“Esse livro é dedicado ao nosso planeta Terra. Ela nos dá vida, nos sustenta, nos fascina, e faz tudo isso com incrível beleza”. Assim começa a leitura de Earth Rise (O Nascer da Terra) da astróloga Cynthia LC Wood e cujo título faz referência ao nome dado à primeira foto da Terra feita do espaço pela tripulação da missão Apollo 8 em 1968. Obra que faz uma defesa do uso do planeta Terra na astrologia e que foi fonte para a minha pesquisa na escrita do Ensaio sobre a Terra.
Na obra, Cynthia diz que a falta de uma representação arquetípica e icônica da Terra na astrologia mostra o quanto não temos perspectiva do próprio mundo que habitamos. E tampouco entendemos a importância de Terra/Gaia na nossa psique. O que ela classifica como um desafio do tamanho do “elefante na sala”.
Mas que elefante seria esse na sala?
A consciência de que o self não se resume ao eu e tampouco evolui sozinho nesse mundo. A consciência da nossa interdependência e interconexão n]ao só entre nós, humans, mas com todos os demais seres e espécies numa sociedade extremamente individualista e desconectada do social. Um elefante na sala, realmente.
Pensar com essa consciência de interdependência e interconexão numa sociedade extremamente individualista, orientada pela racionalidade neoliberal a entender o desenvolvimento do self, do eu, como uma ação individual e desconectada do social, é um elefante bem grande e complicado de lidar, mesmo. Pra mudar isso, é preciso uma nova compreensão do self, do eu. Uma que entenda o seu desenvolvimento como dependente, conectado e atrelado às demais pessoas e espécies que formam a grande comunidade da Terra. Exatamente o que Joanna Macy, ecofilósofa, budista e uma das vozes mais respeitadas mundo afora nos movimentos por paz, justiça e ecologia, defende em seu livro Greening of The Self (O Esverdeamento do Eu, em tradução livre).
Na obra, Joanna mostra como essa percepção, que ela chama de esverdeamento do self, já vem acontecendo por três razões distintas. A primeira é a possibilidade de uma extinção em massa que vem confrontando e desafiando o ego psicológica e espiritualmente. A segunda é a desconstrução da ideia de um eu separado do mundo feita pela ciência sistêmica e pela física. Por fim, a terceira é o ressurgimento das espiritualidades não dualísticas, como o budismo.
Nesse sentido, colocar a Terra, Gaia, no mapa astral se mostra mais uma forma de despertar consciência da nossa interconexão e interdependência e ampliar a compreensão do si mesmo, rompendo com as narrativas e a visão de um eu superior ao outro. Concepção essa que deriva dos valores, das crenças básicas e dos pressupostos patriarcais.
Mais uma degustação do Ensaio sobre a Terra que lanço semana que vem.
Imagem: Danny Giebe/Unsplash
