Na mais antiga mandala zodiacal, que data da época de Platão, os signos não eram regidos por planetas, mas sim pelos 12 olímpicos, os deuses do panteão grego. Quem conta isso são os astrólogos Arielle Guttman e Kenneth Johnson na obra Astrologia e Mitologia, uma das fontes que usei na minha pesquisa para o Ensaio sobre a Terra.
A primeira coisa que chama a atenção nessa mandala é o equilíbrio entre figuras masculinas e femininas – havia seis de cada e sempre com uma masculina opondo uma feminina. Por exemplo, Áries era regido por Palas Atena. Do outro lado, Libra tinha como regente Héfestos. Da mesma forma, Hermes regia Câncer; e Héstia, Capricórnio. Apolo era regente de Gêmeos; e Ártemis, de Sagitário.
Foi Cláudio Ptolomeu, autor da obra considerada até hoje o livro ‘sagrado’ da Astrologia, quem mudou tudo por volta de 140 AC, então atribuindo aos planetas a regência dos signos. Sabendo o quanto o ponto de vista predominante é o que narra a História e faz a construção social, à medida que eu pesquisava, foi ficando clara a influência das estruturas conceituais do patriarcado na escolha das regências dos signos.
Pra explicar , vou falar aqui sobre o planeta Júpiter, associado ao mito de Zeus, o rei dos deuses.
Antes de seguir, no entanto, quero reforça que NÃO questiono em momento algum os arquétipos que os planetas representam, MAS SIM como as associações de tais arquétipos foram feitas. Ou seja, por que às deusas de figura feminina foram relegados somente os arquétipos associados aos papéis da mulher na visão patriarcal. E nenhum outro além desses. Enquanto arquétipos simbolizando autoridade, assertividade, racionalidade, expansão, conhecimento, fé, pra citar alguns, foram todos associados aos deuses de figura masculina.
Pra começar, é preciso lembrar que a astrologia como usamos hoje foi sistematizada por pensadores imersos em culturas extremamente patriarcais, guiados por uma visão de mundo que considerava o homem o dono da Terra toda, e a mulher e todas as demais espécies e seres, humanos e não humanos, inferiores. Logo, colocar uma figura masculina como rei dos deuses não foi coincidência, mas construção social fruto da visão e entendimento de mundo da época.
Dito isso, voltemos ao planeta Júpiter. A associação do seu arquétipo, que simboliza a expansão, as leis, as crenças que ‘movem montanhas’, a confiança interior, os dogmas que fundamentam as religiões, e o conhecimento superior que amplia conhecimento e visão de mundo, com uma figura de deus masculina, reforçou no imaginário coletivo a mensagem de que esses temas eram de “natureza”, abrangência e regência dos homens.
E ao dispor Júpiter como regente de Sagitário, até então governado pela deusa lunar Ártemis, e da casa 9 do mapa astral, que representa a área mundana das leis, da expansão, das crenças e das religiões, do conhecimento superior, da ampliação de visão de mundo, a mensagem foi a seguinte: o que legitima o sistema e faz o mundo avançar está nas mãos dos homens.
Coincidência? Não, pessoal.
Construção fruto da visão e entendimento de mundo da época? Hell yeah!
Refletindo sobre isso tudo, penso nas palavras de Arielle e Kenneth em Astrologia e Mitologia: “estamos numa era de mudança radical e profunda, uma era em que os arquétipos da consciência também estão em estado de transformação. … No momento certo, outra mandala (de regências) surgirá do caos aparente e as ideias que trazem esse estímulo e inspiração aos astrólogos contemporâneos formarão a base e uma nova mandala que representará uma nova fase de consciência”.
Acredito que essa ampliação de consciência impreterivelmente passe pela inclusão da Terra com arquétipo, que esteve adormecido por milhares de anos no ocidente, voltando a despertar na consciência coletiva no último século. Mas isso é conversa para uma próximo post.
Imagem de abertura: Bruce Warrington/Unsplash
