Quem foi que disse que ser racional é desprovido de afeto, empatia e cuidado?
A retirada desses atributos da racionalidade tem causado tantos problemas pra nós.
Quer um exemplo?
O caso do jovem estudante de direito que cometeu suicídio logo após a segunda tentativa de defesa do seu trabalho de conclusão de curso, após sofrer duras críticas pela banca.
A questão aqui não é o que, mas como fazemos.
Dá pra ser exigente e manter a régua alta sem ser arrogante, sabe?
Arrogância, aliás, tem tudo a ver com o simbolismo de um Sol exacerbado na astrologia. E por isso eu defendo tanto a inclusão do arquétipo da Terra – e da consciência que ela simboliza, do cuidado, da empatia, do estar sensível às consequências do que se faz e cria – na astrologia. O quanto ela rompe com essa lógica patriarcal perversa de uma hierarquização e racionalidade fria, despida de humanidade.
Dá pra manter o rigor acadêmico e colaborar para o desenvolvimento sócio-histórico-científico da humanidade sem abrir mão da humanização das relações. Não é difícil, mas é preciso descer dos pedestais que a sociedade patriarcal fundamentada na valorização de hierarquias e da superioridade de uns sobre muitos criou e perpetuou por milênios. Pra quem está no pedestal, nem sempre isso é fácil.
Aliás, o Ensaio foi um embrião pra que eu aprofundasse essas questões no memoir/manifesto, a fim de aplacar um incômodo que me atravessava.
Foi a partir dessa pesquisa ampliada que pensei e fiz mudanças como essa na minha prosa e em minha prática astrológica – respeitando o modus operandi da astrologia, claro.
Uma das coisas que fiz foi adicionar a Terra à leitura do mapa, já que ela simboliza essa consciência de humanização nas relações, através do afeto, empatia e cuidado que ela representa. E no final das contas, é sobre isso, sabe?
Aprender a se tornar mais empático e humano nas nossas relações com TODOS os seres, os humanos e os não humanos também. E pra isso, penso eu aqui comigo, nosso maior desafio é aprender a ver o ser humano de uma outra forma no mundo. Tudo isso é que tem estimulado as mudanças que tenho adotado na minha prática astrológica.
Além de passar a usar o planeta Terra, também despi planetas e signos de gênero, de associações com masculino e feminino.
A noite, a escuridão, o yin e a Lua representam o inconsciente, o repouso, o vazio, o recolhimento, o mistério. Por sua vez, o yang, o dia , a luz e o Sol simbolizam a ação, o entendimento que nos faz agir. Sem qualquer associação com feminino ou masculino. Porque isso, entendo, é uma construção que há milênios perpetua valores bem patriarcais e nada alinhados com a nova cosmologia.
Também não quero mais falar em casamento sagrado, porque até isso reforça um conceito que supersustenta e alimenta a estrutura patriarcal da passividade e subalternidade da mulher e da autonomia do homem. Faz mais sentido, pra mim, pensar em eixos, em integração sagrada, em um TAO qualificado por essência e não mais por gênero.
Porque isso, associar a gênero, agora eu sei, é uma construção feita por homens que interpretaram e criaram uma imagem e narrativa para o sagrado e para a ciência como lhes convinha e era adequado, a fim de justificar uma hierarquia e dominação que lhes garantiu por séculos o poder baseado numa ideia fictícia de superioridade.
Aliás, essa treta toda aí me fez refletir também sobre o sagrado e sobre a intuição.
Como minha proposta é abandonar construções simbólicas que seguem a lógica patriarcal de divisão hieráquica por gênero no nosso imaginário, faz muito mais sentido, pra mim, falar da existência do sagrado, essa dimensão misteriosa da vida, sem divisão alguma por gênero.
Isso não significa, no entanto, abrir mão da presença das figuras das deusas e seus simbolismos potentes que dialogam com nossa alma e psique. Pelo contrário, venho buscando referências simbólicas femininas pra associar aos arquétipos astrológicos até então representados apenas a figuras de deuses masculinos na astrologia. Mas, para isso, novas histórias e construções/releituras de mitos são necessárias.
