Foi em torno do ano 600 AC que o matemático e filósofo Pitágoras de Samos desenvolveu o conceito da Música das Esferas. Também conhecida como Música Universal, essa sua teoria preconiza que os planetas se movem de acordo com um padrão matemático que ressoa, gerando uma música inaudível ao ouvido comum. Para ele, o conjunto dessas músicas criaria uma sinfonia no universo.
Essa ideia fascinou e seduziu gerações de poetas, filósofos, escritores, astrólogos, músicos e astrônomos e influenciou diversas escolas de pensamento até o final do Renascimento.
Uma das mentes impactadas por esse conceito foi a do genial Johannes Kepler. Seu fascínio pela Música das Esferas o levou a identificar que as órbitas dos planetas eram em forma de elipses, e não círculos perfeitos, como se acreditara até então. Ele também percebeu que os diferentes períodos orbitais elípticos dos planetas formavam uma pauta musical.
Mercúrio, com o período orbital mais curto, seria o mais agudo dos sons produzidos pelos planetas. Já a órbita da Terra, disse Kepler em nota na obra A Harmonia do Mundo, “canta MI FA MI”, que ele associou com miséria e fome, mostrando olhar crítico sobre o seu entorno e o que atravessava sua vida. Sua história foi marcada por luta constante com a pobreza, doenças, fatalidades (como a morte prematura dos filhos) e pelo horror de uma guerra religiosa destrutiva na Europa.
Quatro séculos depois, cá estamos nós, ainda atravessados por guerras sangrentas, fundamentalismos, fome, miséria, fatalidades. É incrivelmente triste olhar o mundo hoje e perceber que tudo é diferente, mas nada mudou. E que nada vai realmente mudar enquanto vivermos sob esse modelo social que cultua a dominação, a violência e divide pessoas e tudo mais entre superiores/inferiores.
A única coisa que mudou foi a tecnologia e, com ela, a ideia de que os sons dos planetas só poderiam ser ouvidos pela alma e pelo intelecto, como acreditava Kepler. Instigados pelas ideias dele, dois professores da Escola de Música da Universidade de Yale criaram um projeto, na década de 1970, a fim reproduzir o som dos planetas. Dessa vez, para os ouvidos.

Usando um sintetizador de som de computador, John Rodgers e Willie Ruff transformaram os dados de Kepler que traçam o movimento harmônico dos planetas em som e nos apresentaram os sons dos planetas. Você pode ouvir o som de Saturno na série The OA, trama criada por Brit Marling para a Netflix.
Com a ajuda de mais recentes e novas tecnologias, dados captados pela NASA no espaço passaram a ser convertidos em música através de um processo chamado sonificação. “Unindo arte e ciência para traduzir o ritmo e a harmonia do Cosmos em música e som”, a System Sounds, uma das parceiras da agência espacial nessa empreitada, criou músicas como essa aqui, que celebra os 50 anos do Dia da Terra.
Fico aqui pensando como a busca incansável por entender uma espécie de inteligência cósmica turbinou o conhecimento no passado. Quantas mentes geniais como a de Kepler tentaram entender essa relação que parecia existir entre as forças do Cosmos e nós, até que a Revolução Científica decretasse a morte dessa ideia. E estabelecesse que o universo é tão somente um lugar com um monte de bolas rochosas e gasosas girando aleatoriamente, sem relação de interconexão alguma.
Hoje, esse paradigma já vem sendo questionado.
Descobertas feitas por pensadoras e pensadores geniais (como Einstein) e avanços tecnológicos em diversas áreas têm feito cientistas e intelectuais colocarem em xeque esse conceito e proporem outros novos. Vários deles, inclusive, se reaproximando de ideias ancestrais com um novo olhar a partir do uso de novas tecnologias, tal qual aconteceu com a hamornia dos planetas de Kepler.
Quem fala sobre isso é o historiador cultural e psicólogo Richard Tarnas, autor de livros como A Epopeia do Pensamento Ocidental e Cosmos and Psyque. Nessas duas obras, ele mostra como os paradigmas que orientam a visão de mundo na cultura ocidental foram mudando ao longo dos séculos e milênios. E como, usando as tecnologias e o conhecimento hoje disponíveis, estamos lançando um novo olhar sobre ideias ancestrais, avançando nosso entendimento, e fazendo com que um novo paradigma vá lentamente se construindo.
