A obra de Shamsia Hassani é mais uma manifestação do afeto revolucionário que ando falando por aqui.
Nas duas últimas décadas, suas obras vinham dando uma nova esperança a artistas afegãs no país, além de ter inspirado milhares de mulheres ao redor do mundo.
A primeira mulher grafiteira do Afeganistão usa a potência da sua arte para dar voz a mulheres invisibilizadas e silenciadas pelo fundamentalismo do Talibã e pelo patriarcado. Por essa razão, suas mulheres são sempre retratadas sem boca. Mas isso não significa que elas sejam submissas!
Em suas obras, a artista retrata as mulheres afegãs com um rosto bem diferente dos estereótipos, mostrando que elas “têm ousadia, poder, ambições e vontade de atingir objetivos”, como diz em seu site.
“Meu país e minha arte me deram uma identidade. No dia em que Cabul caiu, eu não podia acreditar; meu coração estava em chamas”, disse ela em entrevista que li no jornal The Guardian, lamentando que tudo o que construiu ao longo de 20 anos poderia ser destruído em minutos.
Shamsia é uma das muitas artistas afegãs que precisou sair do país em 2021 e teve obras cobertas nas ruas pelo Talibã.
“As plantas que eu nutri com anos de esforço e esperanças foram todas destruídas”, disse ao The Guardian. “Tínhamos plantado uma semente e estávamos vendo ela crescer.”
Mas Shamsia não se deixa calar e segue usando sua voz para denunciar a opressão em seu país.
“Enquanto trabalho nas minhas obras de arte, penso 80% do tempo no meu povo, que está em busca de paz”, escreveu em seu site.
Sua voz e obra são rieconhecidas internacionalmente e a artista foi incluída no segundo volume do bestseller Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes, que conta histórias de mulheres revolucionárias mundo afora. Mulheres muitas vezes silenciadas, mas nada silenciosas em criatividade e coragem, como a arte de Shamsia mostra.
No mesmo dia em que escrevi esse post no instagram, na semana passada, o mundo se estarrecia com mais uma notícia sobre a violência contra as mulheres no Afeganistão: o Talibã acabara de proibir as mulheres de irem aos parques. Sabe porquê?
Para evitar qualquer possibilidade delas se reunirem se mobilizarem. Isolando as mulheres em casa, o Talibã tenta impedir o surgimento de qualquer movimento e reação contra seu sistema fundamentalista. Esse tipo de estratégia acontece no mundo desde sempre e não é exclusividade do Talibã, não. A caça às bruxas também foi sobre isso: acabaram com a mobilização das mulheres que estava despontando na idade média.
A professora doutora de História das Mulheres Susana Veiga tem um curso inteirinho sobre isse tema que fiz em julho e sobre o qual escrevi aqui. E que eu recomendo muito, pois nos dá a consciênica de que mulheres unidas têm a força das águas!
Para conhecer a arte de Shamsia, deixo aqui seu perfil no intagram @shamsiahassani.
Imagem: obra de Shamsia Hassani
