Na primeira newsletter, contei que uma troca nas narrativas que sustentam nosso entendimento de mundo vem acontecendo nas profundezas do inconsciente. O mito da deusa e uma visão de ancestralidade passaram a crescer nas nossas consciências e entre nós, e a humanidade redescobriu a natureza e sua sabedoria como sagradas, outra vez.
“Quando nós falamos de ancestralidade, nós consideramos olhar para ancestralidade não só na dimensão genealógica, mas na nossa dimensão de alma, das energias que nos animam, que estão na natureza, para que haja então um encadeamento e um reconhecimento de que existe um fio a qual nós somos um elo importante. E que existe uma teia a qual nós também somos integrantes que é necessário reconhecer. Quando nós reconhecemos essa teia, do ponto de vista da existência, nós reconhecemos também o nosso lugar no fluxo da vida. E quando nós reconhecemos o nosso lugar no fluxo da vida, o nosso dom, o nosso potencial, as nossas potências, aquilo que nos cabe como ser humano, são canalizados de um modo mais equânime, vamos dizer assim, de um modo mais saudável”, explica Cacá Werá no curso A vida, tempo, morte, um pensamento indígena da Casa do Saber.
No meu propósito de contar novas histórias, a partir desse outro paradigma e visão de mundo, a figura de mulheres com essa sabedoria, com consciência dessa ancestralidade que Cacá Werá fala, se faz presente sempre.
Uma delas é Vó Domi, a personagem do conto Young Adult que escrevi esse ano, chamado Amor de verão não desce serra.
Da mesma forma, para conversar sobre os arquétipos dos planetas astrológicos, criei figuras de mulheres ancestrais. E para falar de astrologia, a partir da tessitura de saberes que fiz, surgiu Dona Astrô Feminista. Com isso, me uno a quem vem propondo uma outra percepção e entendimento de mundo para orientar as relações entre nós.
Em O Cálice e a Espada, Riane Eisler nos mostra como é possível e nada utópico realizar essa transformação, migrando do paradigma patriarcal da espada, o da dominação, para o do cálice, como ela chama esse associado ao mito da deusa, que é baseado na cooperação, na parceria, na nutrição, no cuidado e exaltação à vida. Como escrevi na primeira newsletter:
“Acompanhando as muitas crises que vem acontecendo no mundo, nas quais as muitas formas de violência parecem escalar todos os dias em função da escassez, numa forma tão inimaginável que vem se tornando cada vez mais insustentável, me parece que o mito da deusa e o paradigma que ele traz é a base dessa nova história. Ele não só é um sopro de esperança, mas também um vislumbre de que é possível um outro mundo, uma outra forma de viver por aqui, sim.“
Seguimos.
