Atravessamos um tempo de enorme mudança na materialidade, na vida cotidiana, e também no campo simbólico, no imaginário. As histórias e mitos que nos sustentaram até aqui já não dão mais conta do mundo e provocam mais fragmentação, separação e binarismo do que integração, cooperação e holismo.
Precisamos de novas histórias!
Histórias que substituam as narrativas segregadoras de dominação e exploração, onde a relação é sempre entre um sujeito dominante superior e um outro inferior, que é coisificado, objetificado, bestificado. Histórias como essas, que já justificaram tantas guerras e destruição mundo afora, agora ameaçam a nossa própria existência, assim como a de tantos outros seres.
Histórias que reintegrem significado aos nossos dias e, assim, acabem com o enorme vazio que a cosmovisão mecanicista do universo provocou em nós nesses últimos 400 anos, ao destituir o Cosmos da dimensão da alma, do significado. O que também contribuiu pra escalar a destruição da Terra.
Histórias que ressignifiquem nossa presença e relação com a Terra e com o universo, e nos lembrem que somos parte integrante da tecnologia que é a Terra, Gaia. Histórias que, como diz o historiador cultural e ecoteólogo Thomas Berry, “nos tornem integrados com a comunidade que nos traz à existência, que nos fornece o alimento que precisamos física, psíquica e espiritualmente”.
Precisamos de histórias que ampliem nossa visão de mundo e movam o referencial básico humano para o contexto maior do universo. A perspectiva muda quando se entende que nós, humans, surgimos num contexto de unidade com a Terra e com o próprio Cosmos. E, portanto, não somos separados, mas parte integrante desses grandes sistemas.
Precisamos de novas histórias a partir dessa visão ampla de mundo pra que possamos repovoar o imaginário com narrativas que celebrem a nossa conexão e interdependência com a natureza, a Terra e o Cosmos. Que celebrem a cooperação e não mais a dominação, que nos façam imaginar novos mundos possíveis. E, tal qual aconteceu com Sherazade, mudemos o rumo (e o final) da História por aqui. Caso você não lembre, Sherazade evitou a própria morte, e a de centenas de outras mulheres, contando histórias a um rei assassino e amargurado ao longo de 1001 noites.
Essa história até pode ser lenda urbana, mas o poder das histórias em nós não é.
No livro Story Genius, a escritora Lisa Cron explica que as histórias fornecem ao cérebro, que está sempre buscando padrões que lhe garantam a sobrevivência, pistas de como evitar o que ele mais teme: o inesperado. Para a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, autora do clássico Mulheres que Correm com os Lobos, histórias trazem instruções que nos ensinam a lidar com desafios e direcionam os caminhos da alma.
Mais do que em qualquer outra época, precisamos de histórias para derrotar dragões do nossos tempos e fazer florescer no imaginário novos mundos possíveis, mais pleno de cooperação, amorosidade, compaixão, ética e cuidado para o bem ser e viver de todas e todos nós.
Imagem: Jon Tyson/Unsplash
