Era junho de 2023. Para celebrar o dia mundia do Yoga, eu havia escrito um texto sobre meu encontro com essa prática, que acontecera em 2016, durante uma temporada que passei em Miami. Aterrissei por lá à época, com a intenção de seguir com o treinamento funcional. Porém, como só encontrei oferta de cross fit em meu entorno, acabei me tornando aluna de um estúdio de yoga próximo ao apartamento de meu irmão, onde eu estava.
E foi lá que me apaixonei pelo Yoga!
Conheci muitos tipos diferentes de prática e kirtans. Tive professoras incríveis, fiz amizades, aprendi coisas novas e comprei meu primeiro tapetinho roxo, que voltou comigo na mala.
Ao retornar a Porto Alegre, encontrei um prolongamento disso na Devi Yoga – Amor e Prática, em aulas e encontros que iam além de posturas e ásanas. Ali aprendi (e muito) sobre a filosofia do yoga e, também, sobre sororidade, apoio entre mulheres, criatividade, arte e conexão. Hoje compreendo que, nas aulas de Sabrina Pereira, Janaína de Paula Farias e Sonya Fhernandes, vivi minha primeira experiência com a potência que há nos encontros e trocas entre mulheres.
Com as profes e a mulherada incrível com quem eu praticava (e trocava muito) na turma do meio-dia, aprendi sobre diversos assuntos. Até mesmo sobre temas que sequer estavam no meu radar, tais como as questões que atravessam a maternidade e a gestação (falei sobre essa minha vivência nesse texto aqui).
Em 2019, precisei pausar as aulas de Yoga. E só voltei ao tapetinho três anos depois, mais uma vez sob a orientação de Sabrina, essa potência de mulher que, recentemente, atendendo ao chamado da alma, trocou o yoga pelo sacerdósio à deusa.
No tapetinho do Bhumi com Sa, vivenciei práticas que tinham uma conexão linda com as fases lunares e os ensinamentos da ayurveda. E aulas que iam muito além dos ásanas, mais uma vez. A propósito, foi no Bhumi que, junto a um grupo de mulheres, fiz um ritual de celebração à época do lançamento de Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia.
Outra mulher potência do universo do yoga que conheci, essa graças ao Clube de Teoria Feminista Ontem e Hoje, e com quem passei a trocar muito por essa mesma época foi Tatiana Soares. Professora de Yoga e carioca hoje radicada em Portugal, Tati vem propondo uma revolução na forma de nos relacionarmos não só com a prática, mas com a espiritualidade e a nossa percepção de mundo. Ela tem sido constante e incansável no trabalho de propor autonomia espiritual e mudança de paradigma. Diz ela:
“Eu não estou a serviço da experiência espiritual do outro. Cada um tem a sua. Acho que isso redimensiona demais a nossa relação com o sagrado”.
Foi Tati quem me alertou sobre o propósito por trás do dia internacional do yoga e me fez ciente como o 21 de junho tornou-se o dia mundial do Yoga, o que compartilho aqui.
Essa data foi criada pela ONU em 2014 após forte insistência (leia-se lobby) do primeiro-ministro da Índia Narendra Modi, líder da extrema-direita eleito com retórica nacionalista, embalada por forte discurso religioso, por ataques a opositores e por elogios ao passado. Ele é chamado de messias por seus seguidores, dissemina fake news, faz constantes ataques à imprensa e se beneficia da extrema polarização do eleitorado. Isso te lembra alguém? Pois então…
Modi é filiado ao Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização de extrema-direita que opera como um grupo paramilitar, composto majoritariamente por homens, que defende a perpetuação do sistema de castas e seus privilégios a poucos usando a religião – no caso o hinduísmo – para isso. Aliás, 21 de junho é aniversário de morte do primeiro Sarsanghchalak (líder supremo) do RSS, Keshav Hedgewar. Coincidência? Definitivamente, não.
Lendo e pesquisando à época, eu também soube que vários ocupantes de cargos no governo de Modi são filiados ao RSS. E que esse grupo paramilitar jamais concordou com a abolição do sistema de castas feita em 1950 e que questiona a própria liberdade de crenças na Índia.
