Querida leitora, feliz 2025!
Inicio esse primeiro texto do ano, voltando ao que escrevi na conclusão do último texto de 2024, onde falei do processo de criação da astrologia mulheril:
“Não sei se esta segunda onda já se encerrou ou não, mas estou muito grata e bastante encantada com o que vivi até aqui nesse processo, e percebo que essa nova visão da astrologia e sua prática e ética se consolidam em mim cada dia mais.”
Pois 2025 mal começou e já me trouxe a compreensão de que estou vivendo a terceira onda da astrologia mulheril. Agora, são os signos que ganham minha atenção, revisão e uma nova narrativa e forma de compreendê-los e usá-los.
Desde 2022, me propus a pensar e criar novas narrativas para recompor o imaginário, devastado pela visão de dominação, hierarquia e violência que foi plantada e cultivada por séculos, milênios, pelo patriarcado em nossas mentes, psiques e corações. Um entendimento e proposta de mundo que vem nos levando à destruição, a propósito.
À época, eu tinha convicção absoluta de que faria isso na ficção, com personagens que tenho em mim há anos.
Mas não foi o que aconteceu.
Foi na astrologia que acabei propondo e criando novas narrativas e toda uma nova linguagem.
A PRIMEIRA ONDA
Tudo se iniciou cerca de seis anos atrás, em meados de 2019, quando comecei a ficar incomodadíssima com o fatalismo e o determinismo da prosa astrológica. Veio, então, a pandemia e sob o céu de 2020/21, eu viveria uma profunda mudança de consciência. Um verdadeiro plot twist no meu universo.
Nessa época, outro incômodo despertaria em relação à astrologia: a conexão que havia entre a total falta de consciência da nossa ligação existencial e de interdependência com a Terra e a ausência dela como planeta, como arquétipo astrológico, no mapa astral – ela é entendida apenas como um cenário, como pano de fundo para a nossas aventuras e desventuras aqui.
E a Terra é tão mais do que isso.
Nesse mesmo período, também comecei a identificar os constructos sexistas presentes na astrologia e na mitologia grega, de onde grande parte e quase todos os significados astrológicos derivam.
Me inquietei com as narrativas usadas na astrologia ao constatar que essa ferramenta tão potente foi construída e lapidada com valores bem patriarcais.
Esse processo me levou a mergulhar nas origens da astrologia e visitar áreas como o feminismo, a nova cosmologia e a mitologia, me levando a questionar narrativas que são perpetuadas no universo simbólico há milhares de anos e, ainda, a propor uma nova forma de ver e entender o ser humano e sua maneira de estar e se relacionar no mundo.
Tudo isso mudou a minha cosmovisão, cambiando as lentes pelas quais percebo o mundo, a vida, o universo.
Quando a nossa percepção de cosmos muda, também muda a relação que temos com nós mesmas, com os outros, com os demais seres, como aprendi com a perspectiva deeptime (uma compreensão profunda e cósmica do tempo na Terra).
Todo esse processo culminaria, então, na escrita e publicação do livro Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia. E na certeza de que eu não queria seguir perpetuando narrativas misóginas e sexistas que ajudam a perpetuar espartilhos mentais e povoam o imaginário com imagens e narrativas centradas na dominação, na opressão, na escassez e na violência.
Como tenho dito nos últimos meses, a publicação do livro finalizou a primeira onda desse movimento de criação de uma nova narrativa que eu viria nomear astrologia mulheril.
A SEGUNDA ONDA
Depois de concluir a escrita do livro, enquanto aguardava a sua publicação pela editora Hortelã, passei a me perguntar como seria essa outra narrativa da astrologia, livre dos valores patriarcais.
A partir desse questionamento, o processo seguiu se desdobrando e me levou ao encontro de um novo paradigma, que propõe outras formas de nos relacionarmos entre nós, com a Terra e os outros, orientadas por justiça, êxtase, conexão, prazer, reciprocidade, igualdade e amor.
A segunda onda foi a fase de construir uma nova linguagem e prática astrológica, com uma nova maneira de ler o céu e de interpretar mapas astrais, a partir desse novo paradigma e da cosmopercepção que nos entende participantes ativos e engajados na vida e na evolução do universo para oferecer uma nova visão e narrativa mais acolhedora e não violenta para a mente e a psique. E de dar nome a essa nova forma e linguagem de se relacionar com essa ferramenta e com o universo do céu.
Fui fazendo essa nova construção a partir do conhecimento e da voz de mulheres maravilhosas como Suzette Haden Elgin, Caroline Myss, Gerda Lerner, Carol S Pearson, Susan Rowland, Riane Eisler, Suzana Veiga, bell hooks, Rebecca Solnit, Joanna Macy, Clarissa Pinkola Estès, Gail Carriger e Liz Gilbert; e caras como Richard Tarnas, Brian Swimme, Thomas Berry, Ailton Krenak, Sarbmeet Kanwall, Carlo Rovelli, Marcelo Gleiser, Stéfano Mancuso e Steven Pressfield.
Foram horas e mais horas de dedicação da minha vida intelectual e criativa fazendo uma tessitura de saberes na construção da astrologia mulheril com suas astromulheres sagradas, do método de análise do céu e de leitura de mapa astral, a partir desse novo entendimento de mundo e de universo que une cosmos e psique, espiritualidade e ciência, mitologia/contação de histórias e metafísica.
