Eu não sei você, mas o estado do mundo tem me entristecido profundamente nas últimas semanas. Genocídios, guerras, mais e mais mulheres e crianças assassinadas e abusadas, imigrantes afogados, queimadas em florestas, árvores derrubadas a rodo, violência que escala em tantas formas… Caramba, como dar conta disso?
Dialogando com minha querida amiga e professora Suzana Veiga, falamos sobre a importância de cultivar sonhos e o nosso mundo interior em meio ao horror que nos rodeia, como forma de resistir e não sucumbir, de evitar que nos tornemos zumbis perante a vida. É isso que eu tenho buscado oferecer a mim mesma e a quem está próximo nesse momento: alargar esperança e horizontes.
E é com essa intenção que escrevo a newsletter hoje.
Em Jung: A Feminist Revision (Jung: uma revisão feminista, em tradução livre), publicado em 2002, Susan Rowland, que é pesquisadora de psicologia profunda, feminismo, literatura e criatividade, e professora no Pacifica Graduate Institute, na California, conta que uma troca nas narrativas que sustentam nosso entendimento de mundo vem acontecendo nas profundezas do inconsciente.
É lá que vem ressurgindo e ganhando espaço o mito da deusa e, com ele, uma mudança na nossa forma de perceber o mundo, a experiência da vida e as relações entre nós, os demais os seres e a própria Terra. Com o mito da deusa, diz Susan, a humanidade redescobre a natureza como sagrada e
“a cultura ocidental abandona modelos de consciência que dependem da repressão do outro, do qual a supressão do feminino pelo patriarcado é apenas um exemplo óbvio”.
Acho sempre fascinante observar como a nossa fiação interna vai mudando e, com ela, o nosso comportamento aqui fora.
Os mitos patriarcais, com seus deuses masculinos e seu deus monoteísta, criaram no nosso imaginário uma visão de existência absolutamente separada da natureza, que perdeu seu status de sagrada para algo externo à Terra. E foram lapidando na nossa consciência a normalização de um sistema social pautado na hierarquização, na competição, na dominação, na opressão e na exploração do outro.
Essa forma de pensar e entender o mundo deu origem, justificou e perpetua até hoje a degradação do planeta, atrocidades como a escravidão, as guerras, o genocídio de populações inteiras e a violência contra a mulher, crianças e todos os seres considerados inferiores ao olhar do dominador. Além disso, diz Susan, esse paradigma também originou as polaridades binárias de gênero e a supressão do feminino.
O que me ajudou a entender como isso tudo foi acontecendo e se estruturando, chegando ao que estamos vivendo hoje, foi a leitura do livro A Criação do Patriarcado. Nele, a historiadora Gerda Lerner explica magistralmente, com um trabalho riquíssimo de pesquisa, como esse paradigma foi se concretizando na realidade da vida e no nosso mundo subjetivo. Recomendo muito.
UMA FENDA
Em sua clássica canção Anthem, Leonardo Cohen nos diz que há uma rachadura em tudo e é por ela que a luz entra. O mito da deusa parece ser essa fenda no patriarcado, trazendo à consciência uma outra forma possível de existir e de viver as relações entre nós e os demais seres. Uma mudança e tanto de paradigma, na qual a vida se sustenta num emaranhado de vínculos de reciprocidade, parceria e cooperação.

Essa outra possibilidade de mundo que o mito da deusa representa parece estar por trás do que vem nos inquietando e incitando imaginar novas formas de existir em sociedade, de nos relacionarmos uns com os outros, com o trabalho, com a natureza, com a Terra, com o viver. Formas, essas, mais cooperativas, que enaltecem a parceria e não a dominação e a violência.
Acredito que essa rachadura nos fez buscar maior conexão e aproximação com a natureza, com as sabedorias ancestrais, com as culturas originárias. Que ela nos instigou ressignificar o sagrado, o papel das mulheres, o da intuição e de tudo que foi taxado inferior por ser “coisa de mulher”.
Acredito, ainda, que essa fenda tenha nos incitado a criar movimentos como o feminista, o ambiental e tantos outros que buscam derrubar falsas hierarquias e ideias, como a da inferioridade de alguns seres sobre os outros, que tantas guerras e genocídios já promoveram no mundo.
Essa mudança que está se desdobrando nas nossas profundezas parece também ter nos impelido desbravar o universo misterioso, sutil e desconhecido que existe por trás dos nossos olhos, esse que é o da alma. E nos fez ansiar pelo que traz sentido e alegria para a nossa existência aqui, pelo que nutre e alimenta a nossa potência criativa e criadora. Para que possamos resistir e existir. Sonhar e esperançar. Viver e florescer.
Com tudo isso causando fricção nas minhas ideias, comecei a reler O Cálice e a Espada, publicado em 1987.
Nele, a autora Riane Eisler propõe uma mudança de paradigma na estrutura que tece a nossa sociedade. Em suas páginas, ela vai mostrando como é possível e nada utópico realizar essa transformação, migrando do paradigma patriarcal da espada, esse da dominação, para o do cálice, o da deusa, que é baseado na cooperação, na parceria, no cuidado e nutrição da vida.
Riane mostra como esse sistema já existiu no passado, num tempo em que a deusa era cultuada em diversas culturas. Ao que tudo indica, nessa época, a relação com o sagrado era muito mais uma celebração de amor pela vida do que temor à morte. E as relações de poder por aqui eram de cooperação, assim como a parceria entre homens e mulheres era igualitária.
“Muitas imagens da deusa em seu aspecto dual de vida e morte parecem expressar uma visão de mundo na qual o propósito fundamental da arte e da vida era não conquistar, pilhar e roubar, mas sim cultivar a Terra e prover tudo quanto fose necessário, material espiritualmente, para uma vida satisfatória. Vista como um todo, a arte do neolítico, e mais ainda, a avançada arte minoica, parece expressar uma visão na qual a função primária dos poderes misteriosos que regem o universo não é de exigir obediência, punir e destruir, mas sim de dar.”
Para a historiadora Palmira Margarida, que fez uma resenha interessantíssima desse livro em seu canal no YouTube, o paradigma do mito da deusa enaltece a abundância da natureza que alimenta a generosidade. O dos deuses masculinos patriarcais, por sua vez, exalta a escassez, o que acaba promovendo ganância e violências.
Acompanhando as muitas crises que vem acontecendo mundo afora isso faz todo sentido pra mim. Parece que é exatamente esse paradigma aí que vem fazendo escalar a violência de uma forma tão inimaginável e cada vez mais insustentável, que ameaça a perpetuação da nossa própria existência aqui.
Por isso tudo, entendo a figura da deusa como um sopro de esperança. E seu mito, como uma possibilidade, uma visão de que é possível um outro mundo, uma outra forma de existirmos e de nos relacionarmos com a vida e entre nós aqui, sim.