Pausa para esclarecimento: o travessão no parágrafo acima foi escolha minha e não de uma IA. Muito antes dela despontar, eu já usava travessão e amo, amo, amo esse recurso. E, atualmente, odeio o fato de me policiar a ponto de evitar usá-lo em função da porcaria da IA. Então, fica aqui registrado que todo travessão é escolha pessoal minha e não de uma máquina e que minha escrita é todo o meu “conteúdo” é absolutamente IA free.
Posto isso, voltemos ao texto…
Gente, é incrível como mudam os atores e a religião, mas o modus operandi de usar religião para manter a sociedade privilegiando poucos em detrimento de muitos é sempre o mesmo, não é?
Com a eleição de Modi em 2014 e suas reeleições em 2019 e 2024, cresceram os ataques e a violência contra muçulmanos e também cristãos convertidos, pessoas que teriam se convertido justamente para libertar-se da lei das castas.
Enquanto literalmente incentiva ódio, violência, intolerância e perseguição religiosa no país que governa, Modi posa de pacificador mundial ao subir no tapetinho e defender o “Yoga como uma força transformadora que fortalece o sentimento de unidade e harmonia num mundo cada vez mais fragmentado e volátil. Cada vez que alguém desenrola um tapete para iniciar sua prática, está se conectando com a rica herança da Índia”, nas palavras da propaganda dele mundo afora.
Como compactuar com isso?
Como celebrar o Dia Internacional da Yoga no 21 de junho, sabendo que essa data é fruto de um projeto político que se fundamenta e dissemina ódio e intolerância? Justamente tudo que o Yoga não é ou cultiva?
Por que vou endosssar esse tirano, que usa a prática milenar do yoga como ferramenta de soft power, de convencimento, para influenciar a visão do ocidente sobre a Índia (e atrair investimentos que beneficiam justamente os mais ricos, a galera dele), enquanto vai perpetrando horrores por lá contra não-hindus e as castas mais baixas com sua política nacionalista de forte intolerância religiosa?
Impossível.
Simplesmente, não consigo.
É incongruente demais para mim.
Afinal, eu defendo uma outra maneira de viver e habitar a Terra, que parte de uma cosmopercepção essencialmente relacional (que a cosmologia e depois o feminismo me apresentaram). E que, por ser horizontal, interdependente, cooperativa, acaba com a ficção de que o homem está no topo da pirâmide de fauna e flora e derruba qualquer ideia, noção, tipo de hierarquia.
Eis, portanto, a razão pela qual risquei essa data do meu calendário pessoal.
E mais, ainda: formei o hábito de questionar e pesquisar a origem de qualquer dia celebrativo que aparece por aí, para compreender o que há por trás de tal escolha e não ser uma disseminadora desavisada de quem se vende como cordeiro aliado mas é um grande lobo.
Quando penso nisso tudo, agradeço a conversa e troca com Tati três anos atrás, que abriu meus olhos e tanto me ensinou. E volto a me fascinar, mais uma vez, como todo encontro realmente carrega o poder de nos transformar mais um pouco.
E por aí, já aconteceu algo similar? Você já viveu alguma situação assim?
Caso você queira ler na íntegra informações que usei como base para escrever esse texto, deixo alguns links abaixo:
https://www.yoga.pro.br/yoga-e-biopoder
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-59790169
https://www.biarosolinoyoga.com.br/post/porque-não-comemorar-o-dia-internacional-do-yoga
PS: esse post foi inspirado nos episódios do Prosa Astral com Carol Pogliessi e o com Lidy Araújo, onde conversamos bastante sobre como algumas ideias plantadas e enraizadas no nosso imaginário (tais como “não sou criativa”, “o corpo é uma máquina” ou “no pain, no gain”) e se tornam-se crenças justamente por serem fruto de narrativas culturais coletivas que tornam-se pessoais, o que a mulher planeta e deusa do céu Judi simboliza no mapa.