Como contei no último post,
“conceber e aplicar na prática esse saber na leitura e interpretação do céu e de mapas astrais me deixou felizona. Não só pelo retorno lindo (e emocionante, tantas vezes) que venho tendo das mulheres que leem mapa comigo, mas também por saber que minha prática usa conceitos que não perpetuam ideias misóginas e patriarcais construídas por homens, para homens, pelos homens no nosso imaginário. E que ela oferece uma nova visão/percepção da astrologia e do universo para as pessoas, alinhada ao novo entendimento de cosmos e paradigma de mundo, que propõe outras formas de nos relacionarmos entre nós, com a Terra e os outros, orientadas por justiça, êxtase, conexão, prazer, reciprocidade, igualdade, colaboração, participação e amor.”
Foi, então, que outro anseio – que já nadava nas profundezas da minha psique e me visitava vez ou outra – emergiu e exigiu atenção: como usar os signos na astrologia mulheril? Que papel esses símbolos teriam na astrologia mulheril? Como usar a linguagem dos signos, visto que método de leitura de mapas astrais e do céu que criei para a astrologia mulheril não inclui os signos?
Em tempo: como adepta da astrologia arquetípica, que faz uso exclusivamente das relações entre os planetas para interpretar a natureza de cada pessoa e de um momento do tempo, fiz essa escolha para a astrologia mulheril. E sigo com ela.
Sabendo, no entanto, que os signos são uma representação lindíssima e potente dos diferentes estágios do processo de evolução de tudo na vida, dos ciclos que vivemos dia após dia, ano após ano, eu me questionava com poderia agregar essa camada de significado e ferramenta à astrologia mulheril.
No último final de semana, a resposta veio.
A TERCEIRA ONDA
Tudo é processo, como digo e repito sempre e escrevi no último post.
Assim também são os acontecimentos no mundo, a vida que levamos, você, eu e tudo o que existe e é vivo: somos processos contínuos de desdobramento. Um ciclo após o outro. Uma jornada após a outra.
Entender e usar a roda do Zodíaco como ferramenta de identificação dessas muitas jornadas e os signos (representados por mulheres) como guias desses percursos é o uso que farei dos signos.
Entusiasmada com essa ideia, encontrei com a amiga Suzana Veiga ainda no final de semana e não só expus o conceito a ela, como também fiz meu primeiro experimento dessa proposta com ela. A conclusão? Quando olhamos para os acontecimentos com essa compreensão e consciência, um portal se abre em nossa mente e o nosso entendimento muda.
Feito isso, comecei a preparar os textos sobre os signos. Enquanto escrevia sobre Touro, me peguei pensando em seu glifo, sua representação gráfica, que é a cabeça de um touro com os tradicionais chifres – animal esse é símbolo da fertilidade viril, persistente, determinada – ou seria insistente? Mais patriarcal impossível.
Lembrei, então, que os chifres também têm uma relação simbólica com a Lua e as Trompas de Falópio – as estruturas que conectam os ovários ao útero da mulher, determinantes para a fertilidade e fundamentais no processo de fecundação e para a materialização/concretização material de uma nova vida.
Isso tudo me trouxe mais uma pergunta à mente: que representações simbólicas e analogias dos signos teríamos se a visão de mundo à época da construção astrológica fosse outra?
Tal qual ensina a historiadora Gerda Lerner em A Criação do Patriarcado e cito em Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia:
“Constructos mentais não podem ser criados no vácuo; sempre refletem eventos e conceitos de seres humanos históricos na sociedade”, diz Gerda. Em sua obra, ela nos mostra como, à medida em que as experiências vão mudando e a nossa consciência muda, mudam os mitos e as narrativas.
Nos primórdios da nossa civilização patriarcal, o olhar do homem para o céu viu touros, carneiros, lanças, flechas, espadas, cabras, caranguejos e as associações feitas tinham um cunho bem misógino. Era essa visão que ele projetava no céu. E com essa visão, o homem (literalmente, já que só eles detinham poder, acesso e autoridade para isso) estabeleceu o simbolismo atribuído aos signos

Que símbolos teríamos se a mitologia que inspira visões à época fosse outra?
Essa pergunta acabou catalisando o início da terceira onda da astrologia mulheril.
Desde sexta-feira, estou mergulhada no caos criativo, pesquisando e trabalhando na proposta de criar narrativas com visão mulheril para representar o simbolismo dos signos e deles falar. Aliás, essa nova visão sobre os signos já ajudou a quebrar uma ideia, uma visão tóxica e danosa que uma cliente que atendi essa semana tinha sobre um signo – ainda que eu não use os signos nas leituras de mapa, eles são ferramentas que podem ajudar a ampliar a visão sobre si mesma em momentos como esse.
Esse é o meu propósito com os signos: abrir janelas que permitam lufadas de ar fresco, ampliando a compreensão sobre a nossa natureza, e também trabalhar a criatividade. Nesse processo, tenho o apoio de outra amiga e colega genial: a talentosa artista Karina Werneck. Estou superentusiasmada e quero compartilhar essa construção por aqui, conforme ela for se desdobrando.
