Tenho sido repetitiva (e até chata) nos últimos anos repetindo e falando que somos seres em constante transformação.
Seres em construção, em desdobramento contínuo.
Se tudo no universo é assim (inclusive ele mesmo), por que seria diferente conosco, criaturas dele que somos?
Sinto ser a mensageira dessa notícia, mas não somos o alecrim dourado do Cosmos, não.
Tudo é processo, como digo e repito sempre.
Você, eu, o mundo e a vida que levamos também é: um processo contínuo de desdobramento, um ciclo após o outro.
Um sucedendo o outro.
Tal qual a batida coração, os ciclos só param quando morremos.
É por isso que repito também: nada é isolado, nada acontece num vácuo. Nenhum evento celeste faz sentido por si só. Seja um eclipse ou um alinhamento entre planetas no céu ou nos nossos mapas, nenhum deles se dá de forma isolada. Cada evento faz parte de um processo (ou movimento) maior que vem acontecendo, se desdobrando continuamente, no cosmos, dentro de nós ou na natureza.
Numa conversa tempos atrás com minha amiga Suzana Veiga, professora e doutora em História (das Mulheres), aprendi sobre a teoria do Tripartite do historiador Fernand Braudel, que nos fala dos três espaços-tempo dos fatos na História.
A analogia que ele faz com o mar para explicar esses espaços-tempo é maravilhosa para explicar essa ideia que venho repetinod aqui sobre tudo ser processo e, ainda, nos ajuda a compeender a interconexão que há entre tudo.
Para Braudrel, é no fundo do mar onde toda a transformação começa e vai acontecendo, se desdobrando, lentamente, num processo de longa duração. Ainda abaixo da superfície, mas já mais no meio do mar, está o tempo cíclico, a conjuntura. Aqui, é onde a movimentação é mais perceptível nos nossos dias. Na superfície, onde as ondas se formam e estouram, muitas vezes calmas, e em outras tantas, mais intensas e fortes, é o espaço-tempo dos desdobramentos concretos, quando eventos e acontecimentos ganham forma concreta em nossas vidas e na História. É quando a revolução eclode num país ou uma mudança se concretiza em nossas vidas.
Podemos dizer que abaixo da superfície é onde recebemos os convites da vida que as mulheres planeta e as imagens simbólicas nos entregam. É mergulhando nessas águas que ganhamos consciência de tais convites para que possamos participar, ter agência, na forma como eles vão se desdobrar na superfície. Jamais para impedir e mudar a onda ou a sua direção – o que é impossível, pois isso seria querer controlar o fluxo da vida e a força evolutiva do universo. Mas, sim, para saber a onda que teremos pela frente, escolher se vamos ou não surfá-la; e, se sim, a melhor maneira que se tem à disposição para fazer isso e desfrutá-la.
Amei demais essa analogia com o mar, primeiro por que ela tem tudo a ver com a compreensão que hoje temos do universo. Assim como o mar, de parado o universo tem nada! Os oceanos têm sempre uma onda ou marola despontando em suas águas, eles estão sempre em movimento, tal qual acontece no tecido do espaço-tempo do caldeirão cósmico de possibilidades que é o universo, onde há algo novo emergindo. E se assim funciona o próprio universo, como seria diferente com a vida e conosco, criações e criaturas que somos dele?
Não há como. Somos seres em constante construção e movimento, tal qual é a vida aqui. Na rotina e prática do dia a dia, além de mudar minha percepção e entendimento sobre a relação que existe entre nós e o universo, essa compreensão tem me ajudado a dialogar de outra maneira com as mudanças inesperadas, os desvios de rota repentinos da vida e com os convites que ela faz.
Seguimos.
