Como já contei aqui, conforme fui compreender mais e mais as arapucas conceituais criadas pelo patriarcado para manter nossos sonhos, mentes e vozes condicionadas, aprisionadas, silenciadas, mais meu olho se acostumou a identificar construções patriarcais por aí. Entre elas, as que reconheci na astrologia.
Foi esse sistema chamado patriarcado que criou a divisão arbitrária e nada natural entre céu e terra, homem e mulher, ordem e caos, corpo e alma, mente e espírito, pra institucionalizar o poder e propriedade dele sobre o corpo da Terra e o da mulher.
Essa mesma lógica dissociou o sagrado da Terra e da figura feminina, para que o patriarca pudesse explorar, dominar, usar e violentar ambas a seu bel prazer, como melhor lhe servisse. Esse projeto acabou criando um sistema que, há milênios, gera enorme violência contra a mulher e a própria Terra.
Mas como foi possível justificar essa superioridade e consolidar essa ideia no nosso imaginário, nas nossas mentes e corações, por tanto tempo?
Criando narrativas simbólicas que sustentassem qualquer discurso necessário para manter o controle e o poder. Isso foi tão bem feito que, mesmo mudando os tempos, os discursos e as ferramentas, essas construções simbólicas sustentando tais valores e seguiram mantendo e justificando o sistema.
Na aula Mitos e Mulheres do curso A Explicação do Mundo através dos Mitos, da socióloga Thaysa Barbosa, isso ficou ainda mais explícito pra mim. Ali percebi o quanto nós retroalimentamos esses mitos e arquétipos com nossos comportamentos, fortalecendo a sua força no nosso imaginário e, assim, na nossa cultura e consciência por séculos. E por isso, precisamos tanto mudá-los.
Mas é possível fazer isso, mudar?
Claro que sim!
Como tão bem diz a teóloga ecofeminista Ivone Gebara, como frutos da dimensão nossa humana que são, e que é mutável, mitos e arquétipos podem e devem mudar. Para que, assim, possamos mudar a realidade por aqui.
Essa compreensão me fez despir planetas e signos de associações com deusas, deuses, masculino e feminino. E, pela mesma razão, abandonar o conceito de casamento sagrado entre Sol e Lua, animus e anima, na minha prática astrológica. Porque essas ideias reforçam e supersustentam toda essa divisão arbitrária entre masculino e feminino criada pela lógica patriarcal, e seguem associando características como passividade e subalternidade à mulher e agência e autonomia ao homem no nosso imaginário.
Sabendo isso, como seguir usando tais conceitos? Impossível pra mim.
Eis porque passou a fazer muito mais sentido pensar e usar um TAO qualificado por atributos e não mais por palavras e imagens que remetam a gêneros. A noite, a escuridão, o yin representam o inconsciente, o repouso, o vazio, o desconhecido, o recolhimento, o mistério, a alma, a capacidade de conceber novas ideias. E, por sua vez, o yang, o dia e a luz simbolizam a ação, a consciência, a exposição, o conhecido, o espírito, a vontade, a capacidade de implementar nossas ideias no mundo.
A propósito, toda a ideia de sagrado feminino e masculino me parece mais uma pegadinha do patriarcado que ajuda a sustentar suas estruturas de poder, alimentando suas narrativas, ficções, valores, hierarquias e violências. Exatamente por que essa é uma construção que segue a lógica patriarcal de divisão hieráquica por gênero no nosso imaginário.
Sabendo que a hegemonia de um sagrado masculino é um conceito institucionalizado por homens, como uma forma de ter poder sobre as mulheres e alguns grupos, o que atribui à religião uma função política de controle, compreendo o movimento de contestação e discordância à narrativa hegemônica que há na exaltação das figuras de deusas.
Mas como minha proposta é abandonar construções simbólicas que seguem a lógica patriarcal de divisão hieráquica por gênero no nosso imaginário, faz muito mais sentido, pra mim, falar da existência do sagrado, essa dimensão misteriosa da vida, sem divisão alguma por gênero.
Isso não significa, no entanto, abrir mão da presença das figuras das deusas e seus simbolismos potentes que dialogam com nossa alma e psique. Pelo contrário, venho buscando referências simbólicas femininas pra associar aos arquétipos astrológicos até então representados apenas a figuras de deuses masculinos na astrologia. Mas pra isso, novas histórias e construções/releituras de mitos são necessárias.
Tudo isso me impactou profundamente e vem se refletindo na minha prosa e astrologar, como já falei aqui. É por isso que fiz toda essas mudanças que contei e criei Dona Astrô Feminista. Porque simplesmente me recuso seguir cultivando, no nosso imaginário e na nossa paisagem cognitiva, na mente e no coração, qualquer construção simbólica que perpetue ideias e valores patriarcais que nos calam e geram tanta violência contra a mulher e a Terra.
Eu sei que estamos apenas engatinhando nesse processo de mudar e recompor a nossa paisagem simbólica, essas narrrativas no nosso imaginário, como diz Thaysa. Para ela, “estamos vivendo a fase seminal da autoconsciência simbólica” e começando a entender que feminino é esse. E é preciso de um esforço coletivo de 10 gerações para mudar isso.
Caraca!
Acabo de me dar conta de que Dona Graça, minha mãe, do alto dos seus 80 anos, tem mais tempo no mundo do que o reconhecimento e a legitimidade da mulher para pensar e explicar o mundo e as nossas relações nele. Afinal, até cerca de 60/70 anos atrás, apenas homens tinham voz autorizada e reconhecida para isso.
É um trabalho de gerações, mesmo.
A boa notícia é que já estamos fazendo isso. Temos nos mobilizado e sonhado e imaginado juntas outras narrarivas, a fim de mudar no imaginário e nos comportamentos nossos de cada dia as realidades que vivemos e sentimos na pele. É por isso, volto a repetir aqui, que amo tanto me reunir com grupos de mulheres pra repensar o mundo!
Juntas, vamos rachando e dissolvendo conceitos e ideias no nosso imaginário que retiram a soberania da nossa existência e a legitimidade da nossa voz. Juntas, já estamos mudando tudo isso, construindo coletivamente essa mudança em nós, nas nossas comunidades e ao nosso redor, nas mais diversas áreas. E isso é promissor.
Imagem: Bruce Warrington/Unsplash

14 outubro 2022 @ 07:19
Adorei essa reflexão!
15 outubro 2022 @ 17:49
Que legal te receber aqui, Jaque! Legal que você curtiu a reflexão. Obrigada pelas palavras! Bjs