Sabe aquele filminho bobo, desses que a gente escolhe quando quer desopilar, relaxar, não pensar muito?
Então, escolhi um assim pra assistir ontem.
Mas o efeito acabou sendo exatamente o contrário!
Pensei (e me indignei) muito, vendo a patética representação, em várias cenas, de quatro mulheres falando alto, juntas e ao mesmo tempo, e criando confusão, sendo retratadas como histéricas. E dando a entender que mulheres juntas só criam histeria e confusão.
Pensei e muito, ao ver muito ao ver uma mãe com três crianças pequenas e um marido que só viaja, pouco presente, ser retratada como uma mulher descontrolada, que só pensa no pior, e com TOC.
Como uma mãe histérica e exausta por culpa dela mesma.
O problema é ela, e não a estrutura que a faz ficar sobrecarregada.
Numa cena, essa mulher diz ao marido que, quando criança, seu sonho era ser mãe, ter uma casa e um marido. E que agora que tem tudo, não está feliz. E que o problema é ela.
O filme mostra que o motivo pelo qual essa mulher sorri pouco e age sempre de forma histérica não é a rotina insanamente intensa ou a ausência de rede de apoio, mas porque ela é histérica (excessivamente preocupada) em ser boa mãe, conforme um padrão imposto.
E ainda tem o segredo da mãe perfeita, recatada e esposa do pastor: ela fora rebelde na adolescência e tinha uma tatuagem nas costas. Gente, o filme é de 2014!
Fiquei tão impressionada com o poder de convencimento (o soft power, como chamam) usado para influenciar indiretamente comportamentos, que, conversando hoje com amigas, fui pesquisar os produtores do filme. E não deu outra!
O filme foi escrito e produzido por empresas de audiovisual ligadas à igrejas bem conservadoras. Ou seja, de bobinho o filme só tinha o enredo. De resto, era propagada pura. Por isso a mensagem conservadora e bem patriarcal do filme me incomodou tanto.
Depois de ter consciência de alguma coisa, a gente é transformada e não consegue mais olhar para situações sem o olhar crítico.
Depois que a gente vê, não dá pra desver. Não é?