Por essa mesmíssima razão, também descartei a ideia de intuição feminina.
Gente, atribuir a intuição a algo inato às mulheres está muito à serviço do sistema patriarcal que divide pessoas e seres entre superiores e inferiores. A Lua nem sempre foi associada ao feminino. E ela só passa a ser relacionado ao útero no modelo de Cosmos de Aristóteles, que também a classifica como a segunda esfera celeste mais imperfeita nesse Cosmos ordenado – perdendo apenas para a Terra, claro.
Você tá ligada no que isso criou no nosso imaginário e justificou na nossa cultura?
Que num sistema hierárquico, toda violência cometida contra os inferiores pelos superiores é aceita em nome da proposta de civilizar, domesticar, de toara menos imperfeitos e bestial. O machismo, o racismo, o colonialismo, o imperialismo e muitos outros ismos são todos frutos dessa ideia que fundamenta a nossa sociedade.
Não sei você, mas isso faz minhas entranhas ferverem de nojo e indignação.
Mas, como sempre foram as elites masculinas que tiveram o privilégio de pensar o mundo, escrever sobre ele, ocupar espaços públicos, definir as regras e dizer ao povo como a banda toca no mundo, eis por que, como diz Ivone Gebara, foram “suas convicções, experiência de poder e a ideia de ordem que pretendiam impor ou propor à sociedade” que tenham se tornado a norma. E reinado sem contestação alguma até o momento em que a mulher finalmente passou a acessar e ocupar esses espaços e, ao estudar tais teorias, foi detectando falhas e furos nelas e começou a questioná-las e revisioná-las.
Exatamente como eu faço aqui, agora, e vejo tantas mulheres fazendo mundo afora. Uma delas que sou fã é a Yolanda Dominguez, que questiona muito as campanhas e imagens de subalternidade da mulher retratadas nas revistas e campanhas de marcas da moda.
Se tem algo que aprendi é que a gente só pode lidar com um problema, um sentimento ou até mesmo tratar corretamente uma doença, quando damos nome ao que nos incomoda, ataca ou ameaça.
Ter nomeado patriarcado esse sistema injusto e cruel que classificou os homens e seus atributos como superiores e as mulheres e tudo elas relacionado como inferiores, nos ajudou a identificar esse modo de pensar, de ver o mundo e de estruturar e fazer funcionar os estados, que fere e ameaça a existência de tantos seres e o dos nossos corpos, já que vem nos matando todos os dias.
Nomear esse sistema também nos permitiu reconhecer atrocidades que foram e vem sendo cometidas em nome desse entendimento de mundo que separa tudo e todos entre superiores/privilegiados detentores do poder e inferiores cujo propósito é servir aos superiores.
Depois que a gente entende isso, amiga, não dá mais pra compactuar com tanta violência, com tanto desrespeito, com tanta atrocidade e injustiça sem se sentir indignada, atacada, triste. A gente sente junto também e quer se mobilizar pra mudar!
Pra mim, esse livro que escrevi me permitiu ver todo esse processo de fora: reconhecer e dar nome ao incômodo, ao sentimento que me atravessava e adoecia. Encontrar tratamento para ele no feminismo, na nova cosmologia, no ecofeminismo e, principalmente, no encontro com outras mulheres. Foi junto a elas que fui ampliando, entendo, mudando, aplicando nas diferentes esferas da minha vida o que aprendi e começando a melhorar.
Eu espero, com todo coração, que possamos construir juntas e juntos essa nova forma de entender o ser humano, o nosso papel no universo e nos relacionarmos entre nós, com todos os demais seres e com a Terra, esse pequeno ponto azul no cosmos, um planeta raro, exuberante, cheio de cor que gerou vida por aqui e a nossa e tantas outras espécies.
Eu sonho que possamos juntas e juntos criar um mundo com mais afeto, justiça e dignidade para todos os seres que compartilham a vida e a Terra comigo, com você e com todas e todos nós aqui. Que possamos ter a consciência e valorizar o quão raro e rico é a vida no nosso planeta e nós, humanas, com a nossa capacidade de imaginar, sonhar, criar.
Novas histórias, no meu caso, pra começar.
