Durante um par de anos, final de semana sim e outro também, eu subia o morro que leva ao Ninho das Águias, em Nova Petrópolis, aqui na Serra Gaúcha, para acompanhar um então namorado que voava de asa delta.
(isso numa época em que a estrada pra chegar lá nem era asfaltada como é hoje.)
No topo dessa montanha, há uma rampa para salto de paraglider ou asa delta. E uma vista magnífica, realmente linda, pra quem acompanha os intrépidos voadores – o meu caso.
Depois de algum tempo convivendo com essa trupe do voo livre, aprendi a olhar para o céu e observar o voo de aves como os urubus pra saber se as correntes de ar estão adequadas ou não para se lançar no ar e voar.
Aprendi e não desaprendi.
Até hoje, quando vejo um urubu ou alguma ave flanando com suas asas bem esticadinhas no céu, imediatamente me vem à mente a frase: tá dando voo.
E TU VOASTE DE ASA DELTA, LILA?
BEM CAPAZ!
Nessa existência, vim equipada só pra voo metafórico e simbólico ou de avião. Aceito isso sem problema algum. Hahaha!
Voltando ao morro e aos voos, o que vivi com a trupe do voo livre e seus saltos me trouxe um aprendizado bem mais simbólico também: olhar para o céu da vida e identificar quando as correntes de ar e do vento possibilitam correr rampa afora e se jogar em novos voos. Afinal, nem sempre ele está dando condições favoráveis pra esticar asas e voar. Às vezes, é preciso paciência e espera. E enquanto o momento não chega, o que cabe é seguir observando as aves que cruzam o céu da vida, à espera do flanar que sinaliza que é chegado o tempo de se jogar rampa afora, perder o chão e se lançar no céu em um novo voo.
Pra fazer isso, aprendi a reconhecer as aves que me indicam que tá dando voo no céu da vida, que as correntes não estão nem tão violentas e intensas que acabem me derrubando, nem fracas demais que sequer sustentem meu voo.
MAS QUE AVES SÃO ESSAS NO CÉU DA VIDA, LILA?
A intuição é uma delas.
Pra mim, ela é um grande pássaro a sinalizar o momento de cada novo voo.
Infelizmente, nesse mundo patriarcal racista, a intuição tem sido considerada produto de segunda categoria por ser associada às mulheres e ao reino dos sentimentos. Por essa razão, além de não termos sido ensinadas a entender sua linguagem, a observá-la, a dialogar com ela, fomos socializadas para desprezá-la e jamais respeitá-la ou acreditar no que ela sussurra para nós.
Que desserviço foi essa educação que separou mente e coração, corpo e alma, razão e intuição! Tenho visto isso em leituras do Mapa da Alma e em conversas que tenho com mulheres sensacionais, verdadeiras forças da natureza e profundamente intuitivas. Muitas delas já tomaram posse desse superpoder. Outras tantas, no entanto, chegam absolutamente desconectadas da sua capacidade nata de ouvir as orientações que vêm da alma.
Perdemos todas e todos com isso. E cá está a humanidade, completamente perdida na selva da lógica irracional, aquela que despreza as consequências do que cria, como falo no capítulo “eu sou porque a terra é” do livro Reviravolta no Céu.
Ainda bem que hoje estamos colando os caquinhos e fazendo algo novo e muito lindo nascer. Um movimento que me lembra bastante o Kintsugi, a arte japonesa na qual se repara uma cerâmica quebrada, unindo os pedacinhos e destacando essas emendas com laca misturada com pó de ouro, prata ou platina – razão pela qual essa arte é conhecida também como Kintsukuroi, ou reparo com ouro.

Resgatar conexões perdidas, colar e unir tudo outra vez tem sido um dos propósitos da minha astrologia mulheril. E assim como eu, muitas outras mulheres – teóricas, intelectuais, pesquisadoras, místicas, cientistas, professoras – têm se dedicado ao processo de reunir todas as partes outra vez, a fim de formar um novo template de pensamento; ou seja, uma outra forma de perceber o mundo e as relações entre nós, com todos os demais seres, com a natureza, a Terra e o próprio universo.
TÁ DANDO VOO NO CÉU!
Na astrô mulheril, a adoção desse template, com sua sabedoria milenar, ancestral e profunda, possibilita conhecer o nosso céu interior e suas singularidades através dos diálogos das mulheres ancestrais (como represento os planetas astrológicos nessa nova visão-percepção de mundo). Esse conhecimento nos devolve a capacidade de reconhecer, respeitar e celebrar a intuição como uma parte potente nossa e ainda nos ajuda a potencializar a autopercepção para dialogar com a vida e validar e confiar na intuição e vê-la como o pássaro que sinaliza quando o céu tá dando voo.
Falando nisso…
Essa é uma semana que o céu simbólico aqui de fora, o de todas nós, está dando voo. Se a vida está te convidando a voar e sua intuição lhe diz que é chegada a hora, abra suas asas e se joga! Salte! Caso esse convite não seja pra você agora, faça como eu fazia: sente e aprecie a beleza da paisagem e dos voos no céu ao seu redor, enquanto o seu momento de saltar não chega. Além de desfrutar da vista, a gente sempre aprende alguma coisa nova.
POR FIM
Escrevendo esse texto, aprendi com meu amigo Guilherme Atencio, que é biólogo e me ensinou tudo que compartilhei sobre a metamorfose das borboletas nessa outra news aqui, que nem toda ave é um pássaro, mas todo pássaro é uma ave. E que urubus são aves, mas não são pássaros.
Eu não digo que a gente sempre aprende alguma coisa?
Imagem capa: Nick Fewings/Unsplash
