Tem uma revolução acontecendo no céu.
Nas nossas consciências e imaginação, portanto.
Essa reviravolta transforma a maneira como compreendemos e nos relacionamos com ele, o céu. E também com o cosmos, com a Terra e, acima de tudo, com nós mesmas, com os outros e com os demais seres.
Se essa transformação passa pela consciência e atravessa a imaginação e o reino do simbólico, como a astrologia não seria impactada?
Durante dois anos, escrevi sobre essa mudança que me atravessava. E o livro Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia é o resultado de como essa transformação mudou meu olhar, as minhas lentes sobre o mundo. E mudei eu e a minha compreensão sobre a astrologia.
Hoje, entendo que essa revolução tem vindo em ondas.
Ondas “ondas de amor e raiva”, como nos diz Fran Winant no poema Coma arroz, tenha fé nas mulheres
Na primeira onda dessa revolução que proponho e promovo na astrologia, e que culminou com a escrita e publicação do livro, o foco foi nomear os incômodos, identificar e questionar os valores e as construções patriarcais presentes nessa prática e saber tão lindos que há 20 anos estudo, pesquiso e pratico.
Sem o conhecimento teórico produzido por pesquisadoras feministas, por mulheres que ousaram questionar o status quo e, com suas pesquisas, bastante coragem e ousadia, mostraram pra nós que a grande maioria das teorias que estruturam a nossa civilização ocidental e regem o mundo são muito mais construções feitas pela perspectiva masculina do mundo do que a natureza em si, nada disso seria possível.
Sem elas e sem o feminismo, não haveria um primeiro passo para a revolução e a construção de uma nova proposta astrológica, que vem ganhando forma numa segunda onda que atravesso nesse momento. É dessa segunda onda que nasceu a astrologia mulheril, com as figuras das mulheres ancestrais incorporando todo um novo paradigma e entendimento de mundo que seguiu se ampliando e se consolidou depois da publicação de Reviravolta no Céu.
Quanto mais mapas eu leio com a linguagem das mulheres ancestrais no lugar dos planetas, mais feliz fico em ver como essa mudança de paradigma proporciona realmente esse novo entendimento sobre a astrologia, a natureza da vida em nós e, principalmente, sobre nós mesmas. Sobre o nosso poder pessoal, que é o das nossas escolhas.
Tem sido lindo demais testemunhar isso!
Cada novo relato me emociona pra caramba.
Também me deixa feliz ao ponto de transbordar é saber que há toda uma geração de astrólogas sintonizadas com essa mudança, buscando essa nova linguagem, trilhando esse caminho da revolução mulheril.
Isso enche meu coração de esperança e alegria por um futuro e forma de viver mais justo e menos hierárquico pra nós todas e todos, construído a partir dessa nova forma de entender a vida e a nossa existência e presença aqui. Mais cooperativa, encantada, afetiva e comunitária e menos egoísta, mecanicista, fria e competitiva.
Quem acompanha minhas palavras aqui desde o primeiro envio, desde a primeira coluna escrita, também está ligada nessa transformação, nessa revolução em andamento e na minha construção. Afinal, semana sim e outra também falo sobre esse novo modo de perceber, sentir, viver o mundo e as relações por aqui.
Sabendo que tudo é processo e leva um tempo, tenho plena consciência de que não viveremos os resultados concretos dessas mudanças. Mas, assim como aquelas que vieram antes de nós, vamos abrir caminhos para as que virão depois, para que elas possam usufruir do nosso legado e seguir de onde paramos. Exatamente como nos fala Fran Winant no lindo e épico poema Coma arroz tenha fé nas mulheres
“O que eu não sei
Eu ainda posso aprender
Se estou sozinha agora
Estarei com elas mais tarde
Se estou fraca agora
Posso me tornar forte
Lentamente, lentamente
Se aprender, posso ensinar as outras
Se as outras aprenderem antes
Eu devo acreditar
Que elas voltarão e me ensinarão
…
Mulheres vindas de mulheres
Indo para mulheres
Tentando fazer tudo que pudermos
Com as palavras
…
Canções que nos lembram de nós mesmas
E nos fazem querer continuar com o que importa para nós”
Eu acredito nesse movimento e essa revolução não só porque estudo o céu simbolicamente ou porque sinto tudo isso em minhas entranhas.
Acredito também porque tenho testemunhado e vivido isso tudo na prática, a cada novo diálogo que tenho com quem me contata após ler minhas palavras, com quem faz leitura de mapa comigo, nas prosas com amigas e mulheres próximas a mim, nos encontros com as mulheres do Clube de Astrologia Mulheril e as do Clube de Debates de Teoria Feminista da amiga historiadora Suzana Veiga, nas newsletters de amigas, pensadoras, escritoras e artistas que escrevem aqui e acompanho (e que passarei a indicar e compartilhar a partir da próxima edição).
Com nossas palavras, escolhas e atitudes, todas nós estamos participando ativamente da transformação em andamento e ajudando, de alguma forma, na tessitura que será deixada de legado para as que virão depois.
Por fim, leia o poema Coma Arroz Tenha Fé nas Mulheres inteirinho aqui.
