A resposta curta é: sim, devido ao patriarcado. Vamos à resposta longa, agora.
Em meados do século 17, ao provar que todos estávamos sujeitos às mesmas leis cósmicas, com a sua teoria da lei da gravidade, Isaac Newton mudou a percepção da realidade e a ideia de que o rei era um ser divino, escolhido por Deus. Essa ideia de autoridade divina começa a ser questionada, encorajando a democracia e trazendo consequências políticas enormes.
Essa transformação aliada à criação de um modelo científico e às ideias do Iluminismo passou a questionar a validade do estudo dos astros, devido a sua incapacidade de repetir resultados, algo atribuído à subjetividade das interpretações dos astrólogos.
A astrologia, até então um campo do saber utilizado por homens pra reforçar e legitimar o poder e a estrutura vigentes, perde seu status, é ejetada das universidades e classificada pelos pensadores como algo de segunda categoria. E, como tudo que é de segunda categoria, acabasse se tornado ‘coisa de mulher’. Assim, após um breve ocaso, volta não mais como assunto/disciplina séria (masculina, portanto), mas como bobagem de mulher e presente em revistas femininas e jornais a partir do século 20.
Isso, aliás, me lembra um causo ocorrido comigo no final do século passado: recém-formada, fui trabalhar num pequeno jornal semanal e uma das primeiras tarefas que recebi como novata inexperiente que era foi escrever o horóscopo. Pois é.
É assim que a astrologia volta ao mainstream no Ocidente, ganha popularidade e novas modalidades, como a psicológica e a arquetípica, que se unem às abordagens clássicas. Com isso, a astrologia se torna plural – hoje falamos em astrologias, assim mesmo, com S no final, já que são várias as formas de praticá-la. O que une todas elas é serem, sem exceção, resultado de uma acumulação de séculos de saber e prática que tem como base o pensamento de Aristóteles e a revisão feita por Claudio Ptolomeu nos primórdios da era cristã.
Todas, portanto, fundamentadas em sistemas pensados e sistematizados por homens com visão tingida por pressupostos, valores e conceitos bem patriarcais, que ajudaram a moldar o sistema socialmente hierárquico, injusto, extrativista, colonialista/imperialista, machista e violento sob o qual vivemos até hoje.
Há, ainda, outra teoria que trago aqui. Ela diz que a busca das mulheres por ferramentas de divinação, entre elas a astrologia, também está intimamente relacionada a uma outra consequência do patriarcado na vida de tantas mulheres: a absoluta falta de autonomia para agir. Quem diz isso é Kripa Krishnan no artigo Here’s Why More Women Follow Astrology, Psychologists Say It’s The Patriarchy (Veja por que mais mulheres seguem a astrologia, psicólogos dizem que é o patriarcado) publicado no site indiano IDIVA.
Segundo Kripa, essa busca por algum controle sobre seu futuro “é um efeito colateral de uma sociedade dominada por homens, que deixa as mulheres se sentindo impotentes”. Ainda que ela esteja falando sobre a sociedade indiana, sabemos que isso se reproduz em muitos outros lugares mundo afora.
“Na maioria das sociedades, os homens controlam mais dinheiro, riqueza e ativos do que as mulheres e tendem a ter mais poder econômico, político e social do que as mulheres. Como tal, as mulheres são mais facilmente excluídas, exploradas e discriminadas”, diz Kripa, citando o professor de sociologia Phil Zuckerman em artigo publicado no periódico Psychology Today.
Entendo o que Kripa diz. Talvez, muitas mulheres busquem não só alguma autonomia, mas também um sopro de esperança e força pra se manterem vivas. Mais ainda quando lidamos diariamente com o contra-ataque das forças do Império Patriarcal que não nos dá trégua e busca nos silenciar de várias e diferentes formas, muitas vezes nos tirando a voz pra decidir o que fazer com nossos próprios corpos, como no casos de gravidez indesejada, ou até mesmo com a morte. Está aí o número de mulheres vítimas de feminicídio e outros tipos de violência pra nos mostrar isso.
Isso me fez pensar nas estruturas que ainda nos prendem, legalmente e também simbolicamente, através das histórias e mitos que atacam a autonomia nossa e retratam a mulher como algo a ser dominado, subjugado, controlado. Exagero? Não, meu bem. Basta ler mitos como o de Tiamat, Pandora e Eva que isso transborda neles.
Pra mim, mais do que divinação, entendo que a astrologia é uma potente ferramenta de reforma pessoal e social, e que promove isso junto e ao mesmo tempo. Como sistema conceitual simbólico que é, ao despir os valores patriarcais e usar seu símbolos e arquétipos para criar novas narrativas pessoais e coletivas, a astrologia nos possibilita criar no imaginário outras formas de ser, de nos relacionar uns com os outros e de estar no mundo, de pisar na Terra. Com esse propósito, talvez as mulheres também busquem mais a astrologia.
Imagem: Hector Falcon/Unsplash
