Faz 28 anos que abracei Seu Rizzon pela última vez num Dia dos Pais. Três meses depois, numa segunda-feira quente de novembro, às vésperas do Dia de Ação de Graças, ele se foi.
Ainda lembro do telefonema que recebi de Seu Rizzon por volta das nove horas da manhã daquela segunda-feira. Nessa época, eu morava em Gramado e, trabalhando na Prefeitura, estava a mil com os espetáculo e eventos do Natal Luz. Combinamos minha ida para casa – a residência da minha família em Canoas – para celebrar o aniversário dele no comecinho de dezembro.
Infelizmente, a celebração combinada nunca aconteceu.
E aquela foi a nossa última conversa.
À tarde, recebi outra ligação. Dessa vez, da minha irmã, a Mônica. Coube a ela a tarefa nada fácil de me dar a notícia de que nosso pai tivera um infarto fulminante no comecinho daquela tarde e havia morrido.
A partir desse momento, tenho borrões de lembrança…
Eu saindo da sala em que trabalhava aos prantos e contando que meu pai morrera. Meu corpo encolhido e dobrado, e a cabeça apoiada no colo da minha grande amiga Fabi Costa, no banco de trás do carro que ela agilizou (junto a um amigo que dirigiu pra nós) para nos levar até Canoas. Fabi não soltou minha mão um momento sequer naquele dia.
Lembro do meu irmão mais novo sentado no alpendre da nossa casa, com a correntinha do nosso pai no pescoço, cabeça baixa, chorando. E de minha irmã resolvendo todas as questões legais e burocrática, papel que lhe coube naquele momento e o qual ela assumiu e nunca mais deixou de executar para a nossa pequena grande família.
Recordo dos abraços de amigas e amigos na noite de velório dele em Canoas e do meu choro ao lado das tias e tios no início de tarde da terça-feira no velório em São Marcos, onde meu pai foi enterrado.
Depois disso, lembro da missa de sétimo dia, já com a presença do meu irmão Marcos, o primogênito, que estava fora do país no dia da morte de Seu Rizzon e só chegou para a missa.
Vem, então, a noite daquele primeiro réveillon sem meu pai. A saudade apertou tanto que, trancada no banheiro do apartamento em que eu morava em Gramado, chorei litros. Tudo isso no meio de uma celebração de virada de ano que eu e Fabi havíamos organizado com amigas e amigos queridos. Mais uma vez, minhas amigas não largaram minha mão.
Toda essa cascata de lembranças me veio hoje não em função da data per se, mas por ter lido a cartinha linda que minha amiga Taty Guedes escreveu sobre a partida de seu pai – se você ainda não acompanha ou assina a news dela, recomendo demais! As reflexões que essa minha talentosa amiga e parceria de escrita traz todas as quartas-feiras são maravilhosas e uma delícia de ler. Amo!
Se foi inconsciente ou não a escolha de ler justo hoje, não sei. O fato é que as palavras de Taty me fizeram pensar no quanto essas perdas nos atravessam, passam a fazer parte de nós e se entranham na nossa história. E como toda a perda é um fio que trama nossas vidas e colore grande parte da tessitura do que vem depois.
Será que faríamos as mesmíssimas escolhas sem essas perdas?
Em alguns casos, creio que sim. Outros, talvez não.
De uma forma ou de outra, as perdas se tornam limiares para algo novo, alterando e transformando a dinâmica dos nossos dias e da nossa vida. Quando penso na perda colocando em perspectiva coisas como o fim de um relacionamento, de um trabalho, de uma formação acadêmica, de uma rotina, de uma etapa de desenvolvimento, por exemplo, acredito que há toda uma mudança que exige de nós, muitas vezes, escolhas diferentes, sim.
A perda de Seu Rizzon me fez escolher relembrar e contar suas histórias como forma de cultivar sua presença e celebrar meu amor por ele.
Uma das anedotas que amo contar é a da noite em que seu instinto heróico aflorou e ele perseguiu, a bordo do fusquinha da firma, um caminhão que havia sido roubado e acabou sendo emparedado no muro da BR-116.
Fecho os olhos e posso escutá-lo atendendo o telefone com o clássico: alô, é Rinçãããão. Tudo porque ele usava o ão no lugar de on/om e ainda esticava a pronúncia das palavras.
Dono de um coração enorme e sensível, soterrado por um jeitão contido, Seu Rizzon sentia tudo e muito. Mas não sabia dizer eu te amo em palavras. Uma das maneiras que ele fazia isso era chegar carregado de comida a cada visita em Gramado, com pães, caixas de leite, mamão, biscoitos e as clássicas orelhinhas, como chamávamos as deliciosas palmiers que o Seu Gelson, confeiteiro do nosso bairro em Canoas, produzia. Gesto de amor, para Seu Rizzon, era cuidar desse jeitinho aí.
Incentivada por minha amorosa amiga Fabi, eu aprendi a reconhecer esse amor e a verbalizar e expressar em palavras o amor que eu sentia por ele. Fiz isso em cartas que escrevi no nosso último ano juntos, e que minha mãe me entregou tempos depois, nas quais eu dizia eu te amo e muito obrigada. E também em ligações telefônicas, como a daquela segunda-feira.
Encerrei aquela ligação dizendo eu te amo.
Foram as últimas palavras que eu disse ao meu pai.
Que benção! Jamais imaginei que não haveria outras.
Até hoje agradeço ter tido a oportunidade de expressar e externar a ele o amor que eu sentia, e ter me despedido dele com essas palavras. Talvez a maior lição dessa perda tenha sido exatamente essa: expressar amor como se não houvesse amanhã. “Porque se você parar pra pensar, na verdade não há”, como eternizou Renato Russo em poesia e música.
Te amo, Seu Rizzon. Ontem, hoje e sempre.
