De um tempo pra cá, antes de ler quaisquer livros em minhas pesquisas, passei a consultar a bibliografia deles pra ver se o autor cita mulheres intelectuais e pesquisadoras, se recorreu ao pensamento delas na sua obra.
Se não cita, imediatamente dispara o alerta para a possibilidade da obra ter sido escrita com lentes tingidas e impregnadas por valores, conceitos e ideias ainda bem patriarcais. Algo bastante comum e que não significa que é intencional, mas resultado da falta de conhecimento (ou de vontade de se debruçar sobre) outras perspectivas abordando a mesma questão.
Infelizmente, temos tido a nossa participação, a nossa soberania, a nossa agência, o nosso protagonismo e voz apagados no dia a dia da História. E praticamente até ontem, cerca de 60 anos atrás, apenas homens tinham autoridade moral e intelectual pra pensar o mundo e sociedade que vivemos.
Às mulheres isso era negado por sua atribuída “inferioridade intelectual e incapacidade de ser racional”. Essa ficção criada pela filosofia e pela religião teve seu rebranding assinado pela ciência, que taxou a “essência e natureza” da mulher como “irracional, histérica, passional”. Razão pela qual ela devia ser tutelada pelo homem e mantida em casa, sob rédea curta.
Foi nos fazendo acreditar nessas ideias equivocadas e mentirosas que a autoestima, a autonomia e a soberania das mulheres foram esmagadas pelo rolo compressor do patriarcado por séculos. E nossas vozes, ideias e ações foram silenciadas, apagadas do ‘registro oficial” por muito tempo.
Relendo a obra A Epopeia do Pensamento Ocidental, de Richard Tarnas, a constatação de que faz pouco tempo que as mulheres reverteram essa ideia e passaram a acessar esse panteão até então exclusivo aos homens ficou ainda mais evidente. A maioria das poucas intelectuais mulheres citadas nesse livro tiveram suas obras publicadas a partir do século 20. O que reflete a estrutura social que definiu que à mulher não cabia esse papel.
Desde que comecei a estudar a História das Mulheres com Suzana Veiga, fazer aulas com Thaysa Barbosa e passei a ler teóricas e ensaístas feministas, como Gerda Lerner e Rebecca Solnit, o que mais me impacta é esse silenciamento perverso imposto às mulheres.
Quanto mais leio e estudo, mais percebo isso no mundo que nos forjou e nos comportamentos, polêmicas e lutas que nos cercam! Quantos casos já houve de mulheres que tiveram seus feitos atribuídos a homens e, assim, seus nomes apagados da História e suas vozes silenciadas? Várias! Inclusive, algumas delas já contei aqui.
Quantas escritoras tiveram que publicar suas obras sob pseudônimos de homem para serem levadas a sério? Quanto esforço as mulheres que vieram bem antes de nós tiveram que empregar pra legitimar a própria subjetividade e capacidade de pensar e dar voz às suas ideias?
Como se a teoria e os relatos que leio não bastassem, a realidade nossa de cada dia está aí para nos mostra e não deixar dúvida alguma quanto a isso.
Um exemplo?
Há cerca de um mês, testemunhamos, outra vez, uma forma de silenciamento de mulheres que acontece com muita frequência: o plágio. Volta e meia, vemos casos em que um homem se sente confortável o bastante para usar palavras e ideias de uma mulher como se fossem suas, se apropriando delas, simplesmente apagando a autora da ideia original, sem problema algum. O que, além de intelectualmente desonesto, é antiético pra caramba.
É bastante comum, infelizmente, vermos homens citando homens, mas se apropriando de ideias de mulheres.
Nada disso acontece por acaso ou é um caso isolado. Essa prática sistemática é uma estratégia milenar para nos calar.
Do roubo intelectual ao descrédito das nossas palavras, do machão que manda mulher calar a boca ao presidente ou deputado tchutchuca que desrespeitam e agridem jornalistas mulheres, do estupro ao assassinato dos nossos corpos, o objetivo é sempre o mesmo: silenciar as mulheres, de uma forma ou de outra. Silenciar nossas vozes, a nossa capacidade de pensar por contra própria o mundo e suas instituições, de questionar, discordar, argumentar, de querer fazer diferente.
Apesar dessa tentativa de nos calar, a boa notícia é que jamais fomos silenciosas. Se tem algo que a História das Mulheres nos mostra é que, às margens do sistema, sempre encontramos formas de subverter essas ideias falaciosas e dogmas. E, assim, num processo que levou séculos, fomos resgatando nossa soberania interior e a nossa voz no mundo.
É por isso que eu acredito ser tão crucial e cada vez mais necessário disseminar mais e mais histórias de mulheres que nos mostram como os dramas que vivemos hoje estão conectados com essas ideias que foram plantadas nas nossas mentes e corações, no nosso imaginário e na nossa psique, e até hoje condicionam os comportamentos e escolhas nossas de cada dia.
Com esse propósito, deixo aqui três podcasts feitos por mulheres que dão voz a outras mulheres e que são incríveis! Recomendo muito!
Acredito que é assim, nos reunindo, questionando e rompendo com o que aí está, e imaginando novas formas de ser e estar na Terra e no mundo, que vamos construir relações mais saudáveis, empáticas, afetivas e menos tóxicas entre nós e TODAS as demais formas de ser e existir, humanas não-humanas. E isso, minha gente, também é feminismo pra mim.
Imagem: Jon Tyson/Unsplash
