Tudo começou com a leitura de um livro. Com uma história.
Não uma qualquer. Uma de bilhões de anos e que é comum a todas e todos nós e que me fez entender o universo como um sistema inteligente, infinitamente criativo, todo interconectado e que está em permanente desdobramento e evolução.
Foi a leitura de The Universe Story (A História do Universo) que despertaria as perguntas que levariam a escrita do Ensaio sobre a Terra. Escrito por uma dupla sensacional, o cosmólogo Brian Swimme e o ecoteólogo Thomas Berry, o livro narra a extraordinária sequência de transformações ocorridas nos 14 bilhões de anos de existência do Universo. E como essa evolução permitiu que a Terra existisse, a vida florescesse e a nossa espécie nascesse aqui.
Ao contar a sequência de combustões, explosões, colapsos e surgimentos de estrelas, supernovas, galáxias até chegar à formação a Terra, os escritores nos apresentam um Universo que está em constante desdobramento, movimento, evolução. Algo muito mais parecido com uma história em andamento, ao invés do pano de fundo estático e finito da nossa existência como nos acostumamos a pensar.
A compreensão de que o nosso planeta não é um produto do acaso, rodando aleatoriamente no espaço, mas o resultado de uma série de transformações ao longo dos bilhões de anos de evolução do Cosmos desperta uma nova consciência sobre a Terra e a nossa relação com ela. O que me leva a questionar a forma como o nosso planeta vem sendo retratado na astrologia.
Existe uma ligação entre essa ausência de Gaia na prática astrológica e a total falta de noção de que integramos e somos parte desse enorme sistema que fez existir vida nesse subúrbio encantador do Universo chamado Via Láctea?
Pra responder, o primeiro passo foi compreender o pensamento que sistematizou a astrologia como a conhecemos e utilizamos hoje. O que foi feito na Grécia, Alexandria e Roma da Antiguidade. Com esse propósito, então me debrucei sobre a obra A Epopeia do Pensamento Ocidental, de Richard Tarnas, que analisa as origens e evolução do pensamento ocidental e de toda a construção social que existiu a partir dele.
Ao encerrar essa etapa, não foi surpresa alguma perceber que o pensamento patriarcal misógino, androcêntrico e sexista predominava na Antiguidade. E que, como construção cultura e social de sua época, a astrologia foi sistematizada com essas lentes patriarcais. A partir desse entendimento, novas perguntas surgiram, ampliando o foco da minha busca e pesquisa.
Há uma conexão entre o patriarcado, a ausência da Terra na astrologia, nosso divórcio da natureza e a absoluta falta de consciência do quanto somos interdependentes com todas as outras formas de vida aqui? Do quanto dependemos da existência de todos eles pra sobreviver? Do quanto somos também responsáveis pela manutenção da vida aqui?
Voltei à pesquisa e, à medida que seguia, fui entendo que o nosso distanciamento da Terra não é algo natural, mas consequência de uma construção cultural e social do homem. E que a consciência da nossa interdependência e conexão com todas as demais espécies e seres, humanas e não humanas, que compõem essa grande comunidade chamada Terra, se tornou tênue e desbotada no imaginário em função dessa construção. O que, aliás, o entendimento da Terra na astrologia também reflete.
Eis como passamos a equivocadamente entender a Terra e a natureza como algo distinto, à parte de nós, como o outro. O que, por sua vez, permitiu que fizéssemos dela apenas ambiente, um pano de fundo pra nossa existência aqui, e um recurso a ser explorado. Assim nascia a pesquisa que me levou a identificar as construções patriarcais na astrologia e a propor um novo olhar e uma outra forma de se relacionar com a Terra, na astrologia e na vida.
