Um dos tropos mais utilizados em filmes de Hollywood é o da damsel in distress, o da donzela em perigo. Aquele da jovem, bela e indefesa mulher que está em apuros e aguarda ser resgatada por um príncipe ou um cavaleiro em sua armadura brilhante.
Ver uma subversão desse tropo (e desse arquétipo) sendo feita numa produção exibida no circuito dominante da cultura pop foi uma alegria para mim essa semana, ao assistir o filme Damsel (Donzela, em português).
Apesar de todos os clichês e falhas no enredo, de ser raso e fraquinho, e da protagonista ser a personificação da salvadora branca, eu gostei dele justamente devido à subversão do arquétipo da donzela em perigo.
(Se você pretende conferir o filme e não quer spoiler, pule os próximos 6 parágrafos, por favor.)

Uma das primeiras lições que tive sobre a Histórias das Mulheres com a professora Suzana Veiga é que, apesar de silenciadas, as mulheres nunca foram silenciosas. E adorei que o filme mostra isso também.
Algumas das donzelas que vieram antes da nossa protagonista, e que também não ficaram paradas à espera do príncipe para salvá-las (até porque foi ele próprio que as jogou no fundo do poço), deixam mensagens, com muita engenhosidade e astúcia, para ajudar as que vêm depois.
Vejam você, como a rede de mulheres sempre fez e faz a diferença e pode mudar os rumos de uma história.
Além disso, a protagonista (interpretada por Millie Bobby Brown) não só resgata a si mesma, mas também impede que outras donzelas fiquem em apuros, subvertendo completamente a narrativa da donzela em perigo.
Por fim, gostei do desfecho no embate entre a donzela e a besta (como o rei que abre o filme nomeia a pobre dragoa) e, também, na relação que se estabelece entre as duas vítimas da violência de homens poderosos daquele reino.
Achei um exemplo de empatia e sororidade e me lembrou a animação A Fera do Mar, que eu adoro! Nele, a carismática Meisie, uma pequena órfã fã de aventuras, acaba fazendo uma amizade improvável com uma monstra do mar e muda para sempre a ideia que todos em seu reino têm sobre essas figuras assustadoras. E ela ainda revela uma treta da realeza, uma mentira, que muda a história da população e do reino. Tal qual acontece em Donzela.

Voltando a ele, o filme me fez pensar no livro A heroína de 1001 faces, da professora e folclorista Maria Tatar, que estou lendo neste momento. Uma das coisas que Maria fala em sua obra é como muitas das histórias da carochinha e contos de fadas retratavam os horrores e as violências às quais as mulheres eram submetidas dentro de casa, na vida familiar, no casamento.
Ao criar histórias de terror, com personagens sobrenaturais e assustadores, para narrar essas situações, as mulheres não só alertavam umas às outras quanto aos perigos no ambiente doméstico e na vida familiar, como apontavam possíveis caminhos, soluções ou consequências.
Donzela me lembrou essas antigas histórias, nas quais a engenhosidade e a astúcia das mulheres é o que realmente lhes salva, e não um príncipe ou cavaleiro numa armadura brilhante. Exatamente como Maria Tatar fala no livro.
Diz Maria que essas histórias e contos, passados de geração em geração de forma oral, via contação de histórias, era o instrumento que as mulheres de tempos passados tinham para desafiar o status quo, a narrativa oficial e propor mudança possíveis e transmitir mensagens umas às outras.
“Contar histórias é um modo de criar um discurso alternativo, que pode se desviar e contestar o que se ouve no discurso político e público”, diz Maria no livro. “Essas histórias inventadas podem não relatar fatos reais, mas podem captar verdades astuciosas que pertencem à sabedoria dos tempos.”
Mas como é que isso tudo mudou tanto?
A partir do momento em que essas histórias e contos passam a ser coletadas por homens à serviço dos poderes estabelecidos, e reescritas por eles e por outros que vieram depois, elas começam a sofrer um processo de transformação, tendo as violências nelas suavizadas e até alteradas, conforme o autor.
“Os editores das famosas coleções que continuamos a publicar hoje … eram, na sua maioria, homens, figuras literárias proeminentes e atores políticos que não tinham reservas quanto a assumir o controle e redirecionar aquelas vozes incômodas que haviam transmitido contos de uma geração para outra.
Todos eles e os que vieram depois, conta Maria, “iniciaram o lento e constante processo de eviscerar o arquivo de contos, removendo o conteúdo mais sombrio, expurgando cenas alusivas à agressão sexual, violência doméstica, incesto. … Contos sobre pais abusivos e irmãos assediadores desapareceram do cânone dos contos de fadas.”

Assim, de reescrita em reescrita ao longo dos séculos, essas histórias chegaram ao modelo Disney que conhecemos e consumimos hoje.
Eis por que uma história como a do filme Donzela causa muita estranheza e seja até mesmo taxada de “conto de fadas às avessas”, quando, na verdade, ela é um belo exemplo de retorno ao propósito e formato originais dos contos de fadas e das histórias da carochinha.
Eu fiquei fascinada com isso e, com meus óculos de lentes simbólicas, me pus a refletir sobre o quanto essa transformação das narrativas está pulsando no inconsciente coletivo, na dimensão das ideias e da imaginação, fazendo com que esse tipo de história desponte cada vez mais entre os criadores de narrativas.
