Reza o mito que Gaia, a Terra, a Grande Mãe, foi criada a partir do caos.
Fértil que era, tudo que caia em seu ventre ganhava vida. Assim, ela deu origem ao mar, às montanhas e ao céu, Ouranos (Urano), a quem desposou e com quem teve filhos Titãs e Cíclopes.
Tudo ia bem até que Urano, decepcionado com suas crias, que as vê como imperfeitas e medonhas, passa a açoitá-los e aterrorizá-los, aprisionando e abandonando todos no tártaro. Indignada com a maneira como o marido trata seus filhos e disposta a pôr um fim à tirania do esposo, Gaia pede ajuda a Cronos (Saturno), seu filho titã. E aqui começa a treta patriarcal no mito.
Pra se defender de Urano, uma impotente e pobre vítima Gaia recorre a um filho homem, que assume o papel de salvador, até se tornar o próximo déspota a ser deposto. Aliás, eis aí a ideia de que a mulher precisa de um homem pra defendê-la e cuidá-la e a do salvador branco que sustenta o colonialismo até hoje.
Mas isso não fica aí, não!
Voltemos ao mito.
Com uma foice especial concedida pela mãe, Cronos/Saturno corta fora os testículos do pai, os joga ao mar e prende Urano no tártaro. Saturno então se torna o novo governador. Casa com sua irmã Reia e começam a gerar filhos.
Tudo vai bem, outra vez, até que, atormentado pela profecia de que ele também seria destronado por um filho, Saturno passa a engolir suas crias. Surge, aí, o arquétipo do pai devorador e um símbolo do patriarcado, que usa a opressão de todas as formas devido ao medo de perder o poder.
Reia, assim como aconteceu com Gaia, se revolta com a atitude de Cronos. Esconde Zeus (Júpiter) e entrega uma pedra ao marido, que engole sem suspeitar. Zeus cresce e, junto aos irmãos Hades (Plutão) e Poseidon (Netuno), destrona o pai e despacha Saturno para o tártaro. Assim, o mito retrata como as pátrias, as nações, vão se sucedendo no poder ao longo da história das civilizações nesses seis mil anos.
Outra coisa que torna claro o apagamento do protagonismo da mulher que esse mito mostra é a não participação das filhas no complô que derruba o pai Saturno. Quem o faz são apenas os filhos homens – Zeus, Poseidon e Hades – que, depois de destronar o pai, partilham entre eles o governo do mundo. O céu fica com Zeus. O mar, com Poseidon. E o submundo, com Hades.
Bem patriarcal essa divisão dos bens, hein?
Gaia, por sua vez, desaparece, e seu poder (assim como a nossa conexão com a Terra e a natureza) se torna inexistente.
Já as irmãs se tornam submissas ao irmão regente de todas as leis, que é Zeus/Júpiter. Assim, a mulher se torna legalmente dependente do homem. Esse fato, aliado ao papel que as irmãs assumem no mito, diz muito sobre o patriarcado e a posição de subalternidade imposta às mulheres até hoje.
Mais por convencimento do que por vontade, Hera (Juno) se torna esposa do todo poderoso Zeus. A princípio, ela não queria se casar de jeito algum. Preferia ser livre e fazer o que lhe desse vontade. Mas diante do cortejo sedutor de Zeus intenso, Hera acaba cedendo. Já casada, tolera toda sorte de capricho do marido e suas puladas de cerca até que se revolta e articula com outras deusas uma insurreição para destronar Zeus e assumir o poder. A tentativa, no entanto, acaba frustrada e Hera é castigada.
E como essa deusa que teve a ousadia de transgredir é retratada nos mitos?
Como uma mulher tresloucada, irracional, extremamente vingativa e dominada pela ira. Hera é o retrato da mulher subjugada pela força e pela violência do patriarcado, tolhida de sua soberania e poder pessoal, presa e frustrada num casamento por obrigação, que vê toda sua potência reprimida e reduzida a um só papel: o do corpo necessário para reproduzir e perpetuar o patriarcado. É aquela a quem cabe cuidar do ambiente doméstico e dos filhos, sem jamais ousar questionar, pensar por conta própria, chefiar, liderar, comandar. Fosse eu, seria enfurecida também.
Com esse desfecho, o patriarcado dá seu recado de forma bem clara: a mulher jamais deve ousar questionar o papel do patriarca ou tomar o lugar dele. A ela cabe apenas dizer amém e concordar com tudo. Parece exagero? Talvez. Mas se olharmos para o que já aconteceu no Brasil, temos um claro exemplo disso. Até 1962, mulheres casadas só podiam trabalhar, abrir conta em banco, viajar e ter um negócio próprio se o marido permitisse. Sem autorização legal dele, nem pensar.
Além disso, também significativo no mito é a castração de Urano pelo patriarca Saturno, ato que torna o céu e o Cosmos totalmente masculinos e desmantela a conexão entre o divino e a mulher que até então era vigente. E mais: dos testículos de Urano jogados ao mar, surge Vênus e, com ela, a definição de um dos novos papéis que cabe à mulher: do amor, da beleza, da estética e do prazer. No caso aqui, para servir o patriarca, o homem.
Essa castração também retira atributos como inspiração, sensibilidade e intuição da racionalidade que comanda a inovação, a ciência e a tecnologia, todas essas manifestações arquetípicas de Urano. Desprovidos dessas qualidades, os avanços científicos e tecnológicos se toram suscetíveis a criar consequências nefastas e violentas aos corpos da Terra, Gaia, e de seus filhos e filhas. Está aí a bomba atômica pra nos mostrar.
Pra mim, essa narrativa mostra como o patriarcado criou a desconexão e a polarização entre céu e terra, corpo e espírito, alma e mente, nos tornando cegos, surdos e insensíveis para a psique da natureza, do Cosmos e dos corpos não humanos na Terra. Se antes a relação entre o homem e a mulher com a natureza e a terra era de celebração, cooperação e comunhão, com o patriarcado, ela se torna de separação, abuso, opressão, subjugação, exploração. E é com esta visão violenta e dominadora que as sociedades vêm tratando não apenas Gaia, a Terra, mas também a mulher e todas as demais espécies da natureza e seres considerados inferiores na visão patriarcal.
Imagem: Ricardo Gomez Angel/Unsplash
