Imagem: Alessandro Sacchi/Unsplash
Se você me acompanha há algum tempo aqui, sabe que não é de hoje que ando encafifada com o match entre a astrologia e o patriarcado. Essa treta, que se escancarou pra mim depois que passei a estudar a História das Mulheres e ler teóricas feministas, me fez escrever dois livros, mudou minha forma de astrologar e transformou a mim e meu olhar sobre o mundo e as nossas relações, como conto no meu novo livro.
Uma que me fez adicionar a Terra nas minhas leituras de mapa astral, despir de associações com masculino/feminino qualquer associação com planetas, reler o papel de Vênus e abandonar o conceito de casamento sagrado, como contei aqui.
Eu sei que a um olhar rápido, raso e superficial isso pode parecer mimimi – mais uma feminista achando problema por aí. Mas pior que não é isso. Mas, não, mesmo.
Toda vez que a gente reproduz e usa, pra explicar o mundo e os nossos comportamentos, conceitos que foram criados com valores que reforçam (até hoje) a ideia da superioridade masculina e da inferioridade da mulher, seguimos dando força pra essas ideias no lugar onde tudo começa: no nosso imaginário, o lugar onde construímos a maneira como vemos, imaginamos e entendemos o mundo e as relações entre nós.
Pra acabar com o preconceito inconsciente que transborda em falas, comentários, leis, atos e violências contra as mulheres, só mudando a lógica que definiu o que é ser masculino e feminino. Uma concepção criada por homens pra justificar e endossar um sistema de dominação que criou essa cultura que naturaliza a violência contra o corpo e a voz da mulher.
Se a gente seguir usando essas ideias e conceitos repletos de valores patriarcais misóginos e racistas pra explicar o mundo e os nossos comportamentos, seguiremos fomentando preconceitos e dando força pra essas ideias no lugar onde tudo tudo tudo começa: no nosso imaginário! O campo onde definimos a maneira como vemos, imaginamos e entendemos o mundo e as relações entre nós.
Sem essa mudança, acredito que seguiremos perpetuando as ideias e os valores que até hoje buscam silenciar as mulheres, atacando nossas vozes e corpos.
Isso me faz pensar nas muitas conversas e trocas que tenho com o amigo Glenn Gomes, um baita consultor de empresas e marketing, com quem dialogo muito sobre cultura empresarial. A cada escândalo racista, sexista e misógino que rola e choca todos nós, lembro das palavras dele:
– Não é treinamento que vai resolver. Isso é a cultura da empresa. São os comentários nos almoços, as risadinhas e piadinhas nas festinhas na firma e nas reuniões. É o que os dirigentes mostram com fazem e como agem que orienta a ação das pessoas, das equipes, muito mais do que palavras impressas num manual ou em cartaz no mural.
Da mesma forma, os discursos e conceitos que definem o que caracteriza ser masculino e feminino, todos eles criados por homens pra justificar e endossar um sistema que há milênios oprime mulheres, gerou uma cultura que naturalizou a violência contra o corpo e a voz da mulher.
Acha que não é bem assim?
Então, diz pra mim: você já ouviu falar de algum caso de estupro coletivo de um jovem, menino ou homem perpetrado por mulheres? Soube de alguma jovem adolescente que abriu fogo contra colegas numa escola provocando um massacre, porque um cara não quis transar com ela? Ou um rapaz que foi estuprado por estar vestindo um shortinho curto, pedindo pra ser atacado?
Eu ainda não vi. Já o contrário, têm pencas e são casos que de ‘isolados’ tem nada. Diz a ensaísta Rebecca Solnit que se colocássemos cada ‘caso isolado’ desses num mapa, teríamos uma visão bem diferente da realidade: a da verdadeira pandemia de violência contra a mulher que assola o mundo. E que não é pouca e nem é de agora.
Pra mudar essa realidade, primeiro é preciso mudar o campo do simbólico – as imagens que a gente constrói das coisas, das relações, do mundo, a partir das histórias que nos contam. Das narrativas que são criadas. É aí que tudo começa – o que ficou ainda mais claro pra mim na pesquisa para o meu novo livro, Reviravolta no Céu, onde conto como todo esse processo aconteceu e me transformou.
