Era uma vez o nada. Mergulhado em escuridão, sua existência era essa e tudo ia bem assim até que a luz se fez. E, com ela, desponta o tempo e surgem as primeira partículas de átomo, que se espalharam através do espaço, criando o Universo há 14 bilhões de anos.
Depois, nascem as Supernovas e suas espetaculares e dramáticas explosões. Bilhões de anos passam e, da explosão de três Supernovas no braço de Orion, no subúrbio da Via Láctea, desponta o Sol. Dos resíduos em seu entorno, nascem os planetas, gasosos e incrivelmente quentes como o interior de um vulcão.
Alguns planetas se mantém assim. Outros, se especializam na formação de rochas, com Marte. Mas a Terra… Ah, a Terra faz algo diferente. Algo único, inédito, lindo e potente demais: a Terra cria vida nesse rincão da galáxia!
Depois da etapa gasosa e lava derretida, a Terra vai se transformando. Surgem as rochas. Depois, a atmosfera, os oceanos, os continentes. Até que a vida desponte com Áries – não o signo, mas a primeira célula procarionte do planeta. A partir daí, numa sequência magnífica de transformações durante 4 bilhões de anos, surgem as células eucarióticas, as células multicelulares, as medusas, os vermes, os peixes, os insetos, as plantas, as aves, os dinossauros, as flores, e assim por diante, até o despontar da primeira versão humana, a Homo Habilis, numa fascinante saga de criação e extinção.
Dois milhões, 300 mil anos e algumas catástrofes depois, se chega numa versão muito rudimentar do modelo atual, a Sapiens Arcaico. Mais 250 mil anos de evolução e tá dá: nos tornamos a versão Sapiens Moderna. E aí, não paramos mais!
Desenvolvemos a linguagem, criamos instrumentos musicais, arcos e flechas, fizemos pinturas nas paredes das cavernas, passamos a contra histórias, domesticamos animais, começamos a viver em vilas, criamos os estados arcaicos patriarcais e sua cultura horrorosa de dominação, as nações-estado e a História toda como conhecemos hoje.
Que saga incrível a nossa até aqui, hein?! Quantas transformações o universo viveu até que a Terra fosse formada, a vida despertasse no planeta e nós, seres humanas, existíssemos!
Foi a leitura de The Universe Story (A História do Universo), escrito pelo cosmólogo Brian Swimme e o genial ecoteólogo Thomas Berry, que me fez entender que a nossa história não se inicia naquela linha do tempo que as aulas de História da escola desenham pra nós. Nananinanão! Ela começa bem antes. E saber isso mudou pra sempre a maneira com o eu entendo a Terra, a nossa relação com ela e o nosso papel como seres humanas nessa história!
Não consigo mais ver a Terra (e nenhum de nós) como um ser isolado, desconectado desse sistema maior, muito maior e que a gente pouco conhece, que é o universo. Tampouco vejo o nosso planeta como uma bola rodando aleatoriamente no espaço, servindo apenas de pano de fundo para os dramas da humanidade.
Hoje, entendo ela como tão algo maior do que isso!
Sinto a Terra como um ser vivo, de natureza exuberante e generosa, que gerou uma comunhão de sujeitos diversos que estão aqui compartilhando a experiência incrível da vida nesse rincão do Cosmos. Todos interdependentes e interconectados pela teia da vida e por essa inteligência criativa-evolutiva genial do Cosmos, ao invés da coleção de objetos aleatórios que nos fizeram acreditar que éramos.
Esse entendimento foi a fagulha pra escrever o Ensaio sobre a Terra e propor o resgate do simbolismo da Terra na cultura e na astrologia. Sem essa consciência simbólica, a que opera nas profundezas do inconsciente desde os nossos primórdios, jamais entenderemos a Terra como um sujeito e nem a nós como parte do seu sistema de vida, como participantes da sua história.
Aliás, isso me faz pensar no seguinte: se a história do Terra fosse uma série (hello, CosmicFlix), a atual temporada dela giraria em torno da nossa espécie – nós, humans, seríamos protagonistas. Mas, com certeza, não somos os únicos personagens protagonizando a saga. Antes de nós, os gases, as rochas, os protozoários, os dinossauros e outras espécies já foram os personagens principais. Tipo os Bridgerton, onde um filho protagoniza cada temporada, saca? Da mesma forma acontece na Terra. E no universo.
O mais lindo é que, no meio dessa imensidão que a cabeça nem dá conta, é incrível saber que estamos nos tornando conscientes dessa nova História. E fico torcendo pra que possamos ver essa nova linha do tempo sendo ensinada nas escolas num tempo não muito distante daqui.
