí, 2020 chegou.
E com ele meu encontro com o Mindfulness do Pacífico Instituto, onde aprendi a prática da atenção plena com suporte da neurociência e da inteligência emocional pra dar lidar melhor com o meu intenso sentir.
Assim comecei a diariamente praticar o gerenciar as emoções através do olhar curioso, gentil, compassivo para as experiências que a vida ia trazendo. O que vem me ajudando a me relacionar melhor com os sentimentos difíceis e também com o mundo e com os outros.
Veio, então, a pandemia.
E com ela, o isolamento, os dias contados na folhinha, a indignação diante de tanto nonsense, umbiguismo e indiferença coletiva, e a tristeza de testemunhar tantas vidas e trajetórias humanas perdidas. E com tudo isso, uma raiva pulsante com tanta escrotice, injustiça, descaso, desprezo e desrespeito com essa força que sustenta a nós todos que é a vida.
Fiquei beeem mal.
E haja prática de Mindfulness pra lidar com tanto transbordar!
Haja prática pra acalmar a mente, gerenciar a montanha russa de emoções que eu vivia e reconectar com a sempre constante e imensa força que habita o coração.
Haja prática pra consegui evitar ser sequestrada pelas emoções e meter os pés pelas mãos, enfiar o pé na jaca e fazer parte dessa perigosa manipulação emocional que domina as redes sociais. O que, desde o ano passado, quando assisti o documentário The Great Hack, me fez buscar formas de não me deixar levar por ela e acabar participando da crescente hostilidade que domina o mundo. E ampliando a polarização que alimenta o ódio.
Praticante ativa e consciente do autoconhecimento a essa alturas eu sabia que o primeiro passo pra dar conta desse tipo de embate sempre é olhar pra dentro. Pra não alimentar o Dark Side que habita o universo interior meu, seu e de todos nós. Pra isso, além das práticas Mindfulness, resgatei o hábito da escrita expressiva e incrementei também os meus diálogos e conversas com o Divino – desde que comecei a estudar com Caroline Myss, a oração tornou-se um momento de conversa honesta com Deus e comigo. Também devorei livros como Sinta Raiva, onde o Dalai Lama explica como esse sentimento é importante pra catalisar mudanças contra a injustiça, social e pessoal.
AFINAL, NO JUSTICE, NO PEACE.
Mas então, numa palestra do astrólogo Robert Ohotto, conheci o arquétipo das almas empáticas, o das pessoas que sentem muito intensamente tudo por percebem a realidade de maneira multisensorial – ou seja, não apenas através dos cinco sentidos, mas em comunhão com as demais espécies de vida e com áreas mais sutis do nosso universo interior, como a psíquica e espiritual. E é exatamente por receberem mais dados e informações sobre a realidade, que elas sentem mais as coisas e compreendem a realidade a partir de outras perspectivas. O que as torna mais cuidadosas e atentas aos animais, aos oceanos, às flores, às árvores, enfim, à nossa relação com as demais espécies de vida que habitam o planeta. E por isso, não hesitam propor transformação e mudanças no ambiente micro e também no macro a fim de preservar a vida.
Embora esse arquétipo não seja nada novo e desconhecido por aqui, diz Robert que ele foi ativado coletivamente e se tornou mais presente entre nós nos últimos 200 anos, em função da incrível escalada da capacidade nossa de violência e destruição que surgiu decorrente dos avanços tecnológicos a partir da Revolução Industrial. E está aí a bomba atômica pra provar isso, infelizmente. Como tecnologia sem consciência e sem ética gera monstruosidades. 😉
Pois esse arquétipo das almas empáticas fez todo sentido pra mim, me ajudando não só compreender a mim e a urgência que habita minhas entranhas há mais de ano, mas também as muitas desconstruções e transformações e o envolvimento e comprometimento de pessoas das mas diversas áreas com novas narrativas e iniciativas que desafiam a visão de mundo predominante e, com projetos e ações que fazem a realidade melhor pra todos e não apenas para alguns, estão de fato ajudando a transformar o mundo. Nossa! Só escrever isso aqui faz meu peito transbordar entusiasmo.
Quando paro pra pensar nessas pessoas, testemunhando como elas estão se colocando à serviço da vida, ajudando a decolonizar o pensamento, desconstruir conceitos ultrapassados com atitudes, com ação, concordo com Robert. Realmente, esse é um arquétipo que despertou e cresce entre nós, e é extremamente necessário na nossa psique, no universo interior humano, nos tempos atuais. Para manter a vida – a nossa e de todas as demais espécies – no planeta.
Aliás, falando em vida, outro arquétipo adormecido em nosso mundo interior e que despertou coletivamente em nossa consciência no último século, principalmente a partir dos anos 60, é o da Grande Mãe, a provedora de toda a vida: Gaia.
Pois quando penso nisso tudo, me transborda um sentimento de admiração e encantamento pela beleza e sabedoria da vida, que sempre provê alternativas que levem não só à sua manutenção, mas também à sua evolução. É lindo demais! E agora que sei que esse arquétipo da alma empática habita o meu universo interior e, melhor ainda, como me relacionar com essa força, agradeci estar no círculo dos ‘sensíveis demais’ do médico. Porque nesse círculo reside não apenas uma fonte de sentimento de impotência, mas também uma de potência para o meu fazer.
Imagem de Jon Tyson/Unsplash

08 fevereiro 2022 @ 07:51
Amei esse texto. Parabéns.
10 fevereiro 2022 @ 14:15
Obrigada, Shira! Fiquei super feliz que você gostou tanto assim! 🙂