É exatamente que Ricky Tarnas faz com os arquétipos dos planetas astrológicos em Cosmos and Psyque, que é resultado de um estudo consistente e belíssimo de três décadas. A partir dos avanços da psicologia profunda, ele lança um novo olhar sobre a correlação de significado entre as interações dos planetas, o inconsciente e assuntos e acontecimentos na vida nossa de cada dia e no mundo.
UNIVERSALLY SPEAKING
Conheci Tarnas e essa sua obra em 2008, quando assisti uma palestra sua num evento de astrologia em Denver, nos Estados Unidos. E fiquei fascinada!
Para ele, as forças que os arquétipos associados aos planetas simbolizam são muito maiores do que palavras-chave podem descrever. Para realmente entendê-las e senti-las, outras formas de explanação devem ser usadas. Por isso, para apresentar a nossa relação com o universo arquetípico do mundo, naquela palestra, ele recorreu à música.
“A música expressa o que não pode ser expresso em palavras e o que não pode permanecer em silêncio” Victor Hugo

Na palestra, Tarnas fez algo que todo escritor aprende em aulas e oficinas de escrita: ele mostrou ao invés de (apenas) contar.
Com repertório que incluía Janes Joplin, Frank Sinatra, BB King e Joni Mitchel, para citar alguns, ele mostrou como aquilo que é mais associado a um artista, o que é mais característico nele, o que ele representa na cultura, são os arquétipos planetários mais fortes nele, no seu mapa da alma. E, mais ainda, como a música reflete a psique coletiva, o espírito de um momento no mundo.
Um exemplo clássico disso é Under Pressure, escrita por Freddie Mercury e David Bowie no início dos anos 80. Você nem precisa saber coisa alguma de astrologia para compreender o que significa o encontro de Plutão com Saturno. Basta dar o play e escutar essa música que imediatamente você sente lhe atravessar a tensão, a intensidade, a contração e o medo que surgem no parto de algo novo que despontam do encontro do caos dionísico com a estrutura e a rigidez saturnina.
Bowie e Mercury não fizeram essa música conscientes disso. Claro que não. Eles apenas expressaram o que lhes atravessava, o que sentiam. E o que era forte no mapa deles e refletia o espírito do momento.
Mas teve um cara que ficou tão fascinado com o significado dos planetas na astrologia que resolveu fazer música para expressar o que essas forças arquetípicas simbolizavam. E criou uma suíte (uma composição musical que consiste em uma sucessão de peças instrumentais) inteirinha a partir dos atributos associados a cada planeta.
Esse músico foi o compositor britânico Gustav Holst.Um cara que, até o final de 1913, achava astrologia uma bobagem. Nonsense. Mas aí, num final de semana com amigos em Mallorca, na Espanha, isso mudou.
Ao ler um livro sobre os planetas, escrito por um astrólogo famoso à época, ao invés de um mambo-jambo sobre futuro, ele encontrou ali um sistema que examinava os atributos psicológicos e arquetípicos atribuídos a cada um dos planetas. E ficou fascinado! Tanto que, durante dois anos, entre 1914 e 1916, enquanto lecionava numa escola de educação para meninas, ele compôs as sete peças (ou movimentos) que formam a suíte Os Planetas.
OS PLANETAS
Sua obra inicia com o movimento Marte, o Causador da Guerra, que é praticamente uma marcha rumo à batalha. Não surpreende que essa peça tenha sido composta no eclodir da sangrenta Primeira Guerra Mundial, refletindo a psique coletiva do momento.
Uma curiosidade: ao ouvir o movimento de Marte, logo lembrei de Star Wars. Fui pesquisar e não deu outra: o compositor John Williams se inspirou nessa peça de Gustav Holst para criar a icônica música tema do Império.
A seguir, vem a peça Vênus, a Portadora da Paz, para reestabelecer a harmonia. Como sempre, a mulher limpando a sujeira e arrumando a bagunça no mundo feita pelos homens, né? Nela, Holst usou muita flauta doce e harpa, instrumentos associados a atributos como graça e beleza, tradicionalmente ligados ao feminino.
Na sequência vem o movimento Mercúrio, o Mensageiro Alado. Como esse é o planeta mais rápido no céu, o compositor fez dessa a peça mais curta e mais rápida da suíte. Em seguida, vem Júpiter, o Portador da Alegria. Ao escutar essa peça, toda alegre e leve, me perguntei o quanto Holst deve ter colocado nela a esperança (atributo associado ao planeta Júpiter) por dias sem as batalhas sangrentas e mortes de inocentes causadas pela guerra.
