Era um sábado de sol, depois de tantos dias de chuva.
Coloquei alegre os tênis e fui pro parque caminhar e curtir o sol.
Chegando lá encontrou meu amigo Be e caminho com ele. Terminada a caminhada paramos pra conversar com outro amigo querido o Ju.
Com o Ju estava com outro homem, que vou chamar de Carla. Papo vai papo vem e logo o assunto cai no aborto que a menina de 10/11 anos de Santa Catarina fez. E eis que, lá pelas tantas, o tal Carlo me larga a pérola:
Ela podia ter aguentado mais um pouquinho. Podiam ter esperado pra fazer o parto e dar a criança pra adoção.
E logo Be e Carlo estavam emitindo opiniões e comentando o fato. Dois homens falando sobre o destino e o corpo de uma MENINA. Nada Novo sob o céu, né? Oh, Lord.
Minhas bochechas começaram a esquentar. Meu coração acelerou! Como assim? Eu senti a tempestade da indignação se formando.
Fechei a cara e sem muita delicadeza me expressei. E, pra cada argumento que eu expunha, havia um argumento “científico” pra desvalidar. Ouvi, inclusive, que não era arriscado pra menina ter o bebê. Que não ia fazer diferença alguma aquela altura. Pra ele, né? Um marmanjo de mais de 40 anos que não carrega nada além de misoginia no corpo. Argh!
Eu, que estava num dia de tolerância e paciência arianamente curta, sentindo minhas entranhas fervendo no caldo da indignação, bati em retirada, sem demora. Até pra não dar munição pro tipo, né?
Muito indignada àquela altura, sai do parque fervendo e chocada com a convicção e certeza com que homens falam sobre situações que desconhecem, que NUNCA vão sentir no corpo. Aí, me deparo com o livro ‘Os Homens explicam tudo pra mim’ da Rebecca Solnit e encontro ali exemplos do quanto isso está entranhado na nossa cultura, na nossa civilização.
Dessa história, eu entendi o quanto cansa e indigna falar com quem tem letramento social algum e vontade zero de escutar e aprender. E mudar, claro! Não dá pra perder tempo com caras assim, cheios de certezas e arrogância. Prefiro dedicar atenção e energia aos poucos amigos aliados, os que realmente entenderam que é preciso mudar e querem fazer isso, que estão investindo nisso.
Imagem: Annie Spratt/Unsplash
