Na astrologia mulheril, o mapa astral é uma espécie de portal alma adentro, cosmos afora.
Quando olho para o mapa da mulher à minha frente, sei que estou diante da alma dela – e, talvez, de um pedacinho da própria Alma Mundi, a do cosmos. Por isso, é com reverência, respeito, cuidado e olhar compassivo, curioso e amoroso que me aproximo deste mapa como astróloga.
Quando analiso o mapa astrológico dessa mulher, meu foco é revelar, tornar consciente para ela, toda a potência que habita a sua alma (eis por que o nome da minha leitura astrológica é Mapa da Alma), e como ela pode usar essa sua força de uma maneira criativa/construtiva ou destrutiva, dependendo das escolhas que fizer. E como isso, as escolhas que faz, é a maneira pela qual o universo e a vida lhe habilitam participar da construção/criação da sua própria história por aqui.
Essa consciência nos tira do papel passivo e equivocado de que somos meras pecinhas num jogo de xadrez cósmico e que não temos participação alguma nos desfechos da vida. Na leitura e em toda a astrologia mulheril, o foco é mostrar como somos uma das jogadoras posicionada em um lado do tabuleiro – do outro lado, está a vida. E a consciência com que fazemos escolhas, das mais simples (cultivar ou não um sentimento que nos faz mal) às mais complexas (mudo de cidade/carreira ou não) é o que nos leva a mover nossas peças. Sem jamais desconsiderar o contexto no qual estamos inseridas, que também impacta as escolhas que fazemos.
Ao propor essa abordagem na leitura do mapa e de análise do céu na astrologia mulheril, o que busco é devolver a agência, o poder, a autonomia e a capacidade de autodeterminação que nos foi roubada e negada por séculos. Ao valorizar aquilo que já somos, a nossa natureza, a nossa autenticidade, promovemos o florescimento dessa nossa singularidade – que leva não só ao nosso próprio crescimento pessoal, mas contribui um cadinho na evolução do próprio universo. É por isso, aliás, que crescer e mudar é o que a vida (e o cosmos) espera da gente.
CRESCER E MUDAR É O QUE A VIDA PEDE
Nós, humanas, somos seres em constante transformação.
Seres em construção, em desdobramento contínuo, como já falei dezenas de vezes aqui.
Se tudo no universo é assim (inclusive ele mesmo), por que seria diferente conosco, criaturas dele que somos?
Sinto ser a mensageira dessa notícia, mas não somos o alecrim dourado do Cosmos, não.
Você, eu, o mundo e a vida que levamos também é: um processo contínuo de desdobramento, um ciclo após o outro; um sucedendo o outro.
Tal qual a batida coração, os ciclos só param quando morremos.
Tudo é processo, como digo e repito sempre.
E nada, nada mesmo, acontece num vácuo.
O Retorno de Saty (Saturno) de hoje, por exemplo, foi precidido por três estágios, três momentos de mudança, de virada de chave de consciência, antes que você chegasse nele aos 29/30 ou aos 58/59. E, ainda, por centenas de outros ciclos, alguns mais sutis e outros intensos, que também vão trazendo convites a vida (e do cosmos) e transformando você dia após dia após dia, num processo CONTÍNUO de desenvolvimento.
É exatamente a capacidade de nos mostrar como vamos continuamente nos transformando, crescendo, mudando, evoluindo ciclos após ciclos (são vários deles acontecendo junto e ao mesmo tempo, como falei) que faz da astrologia uma ferramenta tão linda, fascinante e incrível. Ela nos ajuda a entender a existência dos ciclos e os convites que eles nos trazem, a partir da tessitura cósmica de cada momento.
Quando olhamos para os acontecimentos com essa compreensão e consciência, tudo muda. Um portal de entedimento se abre em nossa mente. E passamos a compreender melhor nossas escolhas, caminhos, processos.

A SEGUNDA ONDA
Como tenho dito nos últimos três meses, hoje entendo que a publicação do livro Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia finalizou a primeira onda do movimento de criação da astrologia mulheril. Veio, então, a segunda onda, com a criação das astromulheres ancestrais e sagradas do céu, que vem se desdobrando ao longo deste último um ano e meio. Nela, construi uma nova linguagem e prática astrológica, com uma nova maneira de ler o céu e de interpretar mapas astrais, a partir desse novo paradigma e da cosmopercepção que nos entende participantes ativos e engajados na vida e na evolução do universo.
Toda esssa essa construção a partir do conhecimento e da voz de muitas pessoas, entre as quais estão Richard Tarnas, Suzette Haden Elgin, Caroline Myss, Brian Swimme, Thomas Berry, Gerda Lerner, Ivone Gebara, Carol S Pearson, Susan Rowland, Riane Eisler, Suzana Veiga, bell hooks, Rebecca Solnit, Joanna Macy, Ailton Krenak, Sarbmeet Kanwall, Carlo Rovelli, Marcelo Gleiser, Stéfano Mancuso, Clarissa Pinkola Estès, Gail Carriger, Liz Gilbert e Steven Pressfield, para citar algumas.
Foram horas e mais horas de dedicação da minha vida intelectual e criativa fazendo uma tessitura de saberes na construção da astrologia mulheril e do método de análise do céu e de leitura de mapa astral, a partir do novo entendimento de mundo e de universo que une cosmos e psique, espiritualidade e ciência, mitologia/contação de histórias e metafísica.
Foi assim que cheguei no método de leitura de mapa astral, com sua roda de mulheres ancestrais/planetas.

Conceber e aplicar na prática esse saber na leitura e interpretação do céu e de mapas astrais tem me deixado feliz demais. Não só pelo retorno lindo (e emocionante, tantas vezes) que venho tendo das mulheres que leem mapa comigo, mas também por saber que minha prática usa conceitos que não perpetuam ideias misóginas e patriarcais construídas por homens, para homens, pelos homens no nosso imaginário. E que ela oferece uma nova visão/percepção da astrologia e do universo para as pessoas, alinhada ao novo entendimento de cosmos e paradigma de mundo, que propõe outras formas de nos relacionarmos entre nós, com a Terra e os outros, orientadas por justiça, êxtase, conexão, prazer, reciprocidade, igualdade, colaboração, participação e amor.
Não sei se esta segunda onda já se encerrou ou não, mas estou muito grata e bastante encantada com o que vivi até aqui nesse processo e feliz porque essa nova visão da astrologia e sua prática e ética se consolidam em mim cada dia mais.
Imagem abertura: Clark Van der Beken/Unsplash
