Imagem: Jon Tyson/Unsplash
É incrível como, em pleno século 21, o nosso entendimento de mundo e sociedade segue sendo guiado por conceitos e histórias que deveriam ter ficado pra trás. Mas que, pelo contrário, que seguem firmes e fortes sedo alimentados e nutridos dentro de nós, assim perpetuando violências e injustiças.
Por exemplo, porque é muito mais comum um homem desrespeitar e interromper uma colega numa reunião de negócios, estuprar uma mulher e agredir verbal ou fisicamente a companheira?
Porque fomos todas e todos ensinados que o homem é superior à mulher, desde quando começamos a nos organizar como sociedade.
Lá na Grécia Antiga, Aristóteles decretou que as mulheres eram seres inferiores, incompletos e uma versão mutilada do homem. Depois, em nova versão dessa ideia, a igreja católica acusou a mulher de ser a causadora de todos os males do mundo.
Também no Código de Manu, uma espécie de Código de Hamurabi da Índia, foi escrito que a mulher poderia ser a causa da desgraça de sua família por sua fraqueza. Razão pela qual, entre outras coisas, as mulheres deveriam ser vigiadas dia e noite pra evitar isso.
Quem concorda com isso é Buda. Para ele, nascer mulher era um castigo kármico que a pessoa que fez algo de errado na vida anterior sofre. Al´me disos, por ser a materialidade do desejo, a mulher era mais fraca.
A mitologia budista reforça essa ideia ao contar como o deus Brahma criou mais três cabeças para si, cada uma delas com cem olhos, para assim poder vigiar a esposa Saraswati.
Séculos e séculos depois, veio a Revolução Científica e o Iluminismo. E o que aconteceu?
Rebranding dessas histórias, que ganharam novas versões, claro!
Nessa época, surge a ideia do contrato social, uma metáfora utilizada apor pensadores homens pra explicar a relação entre os cidadãos, os indivíduos, e o Estado. Através dele, o homem e o Estado firmam um acordo pra lhes garantir a sobrevivência.
Como a mulher não era considerada um indivíduo, já que não possuía as habilidades e aptidões para ser considerada como tal, ficou de fora da Fraternidade, desse Clube dos Brothers.
Mas não só isso!
Por ser irracional e guiada por suas paixões e, portanto, um ser inferior, devia ser constantemente tutelada, vigiada pelo homem. Pois é…
A partir dessa ideia, diversos discursos ‘científicos’ foram elaborados, atribuindo características à ‘natureza e essência’ da mulher e do homem, fundamentados nessa ideia hierárquica e arbitrária da inferioridade da mulher. Essas novas versões de velhas histórias também associaram a tal natureza feminina à docilidade, passividade, cuidado, sentimentalismo, fraqueza, incapacidade intelectual, histeria, e todo esse blablabla.
Além de desígnio divino, a inferioridade e incapacidade da mulher agora também era uma (in)verdade científica.
E pra quê?
Entre outras coisas, pra manter a mulher sem voz, subserviente e dentro de casa, sem noção, reconhecimento e remuneração alguma diante da sua importância e papel na manutenção e perpetuação desse Estado.
Com a Revolução Científica e o Iluminismo, cientistas e pensadores criam novas versões para histórias/narrativas bem antigas. Agora, com a soma do racismo, reforçando ainda mais a violência e a opressão de todos aqueles considerados inferiores pela régua do patriarca branco supremacista.
Lá na Antiguidade, Aristóteles afirmou que a escravidão de povos conquistados era supernormal! Algo tipo “povo que conhece seu valor não acaba escravizado”. Tá ligado?
Tempos depois, pra justificar o injustificável durante o colonialismo, a igreja católica destitui os corpos negros de alma e humanidade, e diz que os negros eram animalescos, tipo besta.
Entram em cena iluministas e cientistas e, com eles, desponta o racismo científico, colocando m discurso científico valores e ideias aristotélicos que a Igreja assinou embaixo e, a partir deles, fez uma versão religiosa pra justificar a escravidão, o genocídio e a sanha colonialista.
Os cientistas usam estudos da biologia, fisionomia, antropometria, psicologia, antropologia e outros para buscar justificar cientificamente o racismo. E, com isso, criam as teorias de raças humanas superiores e inferiores.
Tempos depois, já no século 19, num rebranding dessa ideia, Rudolf Steiner, o criador da Antroposofia e da pedagogia Waldorf, institui o racismo esotérico, quando passa a classificar a evolução espiritual das pessoas conforme a cor da pele. Quanto mais evoluído espiritualmente, mais louro, branco e de olhos claros a pessoa é.
Para ele, povos negros e ameríndios estariam no mais baixo grau de evolução espiritual que até mesmo seu genocídio podia ser necessário e justificado. Na obra “O Significado Oculto do Sangue”, ele chega a afirmar que “certos povos aborígenes precisam perecer no momento em que colonizadores chegam à sua parte do mundo”.
Aí, quando um babaca qualquer sai atirando, mirando corpos negros, indígenas, asiáticos e mulheres, acham que não há ligação alguma com as narrativas de mundo criadas por homens ao longo dos séculos e adotadas como “verdades”.
Entender a relação entre esses discursos que edificam ideias de como é o mundo e o que acontece no cotidiano explica MUITO a violência que até hoje mulheres, corpos pretos, indígenas e tantas outras espécies sofrem.
Sabe o que mais me impressiona nisso tudo?
É que mudam os tempos, parece que tudo muda, mas nada mudou de fato e pra valer.
Sem quebrar as narrativas que sustentam tudo isso, nada muda e todo avanço e conquista pode ser de nós roubado, usurpado, retirado.
