Sabendo o quanto o ponto de vista predominante é o que narra a história que será contada e cria toda a construção social, à medida que eu avançava na pesquisa que resultaria no Ensaio sobre a Terra, ficava cada vez (mais) clara a influência das estruturas conceituais do patriarcado na Astrologia.
Assim como eu, no artigo A Feminist Stand on Astrology (Um posicionamento feminista na Astrologia, em tradução livre), publicado no da Faculty of Astrological Studies, o astrólogo Alejo Lopez identifica uma sutil abordagem sexista na forma como o modelo astrológico que conhecemos foi projetado. E reflete e se questiona se não é tempo de olhar para esses conceitos não para desvalidá-los, mas pra revisitá-los com uma nova consciência, pra que não perpetuemos visões equivocadas que “podem estar escondidos nessas estruturas bem aceitas”.
Pra que você compreenda do que falamos, vou falar aqui sobre a Lua.
Sua regência em Câncer significa que os atributos associados à Lua fluem nesse signo, que é associado ao universo das emoções, da sensibilidade, da maternidade, da nutrição, da afeição, do afeto, do lar. Todos eles, assuntos da alçada da mulher para o patriarcado. Também não me parece coincidência que o astro que representa o papel de mãe e reprodutora, assim como toda a sensibilidade e irracionalidade atribuída à mulher pelo patriarcado, seja regente do signo e da casa que simbolizam a vida doméstica e maternidade na esfera mundana.
Onde seus atributos enfrentam dificuldades de expressão e ficam debilitados? Capricórnio, aquele que representa a autoridade, a autonomia, a chefia. Uma mensagem clara do que a mulher não deve almejar: a vida pública, a autonomia, a chefia. Afinal, isto tudo é papel do homem.
Suas qualidades ganham força e são exaltadas em Touro, signo que é associado ao cuidado com a Terra, à agricultura, à fertilidade, ao prazer sensorial, à beleza. Por fim, seus atributos ficam enfraquecidos, emudecidos, em Escorpião, signo associado ao sexo, ao desejo carnal, ao orgasmo, ao êxtase. E aqui, mais uma mensagem clara é dada: não cabe à mulher, menos ainda à mãe simbolizada pela Lua, o direito ao prazer e ao desejo sexual. Isso é ‘da natureza’ do homem.
Apesar de ser anterior à Claudio Ptolomeu, autor da obra considerada a ‘bíblia’ da astrologia, o conceito de dignidades e debilidades, que mostra como os atributos associados a um planeta fluem de forma mais natural e potente ou mais truncada e complicada de acordo com os signos do Zodíaco, foi revisado por ele ao sistematizar a prática e o saber da astrologia em torno de 140 AC. E como tão bem diz Alejo, “Ptolomeu também era um humano, imerso na cultura de seu tempo. Ele pode ter construído (esse modelo) esperando ou confiando que faríamos perguntas, ao invés de simplesmente aceitar certezas”.
A pesquisa e a escrita do ensaio deixaram claro pra mim não apenas como o filtro do patriarcado está presente na astrologia, mas também (e principalmente) como precisamos de novas narrativas que repovoem o imaginário com mitos e histórias que ponham um fim à hegemonia dos conceitos estruturais patriarcais que até aqui guiaram toda a forma de construção cultural e social. O que, acredito, esteja intimamente conectado com a inserção do arquétipo do planeta Terra nos estudos astrológicos.
Imagem de abertura: Max Letek/Unsplash
