A Cloud é um lugar nos rincões do universo que opera como uma grande central de dados da Terra.
É lá que fica A Grande Memória da Terra e os Serviços de Inteligência que acumulam todo o conhecimento, saber e evolução das inteligências das espécies e seres que habitam o pequeno belo planeta azul da Via Láctea.
Cada Serviço tem uma linguagem e um método todo seu. E um gestor que se reporta diretamente à dupla Universo/Evolução, os responsáveis pela criação e expansão de tudo que existe e é.
Nossa história começa quando Dona Astrô, a icônica diretora do Serviço de Inteligência Astrológica, a SIA, se depara com um livro esquecido por seu assistente pessoal, um pinguim cósmico chamado Pen, sobre sua mesa.
O livro era de uma Sapiens chamada Ivone Gebara, que a namorada de Pen, uma gata bibliotecária do setor de Pensamento Ocidental da Cloud, havia esquecido com o namorado.
Intrigada com o curioso título, Teologia Feminista, Dona Astrô mergulhou na leitura dele. E a partir daí, não parou mais.
A cada dia, lá estava ela, com um livro novo em mãos, bebericando seu drink vino galáctico e devorando páginas e mais páginas de ideias e teorias criadas por Sapiens fêmeas na Terra, também conhecidas como mulheres.
Sentada sobre a mesa com as pernas cruzadas ou na sua poltrona cor de brilho de estrela, a cada rotação a Terra, ela lia uma Sapiens diferente… Rita, Simone, Silvia, Monique, Lélia, Carole, Audre, Débora, Vandana, bell, Françoise, Rebecca, Suzana, Marília… Foram muitas!
Assim se passaram várias rotações da Terra, até que, num retorno de Vênus, ao acabar mais um livro de uma Sapiens chamada Gerda Lerner, Dona Astrô saltou da cadeira e se pôs a caminhar agitada, de um lado para o outro, num vaivém frenético, que só fazia brilhar e agitar ainda mais as micro estrelas que desenham constelações nada estáticas sobre seu macacão escuro como o espaço.
– Não é possível isso, Pen – bradou diante do seu assistente pessoal, que já vinha testemunhando os bufos e a indignação crescente da chefa a cada nova leitura, assim como a mudança na cor das tatuagens em formato de raio que Dona Astrô traz em ambos os pulsos.
Reza a lenda que as cores dessas tatuagens indicam não só o humor da diretora da SIA, mas também o espírito do mundo na Terra.
Amarelo sinaliza tempos de percepção, criação e imaginação. Vermelho, por sua vez, é rEvolução. Disrupção. Transformação intensa e profunda. Já laranja, indica que vem mudança aí!
Não foi surpresa alguma para Pen ver que tais raios brilhavam num tom carmim a la Ziggy Stardust de David Bowie, o músico Sapiens por quem Dona Astrô tem um crush.
– Olha só o absurdo que fizeram com o saber astrológico na Terra! – bradou ela – E não só com ele, pelo que constatei nessas obras. Isso não pode ficar assim!
Foi nesse dia que Dona Astrô iniciou um movimento inédito no Cosmos e na Cloud: começou a fazer encontros pós expediente num pub galáctico com diretoras de outros serviços de inteligência, como o das Tradições Orais, o das Lendas e o da História das Mulheres, que fora criado não fazia muito tempo.
Tornou-se corriqueiro encontrá-las em conversas animadas por lá.
Logo, o grupo foi crescendo e, sem demora, estavam participando integrantes de outros setores de conhecimento, como do Saber Simbólico e Mitológico, dos Saberes Originários, da Inteligência Cosmológico, do Pensamento Ocidental, dos Dogmas e Religiões, das Leis, da Educação e até uma subversiva da Ciência, que ia disfarçada para evitar represálias dos colegas.
Assim, nascia uma troca de informações entre saberes e inteligências que atualizava a todas sobre os últimos avanços dos Sapiens na Terra. Sempre regado com muita alegria, risada, indignação, generosidade, vino e cevada galácticas. Todos na Cloud sentiam e sabiam que algo novo nascia ali…
Foi após mais um desses encontros que Dona Astrô surpreendeu Pen. Ao chegar na SIA, seu assistente pessoal encontrou a chefa debruçada sobre seu CosmicPad, digitando furiosamente nos teclados.
– Escrever é subversivo. É transformador, Pen – disse ela, sem sequer erguer a cabeça, antes de voltar a mergulhar na escrita, mais uma vez.
Assim foi sua rotina durante várias rotações da Terra. Dali, ela saia apenas para conversar encontrar as amigas e colegas no pub cósmico.
Numa tarde de conjunção de Urano e Plutão, Dona Astrô finalizou e achou que era hora de levar as ideias revolucionárias do grupo, sobre as quais vinha escrevendo, ao coração do Universo. Levantou-se e foi conversar com a Evolução.
Não muito tempo depois disso, as mudanças começaram a acontecer, no discurso e na prática de muitos setores. Mulheres começaram a ser nomeadas diretoras dos Serviços de Inteligência e dos Saberes. A integrante do setor de Ciência que ia escondida aos encontros não só foi promovida, mas também não precisou mais se camuflar para participar dos encontros.
No serviço sob seu comando, a partir dessa nova percepção de mundo que encontrara nas leituras de pensadoras, teóricas e escritoras Sapiens feministas, Dona Astrô começou a implementar mudanças.
Trabalhando em uma parceria com colegas do Serviço de Simbologia e Mitologia, as deusas de diversos reinos da Terra foram convocadas, a fim de criar uma nova narrativa para a astrologia. Uma que fosse nada hierárquica, violenta, misógina, tóxica, opressora e colonialista. Uma que tivesse como paradigma valores como cuidado, reciprocidade, parceria, cooperação, generosidade. A integração no lugar da separação. A participação ao invés da exploração. A colaboração no lugar da dominação. A crença na abundância e não mais na escassez. E que contemplasse relações mais éticas, empáticas, gentis, afetivas e plurais.
Assim, nascia a Revolução Feminista no Céu, como Dona Astrô chamou a grande mudança que implementou na astrologia da SIA, ao destituir os deuses masculinos do cargo de representantes dos planetas astrológicos e colocar mulheres ancestrais em seus lugares.
Com elas, Dona Astrô passou a tecer novas histórias, utilizando a linguagem que o universo dialoga com as Sapiens na Terra. Suas narrativas logo se espalharam na Cloud, no Cosmos e nas consciências e corações de Sapiens antenadas com o espírito do mundo na Terra. E a revolução começou a acontecer também no pequeno e belo planeta azul da Via Láctea.
Dona Astrô Feminista e sua revolução no céu simbolizam a astrologia que venho formatando nos dois últimos anos como ferramenta e linguagem para dialogar com o universo e com a vida.
A história de Dona Astrô e sua Revolução Feminista no Céu é a mitologia que fundamenta a astrologia mulheril, como nomeei minha prática astrológica, que é guiada por esse novo paradigma, essa nova compreensão de mundo.
Já contei em posts anteriores como vem acontecendo essa construção. Você pode conferir aqui.
