Tem dias em que a realidade do mundo parece dar uma surra na minha capacidade de esperançar, de acreditar, de sonhar e de imaginar que ainda é possível construir alguma coisa diferente e melhor para o maior número de seres.
Quando isso acontece, sem demora recorro ao que sempre me cura nesses momentos: o apoio e afeto das amigas nas redes de mulheres, a arte, a música, livros e séries feel good, e tudo que ajude a nutrir o meu universo interior.
Se não faço isso, se não cuido desse mundo interno, sucumbo, como aconteceu há dois anos. À época, escrevi um miniconto no meu blog, narrando a história mais ou menos assim:
Meu sistema operacional começou a travar. A dar pane. Desde a atualização Realidade Nua e Crua 2021, nada mais funcionava como antes. Travou tudo. Bugou.
Talvez eu não estivesse habilitada para essa atualização, que me mostrou o tamanho da destruição, da injustiça, da desigualdade e da violência provocada pelo vírus da ganância, do lucro acima de tudo, da mentalidade higienista, abjeta e fascista adotada por tantas cabeças aqui e mundo afora que revelou a falta de empatia e de respeito com quem é diferente de um padrão estabelecido milhares de ano atrás, ultrapassado, que só vem causando destruição e morte e acabando com o bem viver (da maioria dos seres) na Terra.
[dois anos se passaram e isso segue tão igual, infelizmente]
Ao buscar suporte técnico para tratar a situação, fui informada de que o update havia danificado dois programas essenciais ao funcionamento do modelo Sapiens. Curiosa, perguntei que programas eram esses.
– Um deles é o Esperança, Lila. É ele que faz rodar aquele sentimento de é possível, sabe? De confiar na realização do que se almeja e em coisas boas. Ele aciona aquela força de vida inexplicável, que ajuda o Sapiens a transcender as dificuldades do momento.
– E o outro?
– O outro é o Fé. Não aquele programa pirata da crença cega, fanática, dogmática; mas, sim, o original, o que faz rodar a capacidade de acreditar na vida, confiar em você mesma, nos sonhos e naquilo que ainda não se vê na concretude material da realidade, sem desistir no caminho. E tem mais!
– Mais ainda? Me conta!
– Sem essa dupla, programas importantes como Imaginar, Sonhar, Acreditar, Visionar, Vislumbrar, Criar, Andar com Fé começam a falhar. E sem eles, Lila, não se dá conta da realidade, do absurdo, da crueldade, da tirania e a fiação física e psíquica do modelo Sapiens vai danificando, entrando em curto-circuito. Para resolver isso, estamos instalando a extensão Realidade Esperançosa a la Ariano Suassuna. Ela vai dar conta!
Quando escrevi essa história curta no meu blog em 2021, eu estava beijando os musgos no fundo do poço, nocauteada por uma falta de perspectiva, de possibilidades. A ansiedade me devorava e eu não conseguia vislumbrar alternativas, caminhos, futuro. Meu universo interior estava tão desnutrido que eu já não acreditava mais ser possível fazer qualquer coisa diferente na realidade.

NOSSA MAIOR ALIADA
A psicóloga junguiana Aline Facundes explica que a imaginação, a fantasia, é importantíssima. Que essa capacidade existe em nós porque a realidade em si não dá conta de nos responder o suficiente, para que possamos continuar. Para nos fazer avançar.
“A gente só cria o novo quando fantasia. A fantasia tem aspectos que são muito específicos, imaginativos, que são criadores de vida. Eles contêm aquilo que não haveria condição de se ter na realidade, por que na fantasia não existem determinadas regras, objeções ou critérios que na realidade a gente precisa”, explica Aline.
“Na realidade não há tantas aberturas para sentimentos e para sensações que a gente acaba tendo justamente quando permite que aconteça o diálogo da fantasia com a realidade. Se vivêssemos apenas na realidade como ela é, não conseguiríamos esperançar, criar, desejar, nos motivar para viver outro dia.”
É da capacidade de fantasiar, de imaginar, que surgem pensamentos, desejos, vontades, que vêm de diálogos internos muito profundos, pontua Aline, que nos fazem imaginar e desenhar possibilidades mais agradáveis, menos desconfortáveis, e nos dão o suporte diante dos dias mais duros.
Tudo isso nutre nosso mundo interior, subjetivo, e nos faz seguir persistindo, resistindo, sonhando e criando o novo. Para Aline, é na dança entre realidade e imaginação que a gente vai lidando com a realidade e, ao mesmo tempo, também criando o novo.
Novo esse que depende do imaginal, do desejo e da falta, como explica Aline. Sim, da falta, querida leitora! É a falta que nos faz imaginar, buscar arte e atividades e experiências que nos façam bem e criar o novo.
Mas se nos deixamos esmagar pela realidade, como aconteceu comigo, e perdemos a capacidade de imaginar e de nutrir nosso mundo interior, como a capacidade de criar e cocriar não ficará comprometida? Bloqueada? Como vamos seguir resistindo e criando o novo?
Se aprendi algo nessa vivência que contei é que, sem sonhar, a gente sucumbe. Vira zumbi, morto-vivo. Simplesmente sobrevive e não cria nada novo.
Talvez, seja essa a grande (e velada) disputa no mudo hoje: aniquilar a nossa capacidade de imaginar, tão potente e transgressora, que possibilita criar o novo, e fazer uma legião de Sapiens zumbis. Pensando nisso, não me causa surpresa que o oceano, os mares, símbolos da imaginação e seu universo riquíssimo de possibilidades, do novo, estejam poluídos e com sua vida comprometida.
Como despoluir nossos mares internos?
Pergunta complexa não tem resposta simples, nem solução mágica. não é? O caminho parece passar pela nossa capacidade de esperançar, de sonhar, de imaginar para criar o novo. E para isso, acredito ser fundamental aldear (como diz a amiga Nádia Lopes) em redes de apoio e afeto.

PS DA ALINE
Antes de encerrar a newsletter de hoje, deixo um alerta importante da psicóloga Aline Facundes: viver apenas na fantasia e se apegar muito a ela pode dar ruim. Diz ela:
“Não tem como tentar colocar a fantasia completamente na realidade. Isso é perigoso, porque não leva em consideração algumas necessidades e algumas limitações humanas. Então, quando as pessoas tentam fazer isso, acabam se colocando em posição de risco”.
Para Aline, se apegar à fantasia é abrir precedente para a frustração. Por isso, é importante estabelecer um diálogo entre a realidade e a fantasia.

PS DA LILA
Na astrologia, essa realidade material é simbolizada pelo planeta Saturno, Saty na astrologia mulheril. Não por acaso, ele é associado à força da gravidade (a de Newton), aquela que nos faz manter os pés bem aterrados, no chão.
Uma das mais importantes construções criativas que fiz nesse ano foi a Revolução Feminista no Céu, a história que teci em torno da astrologia como linguagem do universo e ferramenta de autopercepção, de autogestão e de ampliação de repertório.
Nessa mitologia, Venusa, a mulher ancestral que responde pelo arquétipo do planeta Vênus, simboliza o que nos sensibiliza, desperta paixão, afeto, amor e nos mobiliza porque tem significado e valor no nosso mundo interior.
Ela diz: siga o que lhe encanta, fascina e apaixona, o que faz bem aos olhos e ao coração. O que nutre sua alma, fortalece seu espírito e a sua potência criadora com significado tem valor para você. É a partir daí que você vai se mobilizar, sonhar, desenhar cenários e ir atrás.
