Em dos muitos prédios do bairro mora um pássaro de tamanho médio, cuja gaiola fica exposta para a rua. Até aí, nenhuma novidade. O que chama minha atenção é o que acontece tão logo a persiana e o vidro se abrem a cada manhã: o pássaro recebe dezenas de amigos que, como em uma romaria, um a um vão pousando no beiral da janela para contar as novidades.
Os passarinhos que o visitam, creio eu, habitam os jacarandás e as muitas outras árvores das ruas próximas. Pelo que percebo, nunca se demoram – talvez com medo de serem aprisionados. Vejo que gorjeiam as novidades e vão embora.
Sempre que presencio tal cena, fico pensando no tipo de conversa que se estabelece entre eles. Imagino as aves livres contando façanhas deliciosas feitas ao embalo de ventos mornos, aquecido pelo sol em dia de céu claro. Ou viagens feitas em correntes de ar. Pondero sobre a forma com que anunciam, entusiasmados, a visita a novos lugares, árvores, bairros e até mesmo cidades – coisas que só a liberdade de ir e vir permite.
Nesses momentos, como em um bom desenho animado, consigo até mesmo ver o engaiolado sonhando em viver muitas aventuras. Porém, logo imagino que ele se defenda de tudo isso com o desdém de quem não precisa de aventura e que prefere o certo ao incerto. Ou seja, para ele, viver em cativeiro tem lá as suas vantagens. Ele não se estressa com as intempéries do tempo e nem com a busca por comida, por exemplo. Gatos e ratos? Não há porque temê-los. Afinal, está protegido contra tudo e todos não apenas pelas grades, mas também pelo amo e dono. É nesse ponto que eu em pergunto: será mesmo?
Lendo esse texto que escrevi em 2007, achei pertinente trazê-lo aqui e compartilhar com você.
Na época, refletindo sobre a cena, pensei no quanto criamos gaiolas dentro de nós mesmas e colocamos pesadas grades em nossos sonhos e anseios.
Também refleti sobre o quanto limitamos nosso desejo de voar e deixamos de abrir as asas e nos lançar no azul infinito do céu por medo do desconhecido, daquilo que os budistas chamam de vazio. Como se essa renúncia pudesse impedir que a mudança bata à nossa porta.
Que ilusão! Afinal, a vida é uma dança com a impermanência.
Hoje, relendo o texto, fico pensando no quanto muitas dessas grades, dessas prisões internas, são construídas em nossas mentes e corações pela visão de mundo patriarcal. Essa que nos ensina que a natureza (seja a nossa interior ou a aqui de fora) é um lugar hostil, perigoso, selvagem, que nos ameaça e, por isso, deve ser dominada, domesticada e tutelada antes que nos faça mal.
Sim, essa cultura nos ensina a temer a vida desde a mais tenra idade e só as pessoas de espírito livre, como se diz por aí, é que subvertem essa ordem.

Se fôssemos ensinadas desde cedo de que a natureza é um lugar de celebração e de nutrição da vida, de abundância ao invés de escassez, será que haveria tanto temor em abrir as asas e se lançar no vazio do desconhecido?
Será que os homens sentiriam essa necessidade doentia de dominar e oprimir o outro?
Temeríamos o diferente como sociedade?
Construríamos gaiolas e prisões para apriosionar os outros ou a nós mesmas?
Muitas perguntas, poucas respostas.
Dizem que o segredo para criar o novo, para inovar, para fazer diferente, está nas perguntas que (nos) fazemos. Espero que questionamentos como esses que faço a mim mesma ajudem a imaginar novas realidades e outras formas de nos relacionarmos. Com nós mesmas e umas com as outras.
