Quando morei em Gramado, trabalhei na assessoria de comunicação de um evento lindo e lúdico, colorido e alegre, chamado Chocofest. Tendo como produto e carro chefe o chocolate, esse festival era alegre, colorido, lúdico, uma verdadeira festa para a garotada. E, também, uma celebração da renovação da vida que a Páscoa representa com seus coelhos e ovos coloridos.
Num determinado ano, a organização do evento teve um problema com o padre local, que criou um movimento contra o Chocofest, alegando que a festa do chocolate na Páscoa desrespeitava a dor e o sofrimento da data da morte de Cristo.
Lembrei desse fato enquanto relia O Cálice e a Espada. Se eu contasse esse causo pra Riane Eisler, a autora do livro, provavelmente ela me diria que, num mundo onde as relações de poder se baseiam na dominação e no medo da morte e da escassez, fazer uma festa tão cheia de alegria e celebrando a abundância da vida e da natureza, é uma disruptura do padrão.
Ela talvez dissesse que ter uma festa que ganha as ruas de uma cidade inteira celebrando uma idea com raízes no mito da deusa, como é essa dos ovos e coelhos da Páscoa, é uma ameaça para o status quo. É uma fenda que se abre na muralha erguida pelo patriarcado na nossa consciência (falei sobre isso na minha newsletter. Se você ainda não leu a newsletter, tem link aqui).
E se eu acrescentasse, ainda, que essa festa foi idealizada e organizada por duas mulheres, e construída pelas mãos de muitas outras, que trabalhavam junto com homens, ela entenderia porque essa festa incomodou tanto o padre e alguns poderosos da cidade.
De volta ao causo, após os protestos do padre e seus fiéis, houve um acordo. Na sexta-feira Santa, nada de alegria, música e celebração da vida nas ruas ou em qualquer lugar. Tempos depois, foi criada e integrada ao evento de Páscoa na cidade a Procissão dos Passos, espetáculo que relembra a tortura e morte de Jesus na cruz.
Por aqui, fico pensando que, quanto mais leio, estudo e pesquiso, mais compreendo que nada é por acaso, mesmo. Tudo é construção! E hoje tem mais uma aula com Suzana Veiga sobre a misoginia por trás da Caça às Bruxas e da Inquisição.
Seguimos.
Imagem: Actionvance/Unsplash
