No livro Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia, apresentei algumas das grandes reviravoltas no céu e na Terra que atingiram nossa consciência feito tsunami e nos impactaram profundamente no último século.
Falei de algumas delas aqui também (como o despontar do mito da grande deusa no inconsciente), e como acredito que elas estejam nos levando a construir um novo entendimento e percepção de mundo, que reintegra a dimensão simbólica à nossa consciência.
Entre essas mudanças, destaco as seguintes:
- Somos feitos da mesma matéria do universo, como mostrou pesquisa publicada em 1957, liderada pela astrofísica Margaret Burbidge. Mais do que poeira de estrelas, somos as estrelas em forma humana. Somos o universo inteiro se manifestando ou vestido/expresso na forma humana. Saber isso muda muito a perspectiva de alteridade, de ser ver distinto, diferente, do que está ‘lá em cima’!
- Todo encontro transforma, por mais singelo que seja. É através dos encontros que a evolução acontece no universo, na Terra e em nós. (Brian Swimme)
- A força propulsora de toda evolução é a possibilidade de desdobramento, aquilo que pode vir a ser/se tornar ou não. E isso ocorre não porque há algo no passado que vai gerar o resultado atual, no induzir a ele. Nananinanão! Mas sim, porque há algo nos fascinando, seduzindo, na direção de uma entre várias possibilidades. (Sarbmeet Kanwal)
- Sabemos que o universo é finito e que tem um modus operandi, um padrão de funcionamento ordenado. Mas o que ele vai criar/gerar com isso, nunca pode ser dado como certo.
- Não devemos pensar as coisas como são e, sim, como interagem. (Carlo Rovelli)
- Por fim, que a ciência é uma das narrativas construídas para dar sentido à realidade e amplificar nossa visão dela. Mas não é a única, não! Ela é mais uma maneira de “nos envolvermos com o mistério de quem somos. É um dos caminhos para o conhecimento do mistério humano”. (Marcelo Gleiser)

Essas reviravoltas (e algumas outras tantas) me fizeram acreditar que há uma inteligência essencialmente criativa no universo, que busca dialogar conosco.
Um dos intelectuais que vem falando sobre isso, sobre essa grande mudança de paradigma, é o historiador cultural, psicólogo e também astrólogo Richard Tarnas, autor de Cosmos and Psyche – livro que instigou a criação da cosmologia arquetípica e, mais recentemente, do documentário Changing of the Gods.
Nessa obra, Tarnas apresenta uma pesquisa fascinante de três décadas de estudo de correlação de significados entre interações dos planetas astrológicos, a dimensão arquetípica do inconsciente, e acontecimentos no mundo e na vida nossa de cada dia.
Para Tarnas, após séculos de desconexão, estamos voltando a nos relacionar com essa dimensão simbólica, que ele chama de Alma Mundi, em busca de integridade psicológica e desenvolvimento espiritual.
Uma das formas de acessar e dialogar com essa dimensão do cosmos, com o universo, segundo Tarnas, é a sincronicidade – a correlação simbólica de significados entre eventos internos e externos, presente na astrologia arquetípica e na psicologia profunda. Nos últimos anos, estudando tudo isso, fui me aproximando mais e mais dessa linguagem simbólica.
Hoje, compreendo que ela é uma forma muito linda (e fascinante) de dialogar com a dimensão criativa do universo e de se relacionar com a vida.
Tem sido muito lindo entender essa linguagem, observar esses processos se desdobrando e com eles interagir. Não com o objetivo de manipular ou controlar desfechos, mas de se engajar e participar da vida.
Isso me inspirou criar Dona Astrô Feminista e a Revolução Feminista no Céu, uma história, uma mitologia que fundamenta a astrologia que formatei nos dois últimos anos como ferramenta e linguagem para dialogar com o universo e com a vida. Para falar essa linguagem da alma.
Com esse mesmo propósito, preparo a volta do Clube de Astrologia para Mulheres e o curso Mundo Adentro, Céu Afora. Unindo os pontinhos entre arquétipos, planetas astrológicos, mitos, feminismo e a nova cosmologia, nesse curso, apresento os planetas como mulheres ancestrais e mostro como elas nos ajudam a nos conectarmos com essa linguagem e a conversar com o universo e com a vida.

UM BOM MOMENTO
Acredito que o momento oferece potência e possibilidade para esse tipo de construção que nos ajude a criar novos paradigmas – tendência essa que os encontros de alguns planetas mostram.
Não me surpreendeu, portanto, ver que minha querida amiga e professora Suzana Veiga, mulher genial, intelectual afiadíssima, pesquisadora da História das Mulheres, doutora em História e uma das estrelas que brilha no lilaverso, está fazendo movimento nesse sentido.
Esse ano, absolutamente no espírito desse céu, seu Clube Teoria Feminista Ontem e Hoje terá como tema Mulheres imaginando e criando novos mundos. E as leituras começam jsutamente tendo linguagem e comunicação mulheril como temática.
(A propósito, fica a dica para quem quer um grupo incrível para conversar sobre livros e entender melhor questões sobre o feminismo e as amarras patriarcais estruturais).
Com esses movimentos, buscamos, ambas, viabilizar mudança. Diz Suzana em sua newsletter do mês de julho do ano passado:
“Esperança é a virtude fundamental do ser subalternizado, que sonha e busca promover transformação através da ação prática. Espero, com esperança, que consigamos agir em direção a mudança ao menos uma vez ao dia”.
Eu também espero, Suzana.
Uma pequena ação por dia.
Uma newsletter por semana.
Um encontro no Clube a cada mês.
Um coletivo de ações no ano.
Acredito demais nessa proposta.
Tenho muita fé no poder transformador dos encontros de mulheres, tocadas pela visão de outras maneiras possíveis de viver o mundo, orientadas pela parceira, pela amizade, pela ética do cuidado, pelo respeito e pela cooperação.
Eu acredito na mudança e tenho muita fé nas mulheres.
PS DALILA
Deixo aqui essa coluna do físico Marcelo Gleiser, na qual fala sobre a consciência que temos da relação entre micro e macro, que se deu através do encontro da Cosmologia com a Física das Partículas Elementares, a partir da confirmação da Teoria do Big Bang. O texto é inspirador!
Nesse outro link, você pode ler a mitologia que criei para Dona Astrô Feminista, a fim de fundamentar a proposta da astrologia como ferramenta e linguagem e o meu astrologar.
Por fim, também deixo o link de um texto onde conto um pouco como se deu a tessitura criativa que me fez chegar às mulheres ancestrais.
