Inspirada nas aulas maravilhosas do curso Mulheres, Misoginia, Caça às Bruxas e Inquisição da professora doutora em História Suzana Veiga, escrevo o post aqui.
Um fato que me chamou muito a atenção foi a imaginação dos homens que criaram os manuais de caça às bruxas, verdadeiros best-sellers à época.
Gente, não sei o que tinha na água naquele tempo que fazia o ódio ferver no sangue e dava asas pra imaginação dos infelizes, mas até a saga de fantasia mais insana e mirabolante fica devendo pra esses manuais. É cada ideia!
Eles deviam ter muito tempo para o ócio criativo! Só pode! E havia uma obsessão com orgia (os sabás) que a gente até desconfia do que esse povo reprimia, sabe? Alguns também tinham uma fixação incrível com beijos nas nádegas do capeta.
Ah, outra curiosidade que mostra a diferença nos olhos de quem vê o mundo e escrevia essas ficções: o pacto de um homem com o coisa ruim era selado com um aperto de mãos. Com as mulheres, acusadas pela Inquisição de de serem seres sexualmente insaciáveis, esse pacto era sempre carnal. Ou seja: com sexo devasso. Uma imagem demoníaca associada à mulher que era fomentada no imaginário popular com os panfletos, o zap da época.
Através dos panfletos, a inquisição semeou muita discórdia contra as mulheres e incitou esse discurso de ódio nas classes populares. E também teceu no imaginário a ideia da bruxa velha, má e culpada por todos os males que aconteciam no mundo. Para isso, todas as plataformas disponíveis a época foram usadas para criar a ideia da bruxa no imaginário das pessoas. Todas as plataformas eram usadas para disseminar o ódio contra as mulheres representavam a bruxa, geralmente mulheres mais independentes, mais velhas com mais liberdade. Não por acaso, a média de idade da maioria das condenadas à fogueira era 60 anos.
Esse papel de bode expiatório era, na verdade uma grande cortina de fumaça para desmobilizar e distrair o povo diante dos conflitos sociais que eclodiam na época. Veja, você, como essa estratégia é bem antiga. Aliás, a pedagogia do medo é sempre muito utilizada para criar cortinas de fumaça e manipular vontades, desde sempre. Assim, as mulheres e os homens que ousavam questionavam o status quo se tornam figuras não gratas e hereges.
Foi pra fogueira quem questionou, não se comportou como os manuais determinavam, quem ousou questionar as hierarquias e os sistemas vigente. É triste é saber que 57% das vítimas da Inquisição foram mulheres pobres e do meio rural – onde mais havia alegação de feitiçaria. Exatamente aonde ainda se mantinham vivas tradições de cultos a deusas e deuses pagãos.
Por fim, sobre a feitiçaria, nessa época, as práticas mágicas estão presentes nas principais relatos históricos. Sua prática não era condenada. Afinal, muitos reis usavam esse serviços. O problema era quem estava autorizada a fazer isso: apenas homens e, claro, escolhidos pelas instituições religiosas. Assim, as doenças do corpo eram tratados por médicos. Castigos divinos, pela igreja. E doenças consideradas diabólicas eram tratadas por agentes mágicos. Geralmente, feiticeiros.
O feiticeiro era responsável por fórmulas, ritos e poções para inclinar vontades. Diferentemente da bruxa, que já nascia da semente do mal ou fazia um pacto com o demônio, o feiticeiro estudava pra se tornar agente mágico. Até aí os homens eram superiores às mulheres.
A bruxa, por sua vez, diziam as más e difamatórias línguas, era incapaz de conter os desejos da carne e seu voraz apetite sexual. Por isso, fazia orgias com o capeta. Além de ser bruxa por nascença ou pacto, muitas eram também acusadas de feitiçaria, de inclinar vontades e interferir em situações fazendo uso de algum ritual mágico orientado pelo demônio.
Uma curiosidade: sabe de onde veio a ideia das bruxas usarem vassouras?
Das mestras cervejeiras!
Esse ofício era executada por mulheres nessa época, e elas deixavam vassouras encostadas na porta, do lado de fora de suas casas, pra sinalizar que a cerveja estava pronta. Veja, você!
Enfim, no curso ficou claro que essa é uma longa longa história, tão antiga quanto a civilização ocidental. Uma história em que atravessa séculos, onde mudam os figurinos, os cenários, as tecnologias, mas o discurso de ódio contra as mulheres segue se perpetuando. Infelizmente.
Ela tem suas origens nos levam à terrivelmente misógina Grécia Antiga. E ela ganha novas versões e rebranding a cada nova temporada, sempre que as mulheres avançam um cadinho, ganham mais voz e alguma independência. O patriarcado pira. E reage!
Quando isso acontece, os brothers da fraternidade apelam pra Gillead e tratam de criar histórias, ficções e narrativas que façam da mulher um monstro a ser combatido, como Tiamat na Babilônia ou a bruxa a ser queimada na fogueira do ódio da Inquisição na Idade Moderna. Nem tão moderna assim, né?
Vale tudo pra criar a imagem da mulher satânica e obrigá-la a voltar a ocupar o papel social que os homens definiram ser o dela – de submissão, do silêncio e da docilidade. Trancada em casa, de preferência. Qualquer semelhança com histórias e narrativas atuais não é mera coincidência. É rebranding.
A história dos discursos de ódio contra as mulheres é longa longa, nada nova e, infelizmente, sem fim. O bom dessas aulas é que a gente sempre dialoga sobre alternativas, perspectivas, possibilidades, sobre o que juntas podemos construir como coletivo pra começar a fazer diferente e mudar os rumos dessa história e de tantas outras que nos atravessam.
Imagem: Adrien Bruneau/Unsplash
