Comecei a ler o livro A Criação da Consciência Feminista, da maravilhosa Gerda Lerner, que mostra como nós/mulheres tivemos que provar a nós mesmas que éramos capazes de pensar, escrever, falar sobre nossas condições, sobre a vida, o mundo e o que nos interessasse.
É impressionante observar o quanto o nosso universo interior, a nossa percepção sobre nós mesmas, foi e ainda é impactada pelo patriarcado. São mais de 4 mil anos de repetição contínua em nossas mentes de que nós/mulheres somos inferiores, não tão inteligentes, não tão capazes, não humanas. E que nosso valor está apenas na beleza dos nossos corpos.
Rasga o coração e faz ferver o sangue e a cabeça ver mulheres brilhantes pedindo desculpas, nos prefácios de suas obras, por ousarem pensar e escrever. E eu li só os três primeiros capítulos!
A noção de que somos humanas e tão dotadas de competências, inteligência, genialidade, criatividade e capital intelectual e criativo quanto qualquer homem na face da Terra é recente pra caramba na nossa psique! Tem menos de um século!!
Essa autorização a si mesma nas nossas mentes e corações foi uma construção lenta, silenciosa, e muito atacada e represada por esse sistema controlado por homens, que durou muito mais de mil anos! Sim, foram mais de mil anos pra que legitimássemos a nossa capacidade intelectual e criativa, a nossa voz!
São menos de cem anos de legitimação da nossa voz, da nossa capacidade, contra 4/6 mil anos de lavagem cerebral dizendo o contrário!
É pensando nas tantas mulheres que batalharam e ainda lutam pra ter sua voz ouvida, respeitada e não silenciada, e incluo aí Dona Graça, minha mamis, é que me recuso seguir moldes que, de qualquer maneira, perpetuem e evoquem nas entranhas da nossa alma e nas cavernas escuras da mente essa qualificação criada por homens pra nos manter sob controle, silenciadas e presas a um conceito fictício de inferioridade, sem autonomia e soberania sobre nossas vidas.
É por isso tudo que hoje, junto com outras mulheres, eu ouso questionar, IMAGINAR e propor outras formas de ser e estar no mundo. E, também, de pensar a astrologia, interpretar um mapa astral e escrever e dar voz a novas histórias.
“Queremos pôr em prática um pensamento utópico, entendido como energia e força de insurreição, como presença e como convite para sonhos emancipatórios, como gesto de ruptura: ousar pensar para além do que se apresenta como ‘natural’, ‘pragmático’, ‘razoável’. Não queremos construir uma comunidade utópica, mas restaurar toda a sua força criativa em sonhos de insubmissão e resistência, justiça e liberdade, felicidade e bondade, amizade e encantamento”.
Esse trecho de uma carta escrita coletivamente em junho de 2017 por cerca de 30 mulheres, entre elas a musa Fraçoise Vergès, autora do livro que foi tema do encontro do Clube de Leitura Teoria Feminista nos dois últimos meses, traduz bem o que eu falo. Porque é sobre isso! Juntas, somos tão potentes. É por isso que, quem se beneficia das opressões que o patriarcado promove dentro das nossas mentes e no mundo aqui fora, sempre vai tentar combater essa força que mulheres juntas têm.
Pra que você tenha uma ideia, vou compartilhar um causo meu. Desde que os encontros do clube iniciaram, em janeiro desse ano pra cá, tenho observado uma mudança sutil e significativa dentro de mim. Inclusive, escrevi hoje post sobre isso no instagram. A tal síndrome da impostora, que há tempos me acompanha, vem perdendo força dentro de mim. Diminuindo o volume, sabe?
A cada nova conversa, escuta atenta, troca e reflexão com essas mulheres, observo que essa voz ressoa cada vez menos. E o que cresce é a amplitude da minha voz e da minha percepção de mundo.
Mulheres diversas juntas, pensando o mundo juntas, é de uma potência enorme, mesmo! Como já escrevi aqui antes e agora sei na prática também, essa é uma força que ninguém detém. É libertadora e transformadora demais! Isso tanto no nosso mundo interior, como vem acontecendo comigo, como aqui fora.
Observo e sinto isso a cada novo encontro com essas mulheres incríveis do Clube de Leitura Teoria Feminista Ontem e Hoje, com as amigas de Respiro, com as colegas que conheci nas aulas da Suzana Veiga e da Thaysa Barbosa, e com todas as que venho reencontrando e conhecendo dentro e fora das redes. Um pouco de todas segue comigo.
Imagem: Jon Tyson/Unsplash
