Em 1930, Plutão era descoberto.
Planeta cujo arquétipo é associado ao inconsciente, ao instinto visceral, à sombra, à transmutação e à transformação, tem sua expressão vista na erupção do vulcão, no orgasmo, no rompimento de que tudo que está reprimido, no clímax do parto (a transição), no universo atômico e na força nuclear.
Para a astrologia, a descoberta de um planeta simboliza um novo impulso e anseio que despertou na nossa consciência e que vemos se manifestar no nosso comportamento, na cultura e em todas as esferas da vida por aqui.
Não por coincidência, portanto, em 1928, Carl Jung publicaria a obra O Eu e o Inconsciente.
E na década de 1930, o nêutron era descoberto, o que mudaria os rumos e os métodos utilizados para estudar o núcleo do átomo, avançando as pesquisas nesse campo e levando à descoberta da fissão nucelar. Essa revelação daria origem ao Projeto Manhattan, aquele que culminou com a criação e o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima em 1945. Com a morte, outro símbolo de Plutão.
‘Eu me lembrei de algumas linhas do texto sagrado hindu Bhagavad-Gita’, disse, anos depois, Robert Oppenheimer, um dos cientistas que coordenou o projeto Manhattan. ‘Vishnu tenta persuadir o príncipe de que ele deveria cumprir seu dever e, para impressioná-lo, assume sua forma com múltiplos braços e diz: agora , eu me tornei a morte, a destruidora de mundos’. Tão plutônico isso! ‘Suponho que todos pensávamos assim, de uma forma ou de outra’, concluiu o cientista.
Em tempo: a cientista Lise Meitner, que pioneirou a descoberta da fissão nuclear e teve sua autoria ‘apagada’ dessa conquista por Otto Hahn, seu par na pesquisa, que acabou sendo laureado sozinho com o Nobel de Química em 1944, recusou-se a participar do projeto Manhattan. Ela não compactuou com o demais cientistas em usar seu conhecimento pra construir uma arma de destruição em massa. Fiquei tão fã dela e em breve vou contar essa história aqui. 😉
Outra treta patriarcal envolvendo a descoberta de Plutão envolve Elizabeth Williams, uma das primeiras mulheres a concluir a Licenciatura em Física no MIT. Foi ela quem fez os cálculos precisos que levariam à descoberta do planeta, quando trabalhou como “computadora” no Observatório Lowell, entre 1908 a 1922, ano em que casou-se e foi demitida por ser considerado inapropriado à uma mulher casada trabalhar fora de casa.
Anos depois, em 1930, Plutão seria finalmente encontrado graças aos seus cálculos. Mas, claro, o nome dessa mulher genial foi apagado dessa conquista pelo rolo compressor da estrutura patriarcal. Mais um caso nada isolado nessa lista.
Aliás, foi nesse mesmo período, entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20 que fomos apresentados à relatividade, à mecânica quântica, à física nuclear e à noção de um universo em constante desdobramento e cheio de possibilidades. Tudo que levaria à nova cosmologia, portanto. As descobertas de cientistas como Albert Einstein, Max Planck, Lise Meitner, Werner Heisebenrg, Ernest Rutherford, Edwin Hubble e tantos outros nos mostraram que a natureza do Cosmos (e da vida) não era tão ordenada, estática, perfeitinha e previsível como se imaginava.
Nessa mesma época, o psiquiatra Sigmund Freud apresentava suas teorias com temas plutônicos como libido e as pulsões sexual (pró vida) e da morte (pró segregação e destruição). E o mundo também via a primeira onda do feminismo levar às ruas mulheres fartas de terem suas vozes silenciadas e suas vidas tuteladas e controladas por regras estabelecidas por homens, por uma estrutura que lhes negava a possibilidade de tomar decisões sobre as próprias vidas em qualquer esfera, pública ou privada. Afinal, apenas os homens eram considerados cidadãos.
Tudo isso me faz pensar no quanto Plutão parece ter preparado a nossa consciência e o nosso espírito para o retorno da imprevisibilidade, do mistério, do caos e das possibilidades que a nova cosmologia nos apresentou.
Imagem: Jon Tyson/Unsplash