A boa notícia, como diz a doutora em História Suzana Veiga, é que “o patriarcado foi construído historicamente e, portanto, também pode morrer. Como tudo que é cultural é construído pelo ser humano e reflexo dos nossos valores, podemos mudar”.
É por isso, pra ajudar a mudar essa cultura, e começar a criar uma nova realidade, que eu retirei da minha narrativa associações que ajudam a perpetuar valores e ideias patriarcais e estou relendo os mitos com olhar de século 21 e consciência da nova cosmologia.
Também por tudo isso, também abandonei o conceito de casamento sagrado entre Sol e Lua. Afinal, até ele reforça e supersustenta a ideia que associa passividade e subalternidade à mulher e agência e autonomia ao homem. Pra mim, faz muito mais sentido pensar em integração sagrada e num TAO qualificado por atributos e não mais por gênero.
Dessa forma, acredito, vamos libertando nossas mentes dessas histórias que, quase sempre, associam a mulher ao caos e nos culpabilizam pelos dramas e horrores que acontecem no mundo. Inclusive os que nós mesmas vivemos.
Isso me fez lembrar de um episódio sobre o astrônomo e matemático Johannes Kepler que Maria Popova conta em um artigo no seu site The Marginalian. Nele, Maria narra as desventuras que Kepler viveu ao escrever um livro, considerado a primeira obra de ficção científica, que acabou servindo de pretexto pra que a Inquisição luterana na Alemanha acusasse sua mãe de bruxaria. Kepler passou anos defendendo sua mãe das acusações e, embora ela não tenha morrido na fogueira, sua saúde ficou tão debilitada em função das condições insalubres da prisão, que ela faleceu não muito tempo depois de ser libertada.
Maria nos conta que, refletindo sobre tais acontecimentos no capítulo em que aborda temas metafísicos, psicológicos e astrológicos em sua obra A Harmonia do Mundo, publicada em 1619, Kepler diz discordar dos astrólogos à época que buscavam justificar na astrologia (e portanto, no céu, na esfera divina) a diferença de destino entre homens e mulheres. Para ele, não fora o céu que selara o destino de sua mãe, mas a falta de acesso ao conhecimento que ele, como homem, tivera oportunidade de ter e que à sua mãe fora negado, pelo simples fato de ser mulher.
Por isso, conclui Kepler, o destino das mulheres estava muito mais associado à construção terrena do gênero fruto da cultura da época do que ao céu.
Quatrocentos anos depois, cá estamos nós, ainda vivendo preconceitos e violências fruto de narrativas similares que, embora com outras roupas, seguem perpetuando o silenciamento de nossas vozes. Diz meu amigo Glenn que a mudança de cultura numa empresa não acontece do dia pra noite e necessita de algumas gerações pra se efetivar. O mesmo ocorre na nossa sociedade. Faz menos de um século, mais exatamente cerca de 60 anos, que as mulheres começaram a questionar as narrativas e discursos que condicionaram nossa visão de mundo e das relações e que até hoje nos socializam.
De lá pra cá, muito já se avançou, com certeza. Mas tem bastante estrada e solo ainda a percorrer nesse processo, até eliminarmos o preconceito e a discriminação inconscientes, como diz Rebecca Solnit, presentes em tantas vozes e esferas ainda hoje. Inclusive, nos mitos e na astrologia.
Como já disse antes, entendo que a astrologia é uma potente ferramenta de reforma pessoal e social. Como sistema conceitual simbólico que é, ao despir dela os valores patriarcais e usarmos seus símbolos para criar novas narrativas pessoais e coletivas, vamos criando no imaginário outras formas de ser, de nos relacionar uns com os outros e de estar no mundo, de pisar na Terra. Formas que desnaturalizem todo e qualquer tipo de violência contra a mulher no imaginário, no inconsciente e nos comportamentos mundo afora todos os dias.
