Gaia era a gestora da Terra toda. Extremamente criativa, organizada, ética, sensível, era adepta do modelo colaborativo e participativo de organização. Com incrível consciência social, sempre levava em consideração os impactos que quaisquer decisões do grupo pudessem causar a toda a comunidade da Terra. Crescimento a qualquer custo não era com ela.
Certo dia, conheceu Urano, o responsável pela área de tecnologia da Terra. A eletricidade entre eles foi imediata. Logo, estavam se enroscando sob as estrelas, envoltos numa névoa de luxúria e paixão. E o que iniciou como um caso tórrido, acabou se tornando uma união estável.
Fértil que era, Gaia logo teve a primeira gestação. Depois, veio outra e mais outra. Graças à extensa rede de apoio e o bem estruturado sistema participativo por ela adotado, fazer a gestão da Terra e atender sua prole de sete não foi problemático. Urano, por sua vez, sempre envolto em tempestades de ideias e temporais de abstrações, não dava muita atenção às crianças e, na verdade, até evitava suas crias.
– O choro e as esquisitices delas me atrapalham – justificava – Preciso focar em minhas invenções, pois a evolução da Terra depende disso.
Gaia achava o pensamento e a atitude do companheiro um tanto equivocadas. Afinal, ainda que a tecnologia contribuísse – e muito – para o avanço da Terra, o sistema de desenvolvimento do planeta tinha um design de interdependência que conectava e exigia equilíbrio e harmonia entre todas as partes para uma evolução sustentável. Mas, sabendo das esquisitices criativas de Urano, relevava. Deixava passar.
À medida que as crianças cresciam e amadureciam, e ficavam muito diferentes das expectativas que Urano tinha projetado para elas, um outro comportamento do companheiro passou a desagradar e incomodar imensamente Gaia: Urano passou a implicar mais e mais com sua prole e a aplicar castigos extremamente rigorosos.
Um dos que mais sofria era o realista e taciturno Saturno, que não curtia muito as invenções do pai – várias delas, não faziam sentido algum pra ele. Sempre muito pé no chão e consciente das consequências que algumas ideias provocavam no corpo da Terra, ele se ressentia com a maneira como o pai ficava cego por suas ideias. E cobrava atitudes da mãe.
– Como você permite que ele faça experiências que lesem a Terra?
Gaia concordava com o filho. Ainda que experimentos fossem necessário, tudo tinha limite – e esse era o bem-estar físico, psíquico e espiritual de toda a comunidade da Terra, que era o que mantinha seu sistema em equilíbrio. Não, ela não podia passar pano pra insensível obsessão de Urano com a inovação a qualquer custo. Ela tinha consciência desse fato e sabia que tomar uma atitude era necessário.
A situação se tornou insustentável quando, um par de dias depois, o companheiro trancou toda sua prole no porão da Terra, em mais um castigo desmedido. Aquilo foi demais! Era chegada a hora de dar um basta. Gaia não toleraria ver qualquer filha ou filho punido por apenas ser exatamente quem era. Ela amava cada cria tal do jeito que ela era e não toleraria mais o comportamento de Urano. Cada rebento manifestava uma maneira singular de participar da grande construção coletiva da Terra e Gaia sabia o quanto essa diversidade era harmônica e essencial ao equilíbrio do coletivo. E, assim, ao desenvolvimento da própria Terra.
Além disso, outra preocupação lhe açoitava as entranhas ultimamente: que consequências nefastas essa mentalidade traria à Terra se fosse mantida? A conclusão, sempre a mesma, lhe causava arrepios: se tornaria um padrão tóxico para a vida e a sustentabilidade de tal forma que levaria à sua destruição. Definitivamente, era necessário intervir e dar um fim a essa narrativa abusiva. Furiosa, Gaia desceu aos porões da Terra e liberta suas crias. Depois, com fogo nas ventas e cabelos em pé, rumou ao setor de Tecnologia.
– Você enlouqueceu?
A pergunta indignada de Gaia arrancou Urano de suas pesquisas. Diante da imagem ameaçadora de Gaia à sua frente, ele tentou se justificar.
– É para o bem de todos. Vai ser melhor para o futuro da…
Antes que Urano finalizasse a frase, Gaia levantou a mão, sinalizando para que o parceiro se calasse.
– Não ouse dizer da Terra! Estou farta dessa ladainha e mentira que você vem contando a si mesmo, a mim e todas e todos aqui. Não aceito mais essa justificativa, nem como tua companheira, nem como tua gestora, encarregada do bem coletivo aqui. Essa história acaba hoje, agora.
No momento em que escutou a frase, Urano fechou os olhos e suspirou, derrotado, sabendo que tudo iria mudar.
– Você esqueceu que tudo de bom que fizemos até hoje na Terra foi fruto de um trabalho conjunto? E que a nossa prole reflete isso, também? O que seria da Invenção sem a inspiração da Intuição? Que monstruosidades as Ideias seriam capazes de gerar sem a ética da Sensibilidade, com toda a sua empatia, atenção, cuidado e respeito? Ou sem a consciência das consequências e limites que Saturno tanto fala? Você se perdeu, Urano.
Suspirando, arrasado pela força da verdade das palavras de Gaia, Urano teve que concordar: não havia argumentos. Ele realmente ficara obcecado por suas invenções e pela busca de um futuro perfeito e se perdera. Esquecera que a força da inovação está no acolhimento das diferenças e na colaboração.
– A partir de agora, você não trabalha mais sozinho. A Sensibilidade vai ser sua parceira no comando do setor de tecnologia. Isso, sim, vai ser melhor pra todos nós e para o futuro da Terra
Gaia se aproximou de Urano, tocando sua mão com delicadeza.
– Não vamos nos separar. Ainda. Mas vamos mudar algumas coisas também entre nós. A dinâmica da nossa relação e a sua com nossas crias, a partir de agora, vai ser outra. Tem limites e você vai respeitá-los. Futuro algum resiste a tantos danos, abusos e destruição. Pior, ele morre antes que se consolide.
Assim, Gaia possibilitou que suas crias vivessem sem mais perseguições e repressões por serem apenas quem eram. E garantiu que a Terra jamais fosse lesada por disrupções tecnológicas e inovações que, sem a ética e a empatia da Sensibilidade, só machucariam e adoeceriam o bem viver de todas as espécies e da própria Terra, comprometendo seu equilíbrio e sustentabilidade. E a Terra prosperou e floresceu.
Imagem: Ussama Azam/Unsplash