Talvez tenha sido a mesma que sinto quando escuto essa parte aqui desse movimento, interpretada pela Berklee Contemporary Symphony Orchestra num flashmob lindo. Sempre me emociono e, às vezes, até choro com a melodia e o final jupiterianamente grandioso, que trazem esperança para o coração e o sentimento de que é possível, sim – viver num mundo tecido por relações mais cooperativas, éticas, amorosas ou uma vitória pessoal nossa.

O movimento seguinte, Saturno, o Portador da Velhice, é introspectivo, denso, lento, quase um lamento, com momentos que até lembram uma marcha fúnebre. Mas tem tanta beleza nele! E seu final é de uma serenidade tão bonita, que me faz pensar no quanto o acolhimento e a aceitação da passagem do tempo e da morte (e não o temor deles) são fonte de celebração e nutrição da vida, como venho aprendendo.
Quase em seu final, a suíte segue com o movimento Urano, o Mago. Dizem que para fazer jus ao arquétipo de portador do novo, de inventor e excêntrico desse planeta, Holst inovou pra caramba nessa peça, usando instrumentos como o trombone, o trumpete e a tuba e alguns outros poucos conhecidos.
Por fim, com o movimento Netuno, o Místico, a suíte chega ao seu final. Para criar a ideia de conexão com o transcendente, com o que não se vê, associada a esse planeta, Holst posicionou um coro feminino numa sala ao lado da orquestra, sem que o público pudesse vê-lo. No final da suíte, numa sacada genial, enquanto o coro feminino entoa sons etéreos com ‘ums, ahs’, a porta da sala vai sendo fechada, criando a sensação de que as vozes estão se afastando e desaparecendo no espaço.
Sensacional, né?!
Essa inovação toda, no entanto, complicou e adiou a apresentação da suíte ao público. Só em 1918, ao final da guerra, Gustav Holst finalmente pode apresentar sua obra numa sessão privada para 250 convidados. O público precisou esperar mais dois anos ainda para finalmente conhecer Os Planetas.
“Todo ser humano é uma melodia. Só precisa saber escutar”, frase do filme O violino do meu pai.
MÚSICA & FICÇÃO CIENTÍFICA
Como aprendi com Tarnas naquela palestra lá em 2008, os arquétipos, as forças associadas aos planetas, são muito maiores do que palavras-chave. Precisamos senti-las para entendê-las. E a música é uma linguagem e tanto para isso. Uma que Holst usou lindamente.
Outra forma de fazer isso é a ficção.
Quem a ela recorreu, para apresentar conceitos muito à frente do seu tempo que desafiavam as certezas da cosmovisão da época, foi Kepler. Contando a história de um jovem que viaja à Lua e tem uma mãe curandeira, ele apresentou uma verdade chocante e inimaginável: a do modelo heliocêntrico, que desafiava a crença de que a Terra era estática e o centro do cosmos.
As ideias apresentadas nesse livro, chamado Somnium, iriam ajudar o homem a pisar na lua pela primeira vez 300 anos depois. Na sua época, no entanto, o que a obra lhe trouxe foi mais um perrengue: a Inquisição usou Somnium como prova para acusar sua mãe de bruxaria – treta que já contei aqui. Só três séculos e meio depois é que o livro finalmente lhe traria algum reconhecimento. Dessa vez, como autor da primeira narrativa de ficção científica publicada, título a ele concedido por Carl Sagan e Isaac Asimov.
Veja, você, como toda mudança de percepção e de entendimento do cosmos e do mundo impacta a nossa consciência e a forma como nos relacionamos uns com os outros e com a vida aqui no nosso lindo planetinha azul.
PS DA LILA
Depois de falar tanto em música, encerro esse post com um projeto lindo que acompanho desde 2009. Falo do Playing for Change (PFC), que tem como moto a ideia de que paz e mudança são possíveis através da linguagem da música, já que ela é universal e conecta as pessoas. Algo sempre explícito nos vídeos deles, como esse aí abaixo, que me remete aos sentimentos de alegria e esperança associados ao planeta Júpiter, tão necessários e bem-vindos nesse momento do mundo, me despeço de você.
