Cheguei com dez minutos de antecedência ao consultório, apesar do frenesi ansioso do trânsito de dezembro. Comecei a ler revistas e acabei me distraindo. Quando percebi, já havia se passado trinta minutos do horário da minha consulta. Foi o que bastou para que eu começasse a ficar muito ansiosa. E começar a ruminar uma história em que o médico agia com absoluta falta de respeito por mim.
“Trinta! Trinta minutos! Que falta de respeito”, comecei a falar baixinho lá pelas tantas, num misto de desapontamento e impaciência. E quanto mais pensava, mais irritada ficava. E intolerante com o atraso.
Dez minutos se passaram até que o médico finalmente me chamou. Bastante aborrecida, fiz questão de exibir toda a minha indignação e de cara amarrada entrei consultório adentro.
O médico, que desde a infância me tratava, era um dos seres mais incríveis que eu já conheci. Além de baita profissional, era extremamente gentil, humano, educadíssimo e atencioso. Sem se abalar com minha tromba mal-educada, ele logo começou a examinar minhas vias respiratórias.
Aos poucos, fui me acalmando. Mas bocuda que sou, claro que não consegui sair do consultório sem expressar minha frustração. Antes que a consulta chegasse ao fim, resolvi falar o que me chateava.
– Olha doutor, o senhor não me leve a mal, mas tem uma coisa que preciso lhe dizer…
Imediatamente, ele largou a caneta com a qual escrevia o receituário e olhou fundo nos meus olhos, em total atenção às minhas palavras.
– Eu esperei quarenta minutos para ser atendida hoje e acho que isso não é legal.
Sem desviar um minuto sequer o olhar, bastante sério e compenetrado em minhas palavras, com sua sempre educação e atenção, ele me respondeu:
– Peço desculpas pelo desconforto causado, Marília. Meu primeiro paciente do dia, que não tinha horário agendado, ficou comigo por uma hora e saiu daqui diretamente para o hospital, com diagnóstico de câncer no pulmão.
Ao ouvir isso, fiquei toda errada. Conhecendo o médico, eu deveria ter imaginado que só podia ser algo assim para ele atrasar. E ele continuou:
– Eu fiz questão de ligar para o hospital e me certificar de que o paciente seria atendido quando chegasse lá. Eu não quis simplesmente fechar a porta do consultório e deixar que ele se virasse. Queria ter certeza de que ele seria assistido.
Por essa eu não esperava.
Meu umbigo não tinha imaginado, em momento algum da minha ruminação, que poderia haver outros fatores e elementos na equação. Ele só pensava nele.
Um grande constrangimento e arrependimento tomou conta de mim. Eu queria desaparecer, voltar no tempo e recolher as palavras. Conhecendo o médico e ciente de sua conduta sempre tão ética e profissional, deveria ter imaginado que algo inesperado, urgente – ou ambos – tivesse gerado tamanho atraso.
Puxei o mais amarelo dos sorrisos, agradeci a consulta e tratei de me despedir. Deixei o consultório certa de ter aprendido uma bela lição: não julgar os outros e nem tirar conclusões precipitadas. Fui lembrada pela vida de que olhar apenas para o meu umbigo me conduz a suposições equivocadas, julgamentos errôneos e intolerância.
Recentemente, voltei a viver uma situação assim. A médica agendada para realizar um exame de imagem que pedia bexiga cheia atrasou 15 minutos. Quase explodindo de vontade de fazer xixi, fiquei inquieta e indignada, reclamei para as amigas no zap e até pensei em falar com a ouvidoria do local. Mas quando me vi diante da médica, fiquei me perguntando:
Qual o contexto dessa mulher? Será que precisou fazer algum atendimento antes de vir pra cá? É mãe solo e se atrasou em função do filho? Ou cuida de pais idosos? É uma mulher que depende da chegada de uma trabalhadora para se ausentar do cuidado e trabalhar? Quantos elos haveria nessa corrente toda interconectada até chegar a mim, nesse atendimento?
Talvez não fosse nada disso e ela quase sempre se atrase porque está nem aí para os pacientes. Mas como euzinha posso afirmar, com certeza absoluta, que é esse o caso, sem saber contexto algum, sem ter noção dos demais elos, apenas por esse único episódio meu com ela? A vida e as situações têm tantas camadas e nuances, é tudo tão complexo e reduzir é muito perigoso, ainda que seja mais fácil.
Se tem um coisa que aquela consulta vinte anos atrás me ensinou foi o seguinte: antes de julgar e taxar algo ou alguém e sair bufando como fiz no calor da ruminação naquela ocasião, sem saber de fato o que se passara para que o médico atrasasse, procuro olhar com um pouquinho mais de distanciamento e contexto. Tudo pra evitar conclusões apressadas e julgamentos.
Consigo fazer isso?
Às vezes, sim. Muitas vezes, não.
Mas sigo empenhada em diminuir esse olhar julgador dentro de mim. Até porque, o julgamento que direciono aos outros, também acaba direcionado a mim mesma na forma espinhosa do autojulgamento. E serve de alimento para a cerca elétrica cheia de pontas farpadas que é o perfeccionismo. Duas coisas que sempre pesam e me travam.
Eis por que tenho buscado girar cada vez mais chaves dentro de mim e mudar consciência e ação. Aliás, vou aproveitar a baita oportunidade que a vida e o céu nos propõem nesse mês de agosto com o movimento retrógrado de Mér (como chamo Mercúrio na astrô mulheril) e outros diálogos planetários, para rever ideias e certezas arraigadas em valores ultrapassados e mudar o pensamento.
O céu mostra que esse é um tempo rico em oportunidades para ampliar a visão e ter clareza sobre situações que, nos últimos 20 dias, se tornaram o foco da nossa atenção. Fica a dica do Querido Cosmos.
